Bonjour, Novobanco. Franceses tomam conta de uma instituição rentável e mais cara

O banco passa hoje para as mãos do BPCE, que vai pagar mais do que os 6,4 mil milhões estimados. Começo do novo ciclo não prevê qualquer rutura mas Novobanco quer ser importante no futuro do grupo.

Leonor Gonçalves/ECO
ECO Fast
  • • O grupo francês BPCE tornou-se hoje oficialmente o proprietário do Novobanco, após a assinatura do contrato com o Estado e o Fundo de Resolução.
  • • A venda encerra um longo processo iniciado com a resolução do Banco Espírito Santo em 2014, que levou à criação do Novobanco e a sucessivas fases de reestruturação e recapitalização.
  • • Em 2017, a norte-americana Lone Star adquiriu 75% do Novobanco, injetando mil milhões de euros e beneficiando de um acordo de capital contingente que resultou em mais de 3,4 mil milhões de euros de apoio estatal.
  • • O Novobanco apresenta atualmente resultados positivos, com um lucro líquido de 828,1 milhões de euros, um rácio NPL de 2,9% e um CET1 de 17,4%, consolidando a sua posição como um dos principais bancos nacionais.
  • • Com a entrada do BPCE, a administração executiva mantém-se liderada por Mark Bourke, prevendo-se apenas mudanças no Conselho Geral e de Supervisão e alguma integração de serviços de apoio.
  • • O negócio foi fechado por mais de 6,4 mil milhões de euros, com a expectativa de que o Novo Banco possa vir a desempenhar um papel na estratégia internacional do BPCE, embora tal ainda não esteja definido.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A partir de hoje, o grupo francês BPCE é, oficialmente, o dono do Novobanco. Com a assinatura final do contrato, que envolve o comprador e dois vendedores – o Estado e o Fundo de Resolução – fecha-se um capítulo decisivo na história daquilo que foi o Banco Espírito Santo. Esta é, pode dizer-se, a terceira e (praticamente final) morte do banco liderado por Ricardo Salgado até 2014.

Esse foi o ano da “primeira morte” da instituição, quando lhe foi aplicada pelo Banco de Portugal uma medida de resolução que, poucos meses antes, parecia um cenário demasiado hipotético para levar a sério. No verão de 2014, sob a liderança de Carlos Costa, o BES fica o banco mau e é criado, do dia para a noite, o Novobanco (nome que parecia solução de recurso e temporário mas que acabou por pegar e ficar), sob a forma de banco de transição, com este a receber uma injeção de capital de quase cinco mil milhões de euros, via Fundo de Resolução. O objetivo era garantir a continuidade do negócio e aproveitar os ativos bons para que o banco fosse recuperado.

O nome BES deixa de figurar enquanto marca comercial bancária, colocando um ponto final num percurso no qual a família Espírito Santo marcou o panorama financeiro e empresarial em Portugal. Vítor Bento, atual presidente da Associação Portuguesa de Bancos, assume inicialmente a liderança do Novo Banco, que foi depois ocupada por Eduardo Stock da Cunha e António Ramalho, nos anos seguintes.

Seguiu-se um processo de reestruturação do banco, enquanto se preparava o caminho para uma venda da instituição. Uma primeira tentativa de alienação deu-se logo em 2015, mas fracassou. Inicialmente, o então Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho assegurou que a solução encontrada era a melhor forma de conter as perdas do banco e impedir que os portugueses fossem chamados a pagar mais prejuízos. Porém, ao contrário do inicialmente afirmado, nem todos os ativos que passaram para o Novobanco eram bons, e ainda havia um longo caminho de reestruturação pela frente, com perdas obrigatórias pelo caminho. Os anos seguintes foram de prejuízos, na ordem das centenas de milhões.

O processo de venda é relançado e, apesar de alguns bancos portugueses terem admitido pelo menos estudar o dossiê, a única proposta considerada credível foi a da norte-americana Lone Star, conhecida por comprar ativos em stress a baixo custo, reestruturá-los e depois sair, encaixando uma grande mais-valia. Seria exatamente isso que viria a acontecer anos mais tarde. O negócio, que teve como uma das figuras-chave o então Secretário de Estado Sérgio Monteiro, foi fechado em outubro de 2017. A Lone Star comprometia-se a injetar mil milhões de euros no Novobanco e ficava com 75% do capital. Esta foi a segunda vida do Novobanco, já não como banco de transição mas como instituição em reestruturação/recuperação, mas mãos de privados. E foi a segunda morte do BES, cortando dessa forma qualquer relação, até pela forma como a marca Novobanco foi ganhando força autónoma e se afirmou.

Os anos seguintes foram marcados pelo famoso acordo de capital contingente, através do qual o Fundo de Resolução se comprometia a capitalizar o Novobanco até um valor máximo de perto de 3,9 mil milhões de euros. Com prejuízos sucessivos, a Lone Star foi exercendo até ao limite o seu direito de pedir injeções no Novobanco, gerando forte tensão com o Governo de António Costa. No final, entraram no Novobanco, por esta via, perto de 3,4 mil milhões de euros.

