Vendas da Tesla afundam na Europa. A reputação de Musk tornou-se um ativo tóxico?

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As vendas da Tesla caíram para cerca de metade na UE. Estão os consumidores a penalizar as posições de Elon Musk, agora homem forte da administração norte-americana?

As vendas da Tesla na União Europeia caíram 50,3% em janeiro deste ano, em comparação com o período homólogo, com os dados a indicarem que a empresa de Elon Musk vendeu 7.517 unidades no primeiro mês deste ano, em comparação com os 15.130 veículos de janeiro de 2024.

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Está este declínio relacionado com uma reação negativa dos consumidores às posições políticas de Elon Musk? Desde associações ao fascismo — na cerimónia de tomada de posse de Donald Trump fez um gesto amplamente interpretado como uma saudação nazi, por exemplo — à propagação de desinformação, nomeadamente através da plataforma X (ex-Twitter), da qual também é dono, têm sido uma constante as polémicas.

“Embora não se possa afirmar com certeza que há uma relação de causa e efeito direta, é inegável que a crescente associação de Musk a uma administração altamente polarizadora tenha impacto na perceção da marca, especialmente num mercado como o europeu”, entende José Pedro Mozos, diretor de assuntos públicos da All Comunicação, acrescentando que o eleitorado e os consumidores europeus tendem a “penalizar figuras e marcas associadas a movimentos políticos extremados”, pelo que a imagem do fundador da Tesla pode estar, efetivamente, a afetar diretamente as vendas da Tesla.

“Do ponto de vista da comunicação, Elon Musk sempre foi uma figura, no mínimo, excêntrica, mas até há pouco tempo mantinha a sua influência dentro do setor tecnológico. O seu envolvimento político recente, combinado com uma comunicação mais agressiva e polarizadora, transformou-o numa personalidade ainda mais suscetível de criar divisões. Ao longo dos anos, Musk tornou-se a face das suas empresas, o que pode ser uma vantagem em tempos de crescimento, mas também um risco quando a sua reputação pessoal está em queda“, refere ao +M.

Do ponto de vista da comunicação, Elon Musk sempre foi uma figura, no mínimo, excêntrica, mas até há pouco tempo mantinha a sua influência dentro do setor tecnológico. Ao longo dos anos, Musk tornou-se a face das suas empresas, o que pode ser uma vantagem em tempos de crescimento, mas também um risco quando a sua reputação pessoal está em queda”,

José Pedro Mozos

diretor de assuntos públicos da All Comunicação

Já Salvador da Cunha, CEO do grupo Lift, admite que a quebra das vendas da empresa automóvel pode estar, em parte, associada à quebra da reputação de Elon Musk na Europa, mas vê também na ameaça de criação de tarifas entre Europa e Estados Unidos — que “tornarão os bens duradouros e os serviços mais caros” — um fator a ter em conta na justificação da quebra de vendas.

Uma quebra tão violenta nas vendas da Tesla deverá ter esses dois fatores combinados“, afirma Salvador da Cunha, que admite que a Tesla pode estar a ser impactada por estar muito associada à imagem do seu líder e fundador, embora se trate de uma perceção variável consoante os mercados e as diferentes franjas da sociedade.

“A marca paga o preço na Europa e na China, mas valorizou brutalmente nos Estados Unidos. As ações da Tesla subiram mais de 50% em 2024, em resultado da eleição de Trump (entretanto está a corrigir). Claramente a reputação de Elon Musk está mais fraca fora dos Estados Unidos do que internamente, e mesmo internamente há muitas diferenças entre o que pensam dele os eleitores democratas e os republicanos. A reputação não é uniforme“, diz.

Já José Pedro Mozos acredita numa consequência mais direta. A Tesla e Elon Musk tornaram-se praticamente sinónimos. Se durante anos essa fusão de imagem beneficiou a marca, agora o efeito pode estar a ser o inverso“, diz a respeito daquela que é uma “vulnerabilidade comum a empresas fortemente personalizadas em torno de um único líder” e que é especialmente vincada quando “essa figura assume posições polarizadoras fora do seu setor de atuação”.

“Marcas como a Tesla, a SpaceX ou o próprio X [todas pertencentes a Elon Musk] refletem diretamente as decisões e a personalidade de Musk. Se por um lado essa identificação fortaleceu a marca junto de consumidores fiéis, por outro lado torna-a mais exposta a reações adversas quando Musk assume posições impopulares ou controversas“, acrescenta.

“Uma coisa é ser um CEO ativista, e defender certas causas, outra é ser um radical de extrema-direita que também é dono de várias empresas. A médio prazo isto vai-se refletir nos seus negócios, mas por agora o poder percecionado de Musk é tão grande que ninguém se atreve a fazer-lhe frente. Mais adiante os acionistas das suas empresas vão crucificá-lo”, vaticina.

