Operadores do transporte público pedem coordenação real
No painel de fecho da conferência organizada pelo ECO, os líderes da CP, Metro, Carris, Transtejo Soflusa e Fertagus apontaram o caminho para modernizar o sistema.
Havia, na sala, quem estivesse no terreno há décadas e foi com essa experiência acumulada que os presidentes dos principais operadores de transporte público da Área Metropolitana de Lisboa fecharam a conferência ‘Transporte Público: Uma Década Depois – O Que Mudou?’, organizada pelo ECO com apoio da Transtejo Soflusa.
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A coordenação entre operadores abriu a conversa, moderada por André Veríssimo, subdiretor do ECO, com Rui Rei, presidente da Transtejo Soflusa, a citar uma frase que ouviu de um sindicalista na véspera: “As empresas são importantes, mas o que é importante é o sistema”. E concordou. “As empresas finalmente sentam-se e conversam. Isto melhora o sistema e, a breve prazo, melhora o serviço”, disse. Sobre o que ainda falta fazer, considerou que “não é aceitável que em 2026, no século XXI, uma pessoa que não faça esta travessia diariamente chegue a este terminal e não saiba qual é o transporte que a apanha do lado de lá”.

Rui Rei defendeu a TML enquanto entidade coordenadora e planeadora da rede, e definiu o que deve ser o perfil das empresas do setor. “As empresas não são estrelas em si próprias. As empresas prestam um serviço para o qual foram criadas, sejam elas públicas, sejam elas privadas”.
A questão tarifária foi outro momento de tensão durante o debate, com Cristina Dourado, presidente da Fertagus, a ser questionada sobre se a introdução dos passes Navegante chegou cedo demais, antes de a oferta estar preparada. Para a responsável, devia primeiro discutir-se a oferta e só depois mexer no tarifário. O que aconteceu, explicou, foi que a redução drástica dos preços atraiu uma procura que o material circulante disponível não conseguia absorver.
“Hoje, 65% dos meus clientes não têm carro”, disse, sublinhando a mudança radical no perfil dos passageiros. Se antes 70% dos utentes da Fertagus possuíam automóvel, hoje a maioria depende do comboio. Uma conquista, acredita, mas também uma pressão crescente sobre um sistema que não acompanhou a procura em termos de investimento.
Só conseguimos manter o serviço porque temos elevadas capacidades de manutenção e de engenharia
Rui Lopo, presidente da Carris, colocou o dedo numa ferida mais estrutural que tem a ver com a falta de integração entre políticas públicas. O dirigente argumentou que a descida dos tarifários transferiu valor para o mercado imobiliário, sem que esse ganho tivesse sido reinvestido nos transportes. “Pegámos nesse dinheiro, entregámos à construção, entregámos à habitação”, apontou. Sobre o futuro imediato, comprometeu-se com a descarbonização da frota até 2029 e defendeu que “a Carris tem de ter uma ligação ao aeroporto”. Quando? “Assim que tivermos meios para isso”.
Pedro Moreira, presidente da CP, foi confrontado com a realidade de uma empresa que opera comboios com uma idade média de 46 anos, ainda que algumas composições nas linhas de Cascais tenham entre 65 e 75 anos. “Só conseguimos manter o serviço porque temos elevadas capacidades de manutenção e de engenharia”, reconheceu. As primeiras das 153 novas automotoras encomendadas à Alstom chegam ainda este ano para serviços regionais e as destinadas à linha de Cascais chegam a partir de 2029.
Sobre a alta velocidade, o presidente da CP diz que a empresa não tenciona subconcessionar o serviço. “Estamos convictos que temos todas as competências técnicas e organizacionais”, sublinhou.
Cristina Vaz Tomé, presidente do Metro de Lisboa, apresentou datas concretas para as obras de intervenção na linha circular, que deverá ficar concluída no primeiro trimestre de 2027. Para a linha vermelha, aguarda-se a confirmação do financiamento pelo Banco Europeu de Investimento, devendo a adjudicação da obra acontecer em setembro ou outubro. Quanto à interoperabilidade, o Metro está a trabalhar com a Transtejo e a CP para antecipar o início da operação matinal para as 5h30, com um piloto previsto para outubro.
O debate terminou com um balanço agridoce e o reconhecimento de que muito foi feito na última década, mas também que o sistema continua a exigir mais coordenação, mais investimento e uma integração de políticas que hoje ainda funcionam em silos.
Assista à conferência no vídeo abaixo.
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