Finda a limpeza (e o dinheiro do acordo de capital contingente), e já com o irlandês Mark Bourke à frente da instituição, os resultados positivos foram reforçados e o antigo BES foi paulatinamente recuperando a normalidade do estatuto como um dos grandes bancos nacionais. Subiram os lucros e a rentabilidade, e os problemas de capital eram assunto definitivamente do passado. Para além disso, estava a chegar a data a partir da qual a Lone Star já podia voltar a vender o Novobanco. A meio do ano passado, os americanos e os franceses do BPCE (que compõem o segundo maior grupo bancário em França e quarto maior da Zona Euro) chegaram a acordo, com o valor a superar as estimativas mais otimistas: 6,4 mil milhões de euros, 75% dos quais para a Lone Star e o restante para o Estado e Fundo de Resolução.

É este negócio que fica hoje formalmente fechado, depois de obtidas todas as autorizações. Nicolas Namias, o CEO do BPCE, recebe hoje as chaves do banco português, que fecha definitivamente o capítulo de resgate, reestruturação ou transformação com vista à venda. Este é um acionista da indústria, de longo prazo. É a terceira e final morte do BES, que para muitos já é uma coisa distante.

De muitos milhões no vermelho a muitos milhões no verde

2018 foi o primeiro exercício completo da Lone Star à frente do banco, e é um possível ponto de comparação para onde estamos hoje. Nesse ano, o prejuízo foi superior a 1,4 mil milhões de euros, mas mesmo esse número não conta toda a história, tendo a instituição optado por apresentar as contas dividindo o “Novobanco Recorrente” e “Novobanco Legacy”. No conjunto, contava-se um produto bancário de apenas 484,2 milhões de euros, imparidades e provisões de 710 milhões, um rácio de NPL de 22,4%, 6,7 mil milhões de crédito não produtivo e uma base de capital ainda dependente do mecanismo de capital contingente, que foi aliás ativado em mais de mil milhões de euros, nessa altura. O ativo total rondava 48,3 mil milhões de euros, mas era um balanço ainda contaminado pela herança do passado, vendas de carteiras, ativos problemáticos e uma rendibilidade debilitada.

Em 2025, o Novobanco chega à venda ao BPCE como banco rentável, líquido e capitalizado. O resultado líquido do último exercício completo foi de € 828,1 milhões, o RoTE (Return on Tangible Equity) atingiu 21,6%, o produto bancário subiu para 1,57 mil milhões, o rácio NPL caiu para 2,9%, o crédito bruto chegou a 30,9 mil milhões, os depósitos a 32 mil milhões e o CET1 ficou em 17,4%. Olhando para a frente, a solvência já não é de todo questão, e sim a sustentabilidade futura da rentabilidade num ciclo de taxas menos favorável e perante incerteza económica.

Um futuro a olhar para fora

E agora, que o negócio está feito e os franceses se sentam na administração, o que muda no Novo Banco? Em termos formais, não muito, para já. Tirando a entrada de um administrador indicado pelo BPCE para o cargo de CFO, a comissão executiva do banco fica na mesma, continuando a ser liderada por Mark Bourke. Isso mesmo foi sempre assumido por Nicolas Namias, salientando que a compra do banco português se devia ao facto de este ser uma instituição rentável e muito bem gerida, e não por uma lógica de comprar barato para reestruturar. Isso já ficou lá para trás. De resto, as principais mudanças acontecerão no Conselho Geral e de Supervisão, com a substituição dos nomes ligados à Lone Star por outros indicados pelo novo dono.

Desde que o negócio foi anunciado, há quase dez meses, os franceses começaram a conhecer melhor a sua compra, ainda que formalmente não pudessem tomar decisões. O CEO do BPCE esteve várias vezes em Portugal e chegou a falar aos trabalhadores do banco, e há equipas de integração que foram conhecendo os cantos à casa, de forma a facilitar a transição de poder para um novo acionista. Ainda assim, no dia a dia imediato, pouco ou nada irá mudar. O negócio está a correr bem e a administração executiva será praticamente a mesma.

Para já, aquilo que se poderá esperar é alguma integração ao nível de serviços de apoio e backoffice, tirando partido da grande estrutura que o próprio BPCE já possui. De seguida, o grupo francês irá conhecer ainda mais a fundo o funcionamento do Novo Banco e da experiência que este tem no mercado nacional das empresas. O BPCE é um grande banco de retalho em França, também com grande presença no segmento empresarial, mas esta é a primeira compra de uma instituição de retalho fora de portas.

Tendo em atenção que o grupo francês tem no seu plano estratégico a expansão internacional, há alguma expectativa de que o Novo Banco possa desempenhar algum papel nesse movimento, ainda que tal não esteja definido. Fora do mercado francês, o BPCE está presente em muitos países mas sobretudo na área da banca de investimento e da gestão de ativos, através da Natixis, que tem instalações em Portugal. Também aí poderá haver uma oportunidade de complementar a oferta atual do Novo Banco.

Ao início desta quinta-feira, serão comunicados os resultados do Novobanco do primeiro trimestre, o último sob a responsabilidade da Lone Star enquanto acionista. De seguida, será comunicado o fecho da operação de venda com os valores finais, que acabarão por ser superiores aos estimados 6,4 mil milhões. É que esse valor tinha como ponto de referência o exercício de 2025, sendo que já passaram quatro meses desde então, durante os quais o negócio continuou a correr bem.

O BES pode ser uma distante memória para a maioria das pessoas, e a marca foi-se para sempre. Mas há ainda lesados a reclamar em tribunal e uma dívida no Fundo de Resolução que vai continuar a ter de ser paga por muitos anos.

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