Contrato dos fundos Airbus “é lesivo dos interesses da TAP”, diz João Leão
João Leão, ex-ministro das Finanças, afirmou na comissão parlamentar de inquérito que os fundos Airbus recebidos por Neeleman para capitalizar a TAP podem não ser legais.
João Leão afirmou na comissão parlamentar de inquérito à TAP, esta terça-feira, que não teve conhecimento da existência dos fundos Airbus quando era ministro das Finanças, mas do que veio a saber posteriormente sobre o contrato feito por David Neeleman considera que este lesou os interesses da companhia aérea.
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“Tenho muitas dificuldades em perceber essa operação. Terá havido uma auditoria que alegadamente apurou ilegalidades. Qualquer procedimento em que se faça um contrato para a TAP mas o desconto vá para o acionista não é legal”, considerou João Leão. “É lesivo dos interesses da TAP”, concluiu.
A Atlantic Gateway, de David Neeleman e Humberto Pedrosa, assumiu na compra de 61% da TAP em 2015 o compromisso de capitalizar a companhia aérea com 226,75 milhões de euros. Dinheiro que foi entregue ao empresário de nacionalidade brasileira e americana pela Airbus, no âmbito da desistência de um contrato para a compra de 12 aviões A350 e a aquisição de 53 aeronaves da família A320 e A330. Uma análise legal da Serra Lopes, Cortes Martins & Associados, pedida pela TAP em 2022 e noticiada pelo ECO, considera a capitalização ilegal.
“Parece-me inadequado e ilegítimo acionista privado apropriar-se de 226 milhões que são da TAP. Deve ser investigado”, reiterou mais à frente na audição.
O antigo ministro das Finanças afirmou que enquanto exerceu funções governativas não foi informado da existência dos chamados fundos Airbus. “Não tive nenhum conhecimento desse processo e enquanto fui ministro nunca me foi comunicado”, disse.
Relação “bastante produtiva” com Pedro Nuno Santos
Hugo Carneiro quis saber como era a relação do ex-ministro com Pedro Nuno Santos, antigo ministro das Infraestruturas, que o criticou quando ainda estava no Governo. “No âmbito da TAP a nossa relação foi bastante produtiva e correu bastante bem”, respondeu João Leão.
“Nunca houve questão ou tensão em particular. O senhor ministro da Infraestruturas dedicou-se de forma muito dedicada aos desafios operacionais da TAP. Nós focámo-nos na parte financeira e na negociação do plano de reestruturação com a Comissão Europeia. Foi um diálogo positivo, acrescentou. O diálogo aconteceu, no entanto, sobretudo através do secretário de Estado do Tesouro, Miguel Cruz, que era quem estava com o dossiê do plano de reestruturação.
João Leão foi também questionado sobre a saída de Alexandra Reis e a indemnização bruta de 500 mil euros, que teve de devolver parcialmente. O ex-ministro das Finanças referiu que só soube da renúncia da antiga administradora executiva quando foi comunicada pela CMVM e da indemnização quando foi noticiada.
O antigo governante defendeu que cabia à ex-CEO da TAP, Christine Ourmières-Widener, e ao chairman, Manuel Beja, terem comunicado às Finanças a intenção de proceder a alterações no conselho de administração para que fossem aprovadas em assembleia geral.
João Leão foi ministro das Finanças entre 15 de junho de 2020 e 30 de março de 2022, entrando para o cargo logo após a aprovação de um empréstimo de emergência de 1,2 mil milhões, convertível em capital, para a TAP. Foi também já com o antigo secretário de Estado do Orçamento de Mário Centeno à frente do ministério que foi fechada a renacionalização da TAP, com o Estado a elevar a participação para 72,5% do capital com a compra da participação de David Neeleman, e foi concluída a negociação do plano de reestruturação da companhia aérea. Economista, é atualmente vice-reitor do ISCTE.
A comissão parlamentar de inquérito para “avaliar o exercício da tutela política da gestão da TAP” foi proposta pelo Bloco de Esquerda e aprovada pelo Parlamento no início de fevereiro com as abstenções de PS e PCP e o voto a favor dos restantes partidos. Nasceu da polémica sobre a indemnização de 500 mil euros paga a Alexandra Reis para deixar a administração executiva da TAP em fevereiro de 2022, mas vai recuar até à privatização da companhia em 2015. Tomou posse a 22 de fevereiro, estendendo-se até 23 de julho.
(notícia atualizada às 22h20)
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