Festival ECO. A lição dos dinossauros no elogio à criatividade e transformação

Festival ECO. Criatividade, inovação, tolerância, empatia e cultura foram pontos cardeais apontados pelos oradores, partindo da área de cada um mas encontrando-se a meio de uma jornada de partilha.

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Pedro Santa Clara recordou uma conversa tida com a reitora de uma universidade, quando ele a alertava para os perigos da falta de adaptação. Ela “lembrou-me que as universidades têm mil anos, mas eu respondi que os dinossauros viveram cinco milhões na terra”. E isso não impediu que fossem extintos.

Vivemos tempos de ameaça e de transformação, mas se para muitas entidades o primeiro fator estimula o segundo, noutras o efeito é o de paralisia. E se estamos “num mundo onde ninguém tem o mapa”, aproveitando o título do painel de Santa Clara e de João Diogo Marques da Silva, co-CEO da Galp, as várias conversas tidas na última parte das conversas improváveis do Festival ECO deixou-nos várias pistas. Criatividade, inovação, tolerância, empatia, cultura, foram pontos cardeais apontados pelos oradores.

“Acreditamos que há uma ligação muito forte da criatividade com a arte e que essa ligação traz resultados relevantes. É fácil atrair talento, o difícil é despertar a criatividade das pessoas quando vão trabalhar”, explicou Miguel Cardoso Pinto, líder da EY-Parthenon Portugal, que convidou a estar consigo a artista plástica e muralista Joana Pitanga.

A arte (sejam livros ou música) tem a capacidade de ligar emoções e sentimentos” e “despertar curiosidade ou algo de novo no que as pessoas fazem”, portanto “ver murais” e estar em contacto com “outras obras de arte obrigam as pessoas a olhar para o mundo e a pensar de forma diferente”, defende.

Já a artista lembra que “trazer arte urbana para dentro de uma instituição é algo que o nosso país não aposta tanto. Uma obra na rua é para todos, para quem passa e para todas as faixas etárias, mas quando estamos a trabalhar indoor o público é quem habita o espaço”.

A lição que vem de longe

Voltando ao início, muito ao início, à conversa dos dinossauros, usados como exemplo de algo que durou muito tempo e, ainda assim, não resistiu aos tempos de mudança cataclísmica.

A última vez que conversaram, num jantar, ficou uma “sensação inacabada de desafio”, afirma João Marques da Silva, Co-CEO da Galp, para depois rematar: Pedro Santa Clara “leva-me para outros territórios de pensamento, e neles posso encontrar um caminho para a organização que represento, que tem necessariamente de se transformar”. O que é exigente numa grande empresa num setor, ele próprio já em transformação devido à questão climática.

Santa Clara foi ao tema da IA para ilustrar que ninguém pode ficar parado e achar que tudo será como dantes. Para os incumbentes, sejam universidades ou outras entidades, como consultoras, bancos ou sociedades de advogados, “é como estar a pilotar um avião e a transformar o avião ao mesmo tempo, em pleno voo“.

Mas o Festival ECO continuou a cruzar o mundo lato da economia com as artes, nomeadamente a literatura.

Os livros e a empatia

José Eduardo Martins, sócio da Abreu Advogados e ex-deputado, e Ana Bárbara Pedrosa, escritora e finalista do Prémio Eça de Queiroz, fizeram uma análise sobre o momento da sociedade. O advogado sublinhou que quase toda a gente que está no espaço público “tem medo que lhe passe um tema à frente que não saiba do que se trata”.

A política, por exemplo, tornou-se uma coisa que precisa de muita rapidez. Esta incapacidade de parar para refletir é reflexo desta viragem de todos poderem dizer alguma coisa sobre tudo. Porque andamos irritados, também. Porque não conseguimos enfrentar coisas a sério”, disse.

Uma posição que Ana Bárbara Pedrosa partilha também, considerando que as redes sociais imprimiram uma “velocidade à vida” que consiste em ver um “título e arranjar maneira de arranjar um alvo”.

As pessoas são invadidas por informação, o que faz com que haja uma espécie de FOMO [fear of missing out]. Anda tudo atrás de alguma coisa o que significa que não dá tempo para ler nada até ao fim”, disse.

