João Marques da Silva x Pedro Santa Clara: Só se fica no mapa se houver transformação

O co-CEo da Galp, João Marques da Silva, e o professor catedrático da Nova SBE, Pedro Santa Clara, falaram de como se permanece relevante. Transformação é a palavra de ordem na qual se encontram.

  • O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação.

João Marques da Silva, co-CEO da Galp, e Pedro Santa Clara, professor catedrático da Nova School of Business and Economics, sentaram-se lado a lado no palco do Festival Eco, para discutirem o tema ‘Como permanecer relevante num mundo onde ninguém tem o mapa’. Conhecem-se há menos de um ano, mas o gestor da Galp recorda os seus encontros como “inspiradores”.

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A última vez que conversaram, num jantar, ficou uma “sensação inacabada de desafio”, afirma João Marques da Silva, para depois rematar: Pedro Santa Clara “leva-me para outros territórios de pensamento, e neles posso encontrar um caminho para a organização que represento, que tem necessariamente de se transformar”.

A Galp está num processo de transformação badalado, que é a fusão de áreas da empresa portuguesa com áreas da espanhola Moeve. Sobre esta união de forças, que está em fase de negociação, o co-CEO coloca desta forma a ordem de trabalhos: “Temos de ser donos de algo relevante, depois discute-se a percentagem dessa propriedade”.

Por seu lado, olhando ao setor onde se move, o professor e empreendedor Pedro Santa Clara apresentou uma visão crítica do sistema de ensino, atirando que “a escola mata a curiosidade“. Sobre o seu próprio caso, diz: Desperdicei 19 mil horas sentado na escola, ainda por cima quando era novo e bonito”.

Atualmente, o professor vê a Inteligência Artificial como o último elemento de disrupção do modelo de ensino. “A IA vai ao âmago da função de uma escola, que é o conhecimento. Isto obriga a repensar modelos, mais do que ficar agarrados ao nosso modelo”, considera.

Pegando no exemplo da instituição de ensino que fundou, a Escola 42, garante que pratica “um modelo muito superior ao tradicional” o qual, de certa forma, dispensa os professores. O que leva à questão: “Como é que uma universidade vai tomar a decisão de acabar com o papel dos seus professores? Não vai, nunca”, admite.

Para os incumbentes, sejam universidades ou outras entidades, como consultoras, bancos ou sociedades de advogados, “é como estar a pilotar um avião e a transformar o avião ao mesmo tempo, em pleno voo“.

Os perfis

  • João Marques da Silva é co-CEO da Galp, empresa na qual trabalha há mais de duas décadas. Entrou na empresa em 2002 na área da gestão do planeamento e controlo corporate, tendo passado depois por cargos na gestão financeira das unidades de Supply&Trading e Gas&power, depois na chefia de Corporate Finance e M&A (2014-2017) e do retalho em Espanha (2017-2023), antes de entrar no board executivo em maio de 2023.
  • Pedro Santa Clara é Professor Catedrático de Finanças na Nova School of Business and Economics desde 2007. Licenciou-se em Economia nesta mesma universidade e um doutoramento em Finanças no INSEAD. No início de 2019, Santa Clara fundou a Shaken Not Stirred, uma empresa que promove e gere projetos de educação e da qual ‘nasceram’ o 42 Lisboa e 42 Porto. É fundador e membro do Conselho de Administração do Instituto Mais Liberdade, um grupo de reflexão que promove os ideais liberais.

 

O momento de humor

No âmbito do tema das universidades e da transformação que desenvolvimentos como a IA impõem, Pedro Santa Clara afirma que estas “têm outro problema, que é uma sobranceria suprema”. E recordou uma história que considera ilustrativa, quando discutia as ameaças às universidades: “Uma reitora de uma universidade lembrou-me que as universidades têm mil anos, mas eu respondi que os dinossauros viveram cinco milhões [de anos] na terra“. E isso não impediu que fossem extintos.

O momento de tensão

O co-CEO da Galp, a propósito das negociações para a fusão com a Moeve, que coincidem com um cenário de preocupação com o abastecimento de combustíveis, acusa: “Há tanta gente a falar de energia, e muita pouca gente a perceber como estes ecossistemas funcionam“. João Marques da Silva sublinha que as energéticas são “altamente impactadas pela falta de escala” e, por isso mesmo, tem-se assistido ao mesmo tipo de junção de forças que a Galp espera ter com a Moeve. “Não somos os únicos a trabalhar parcerias por esse mundo”, indica.

A ideia para o futuro

O responsável da petrolífera Galp considerou que a transição energética “é muito importante” e terminou reconhecendo que, para a executar, “temos de transformar as pessoas” – um aspeto em que o encontro com Pedro Santa Clara teve impacto.

Na ótica do professor da Nova SBE, para conseguir evoluir, em particular no ensino, é necessário fomentar características diferentes. “Ser curioso, ser criativo, ter o bom gosto para tomar as decisões certas, ter empatia. São coisas que se aprendem por experiência, aprendem-se mas não se ensinam na escola“, defende o fundador do Tumo e da Escola 42.

As frases

É importante sermos donos de algo relevante. Depois podemos discutir a percentagem [na fusão de áreas com a Moeve]

João Marques da Silva

Co-CEO da Galp

A escola mata a curiosidade.

Pedro Santa Clara

Professor Catedrático da Nova SBE

 

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