António Lobo Xavier x António Lobo Xavier: o filho que teve “coragem” de romper com o legado de Direito
António Lobo Xavier: o nome é comum ao pai, chairman da EDP, e ao filho, chef revelação. No Festival ECO abordaram a “Tradição familiar e escolha individual, herdar um caminho e construir o próprio”.

- O Festival ECO, que decorre esta quarta-feira no CCB em Lisboa, marca o arranque das celebrações do 10.º aniversário do ECO com um festival de ideias, cultura, encontros e jornalismo ao vivo, reunindo leitores, parceiros e protagonistas de diferentes áreas num encontro que cruza economia, política, cultura, liderança e inovação
Sempre sentiram um fascínio pela gastronomia, mas foi o filho, homónimo do pai — António Lobo Xavier — que teve “a coragem” de romper com uma tradição familiar de cinco gerações de advogados. Ainda tentou seguir as pisadas do progenitor na advocacia, agora chairman da EDP, mas o sonho de ser chef falou mais alto. Acabou por desistir da licenciatura, ainda que com alguma “mágoa” sentida pela mãe. Do pai colheu rasgados elogios, até porque o próprio assumiu que também teve “uma tentação” como o filho.
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À conversa com o filho no painel “Tradição familiar e escolha individual, herdar um caminho e construir o próprio”, o chairman da EDP reconheceu que “não teve a coragem do filho” em romper com o legado familiar e optar por outra profissão. “O meu pai era o meu professor, vivíamos a 100 metros da universidade e eu não podia chumbar, não podia ter más notas”, recordou, enfatizando o peso da carga familiar que carrega ao logo de cinco gerações e a que chamou de “geração sufocante de advogados“.
Mas não se pense que facilitou a vida ao filho. O agora chef do restaurante Polémico teve de provar que, afinal, era mesmo uma vocação e não iria desistir como tinha feito com a licenciatura de Direito. Não se livrou de atestar a escolha, já em família, com a apresentação de um diploma de Cozinha que tirou em Londres e lhe “custou horrores; foi muito exigente“. E muito menos se livrou de um sermão do pai: “Não vou andar aqui a pagar cursos; o que vais fazer agora é bater à porta de restaurantes, se algum aceitar”. E assim foi. “Bati à porta de um restaurante no Porto e a partir daí foi sempre a trabalhar”, lembrou.
Ainda assim, o jovem chef revelação assumiu que acabou por ingressar no curso de Direito, “não por sentir pressão” do legado familiar na área da advocacia; mas por achar que acabava por ter algum “facilitismo por ter um professor em casa”. Mas, reconheceu: “Foi um tiro no pé, porque ainda hoje continuaria na universidade se tivesse continuado Direito. Não por culpa do meu pai, mas porque não tinha essa capacidade para aquilo, ao contrário das minhas irmãs.”
Ao lado do pai, o jovem chef reconheceu que “a desistência de um curso é sempre dura”. Mas acabou por concretizar uma paixão que também em tempos foi do pai. O chairman da EDP “não queria que fosse apenas uma coisa de inspiração, tipo artista”, mas sim que o filho tivesse uma “base de conhecimento sólida que fez em Londres e uma base de dureza, os restaurantes são duros“. E assim foi. “Mesmo não estando no ramo [do pai], havia um nível de exigência alto” no mundo gastronómico, admitiu o chef, assinalando que “tendo falhado aquela etapa [a licenciatura de Direito]”, a maior exigência veio dele próprio para trilhar caminho. “Foi muito duro e muito tempo de luta interna comigo até chegar à conclusão: já mostrei que é mesmo isto onde quero estar e criar as minhas bases.”
A verdade é que, vincou, foi mesmo dentro de portas que herdou o bichinho pela cozinha. “Tudo o que herdei [foi] em casa, [desde] a curiosidade pela gastronomia, pelo vinho e bebidas espirituosas.” Valeu-lhe “esse leque de conhecimento e prova” no seio familiar. “Tive muita sorte de ter isso em casa, porque vi o interesse pelos vinhos de Borgonha, de Bordéus, o início da cozinha japonesa”, lembrou, entusiasmado. O pai confirmou-o: “Os meus filhos eram muito comedidos, as aulas de bar eram para lhes ensinar para que serviam os copos e onde estavam os copos em casa”.
Os perfis
- António Lobo Xavier é chairman da EDP, mas são muito os cargos que acumula. Sócio, administrador, consultor, membro do Conselho de Estado, comentador político e líder parlamentar do CDS. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1982, foi deputado à Assembleia da República entre 1983 e 1996 e líder parlamentar de 1992 a 1994. Integrou ainda a Comissão da Reforma Fiscal de 1998 e foi presidente da Comissão de Reforma do IRC de 2013, sem esquecer que foi um dos principais rostos da sociedade de advogados Morais Leitão.
- António Lobo Xavier, chef, partilha o mesmo nome com o pai chairman da EDP e comentador político. Ainda chegou a seguir-lhe as pisadas ao ingressar no curso de Direito, mas acabou por desistir para se dedicar à alta gastronomia. Passou pelo Cordon Bleu, em Londres, onde estudou, e aos 24 anos foi convidado a tomar as rédeas do Chez Chouette de Leopoldo Garcia Calhau, no bairro de Alvalade. Em janeiro de 2025, o jovem chef abriu com uns amigos o restaurante “Polémico” que, meses depois, foi o mais votado pelo público que participou na segunda edição em Portugal do TheFork Awards with Mastercard. E onde promete uma fusão gastronómica e explosão de sabores com um serviço de fine dining.
O momento de humor
O chef António Lobo Xavier arrancou algumas gargalhadas da plateia do festival ECO quando reconheceu: “Foi um tiro no pé, porque ainda hoje continuaria na universidade se tivesse continuado Direito. Não por culpa do meu pai, mas porque não tinha essa capacidade para aquilo, ao contrário das minhas irmãs”.
O momento de tensão
António Lobo Xavier, o pai, enfatizou o peso da carga familiar que carrega ao logo de cinco gerações e a que chamou de “geração sufocante de advogados”.
A ideia para o futuro
António Lobo Xavier deixou uma mensagem, no sentido de os pais encorajarem os filhos seguirem o seu projeto e propósito, e “evitar esmagá-los” com o “disparate” de quererem que sejam “cantores ou jogadores de futebol à força”. Já o chef reconheceu que ainda tem um caminho a trilhar: “Tenho um restaurante e outros dois projetos. Há muito para percorrer para dizer que cheguei a algum sítio”. Apesar de terem seguido carreiras diferentes e de o filho ter abandonado o curso de Direito, António Lobo Xavier confessou que adora cozinhar e que ninguém faz estufados e lampreia como ele.
Frases:
O meu pai era o meu professor, vivíamos a 100 metros da universidade e eu não podia chumbar, não podia ter más notas.
Tudo o que herdei [foi] em casa, [desde] a curiosidade pela gastronomia, pelo vinho e bebidas espirituosas. Tive muita sorte de ter isso em casa, porque vi o interesse pelos vinhos de Borgonha, de Bordéus, o início da cozinha japonesa.
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