A escritora considera ainda que a sociedade está “muito polarizada” e que não há “grande” espaço para debate. “Não me interessa muito num debate a ideia de ter razão, interessa-me mais um debate em que aprendas alguma coisa do que estar num ringue para matar o outro“, disse.

Falou-se ainda de empatia e de como a arte pode contribuir para uma visão diferente do outro, eventualmente mais lenta mas necessariamente mais profunda.

A palavra como ponte

Se há coisa que um advogado e um escritor têm em comum é a palavra. Daí partiu a conversa entre o advogado Nuno Cerejeira Namora e o escritor Pedro Chagas Freitas, que acabaram por desembocar num debate acerca do que é a empatia, a falsa empatia e os seus derivados.

A doença do filho levou Chagas Freitas ao contacto com o que chamou de a ‘religião’ da empatia. Ou da falsa empatia. “Eu percebi [isso] com o que me aconteceu, quando morreu o meu pai, dois meses depois o meu filho foi internado e ficámos aqueles meses todos no hospital, (…) E o que eu sentia no olhar das pessoas era, ‘oh, coitadinho, morreu-lhe o pai, oh, coitadinho, tem um filho internado, está doente, coitadinho, tem tanta pena dele, sou tão empático’. Não és, és um brutamontes”.

“A pena é a coisa mais brutamontes que existe, é a coisa mais insensível que existe. É o contrário da empatia”, prosseguiu.

No final Nuno Cerejeira Namora admitiu que já foi meio “brutamonte” — para usar a palavra de Chagas Freitas, mas também diz que consegue dar a mão ao outro e “levantar com empatia”.

E qual foi o maior gesto de empatia que conseguiu ter ao longo destes anos de trabalho? “Isto não vai ficar bonito”, disse o advogado, soltando logo alguns risos na plateia. “Mas eu gosto de ser o Robin dos Bosques. Eu gosto ajudar os pobres a lutar contra os ricos. Gosto de causas difíceis. Gosto do David contra Golias. E gosto de dar força aos fracos. E, portanto, há muitas situações em que até me sinto socialista de não levar dinheiro a pessoas que não tinham capacidade”.

Uma orquestra como metáfora

O último painel do dia voltou ao tema da colaboração, tendo como protagonistas António Brochado Correia, presidente da PwC Portugal, e o maestro Martim Sousa Tavares.

Segundo este, a lição começa logo na forma como uma orquestra avança. “A orquestra é uma ótima metáfora. É um lugar onde o grupo não anda ao ritmo do que anda mais rápido, mas do que anda mais devagar”, explicou o maestro da Orquestra do Algarve onde dirige cerca de cem músicos num espaço de apenas cem metros quadrados.

Para Martim Sousa Tavares, essa proximidade obriga a uma cumplicidade que poucos ambientes de trabalho conhecem. E vai mais longe na crítica ao culto do talento individual: “Não me interessa ter grandes virtuosistas, tecnocratas, quando as pessoas não são capazes de trabalhar umas com as outras.”

António Brochado Correia, presidente da Pwc Portugal, músico desde os 11 anos e que já teve Martim Sousa Tavares como maestro, trouxe a mesma convicção para o mundo empresarial. “Hoje medimos mais comportamentos do que inteligência individual de cada um. Se um elemento numa equipa falhar é suficiente para perder tudo”, disse o líder da consultora, acrescentando que “tendencialmente, o ser humano é individualista e tende a cooperar pouco”, e que é precisamente isso que é preciso contrariar.

Para o gestor, envolver os profissionais nas artes não é um luxo, é uma necessidade estratégica: “As artes ajudam-nos a pensar além da nossa capacidade técnica.”

Antes de Martim Sousa Tavares se sentar ao piano e encerrar o Festival ECO, na presença de um interessado Presidente da República, o dia de debate acabou com a mensagem da colaboração, da empatia e da polinização cruzada de áreas, exatamente o que esteve na origem do espírito do evento.

O ECO comemorou os seus 10 anos mas os presentes foram as reflexões trazidas a debate, em benefício de uma sociedade mais rica, mais plural e mais colaborativa.

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