Salvador da Cunha

CEO da Lift

As reações da sociedade e dos consumidores a estas posições de Musk têm sido diversas. Existem à venda e em circulação, por exemplo, adesivos que são colados nos veículos por clientes da Tesla nos quais se leem frases como “I got this before Elon went crazy” (“eu comprei isto antes de o Elon ficar maluco”, numa tradução livre), uma das mais icónicas e que acolheu mais mediatismo nas redes sociais. Já em dezembro, sublinhe-se, um vendedor norte-americano destes adesivos revelava que já tinha vendido cerca de 18 mil destes adesivos para 30 países, segundo a Business Insider.

Em Londres, um grupo de ativistas, numa ação de guerrilha, utilizou como suporte a imagem de uma paragem de autocarro para o arranque de uma campanha de angariação de fundos na qual se vê Elon Musk a fazer a saudação nazi e se lê a frase “Tesla – The Swasticar”, acompanhados pelo slogan “vai de 0 a 1939 em 3 segundos”, numa clara referência ao início da Segunda Guerra Mundial.

Ponto comum, no entender dos dois profissionais de comunicação, é o facto de a influência de Musk estar a contribuir para uma maior polarização. “A influência de Musk sempre foi polarizadora, mas nunca esteve tão ligada a questões políticas como agora. É possível que o impacto na Tesla continue a crescer, dependendo das suas futuras intervenções públicas e do contexto geopolítico global“, diz o diretor de assuntos públicos da All Comunicação.

Salvador da Cunha complementa que as posições que o dono da Tesla tem vindo a tomar de apoio a partidos europeus de extrema-direita também ajudam a polarizar as opiniões e perceções sobre si, o que “nunca é bom para as marcas”.

Uma coisa é ser um CEO ativista, e defender certas causas, outra é ser um radical de extrema-direita que também é dono de várias empresas. A médio prazo isto vai-se refletir nos seus negócios, mas por agora o poder percecionado de Musk é tão grande que ninguém se atreve a fazer-lhe frente. Mais adiante os acionistas das suas empresas vão crucificá-lo”, vaticina.

Em termos de apoios a partidos de extrema-direita por parte de Elon Musk, pode-se tomar como exemplo o seu envolvimento na campanha para as eleições legislativas alemãs do passado fim de semana, em que declarou apoio ao partido de extrema-direita AfD.

Esta tomada de posição parece ter obtido uma reação negativa dos consumidores, uma vez que só na Alemanha, o único país europeu que acolhe uma fábrica da Tesla, o tombo nas vendas da marca foi de 59% em janeiro face ao mesmo mês de 2024.

Na Polónia, o próprio ministro do turismo apelou a um boicote à Tesla após a aparição de Musk num comício do partido de extrema-direita AfD. “Tudo o que posso dizer é que provavelmente nenhum polaco normal deveria voltar a comprar um Tesla”, disse Sławomir Nitras, citado pelo The Guardian.

Mas as consequências são visíveis não só junto dos consumidores individuais. Já em agosto, a rede de farmácias alemã Rossmann avançou que não iria comprar mais carros Tesla para a sua frota corporativa devido ao apoio de Musk a Donald Trump, enquanto a empresa de energia alemã LichtBlick disse nas redes sociais que iria deixar de usar veículos Tesla por causa do apoio de Musk a um “partido populista e extremista de direita”, refere também o jornal britânico.

No entanto, alerta José Pedro Mozos, também se pode vir a verificar um “efeito de habituação“, quando “parte do público já se afastou da marca, enquanto os consumidores que permanecem fiéis podem não ser tão influenciados por novas controvérsias”.

O que parece certo é que Musk dificilmente irá moderar o seu tom ou afastar-se da esfera política. Pelo contrário, o seu histórico sugere que continuará a agir de forma imprevisível, o que pode gerar novas flutuações na perceção da marca, consequentemente, nas suas vendas“, preconiza José Pedro Mozos.

Para mitigar este impacto, a Tesla “pode reforçar a comunicação institucional da empresa, destacando os seus valores, a inovação tecnológica e o compromisso com a mobilidade sustentável, deslocando o foco da narrativa para além da figura de Musk“, aponta o diretor de assuntos públicos da All Comunicação.

Outra opção passaria por “dar maior protagonismo a outros líderes da empresa, reduzindo a dependência da imagem pessoal de Musk” mas, “dado o histórico da marca e a forte centralização na sua figura, essa pode não ser uma estratégia fácil de implementar”, conclui.

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