Q&A Oscar Herencia: “Ganhámos o respeito dos portugueses”

O vice presidente da Metlife defende a tolerância ao erro no processo de inovação em seguros, mas afirma que água das pedras é melhor que nitroglicerina ao fazer experiências radicais nas seguradoras.

Oscar Herencia, Vice presidente da Metlife para o sul da Europa e director geral da MetLife Espanha e Portugal, apresentou a comunicação “Os “drivers” da empresa do futuro de um ponto de vista do CEO”, no fórum de gestores de seguradoras recentemente organizado pelo INESE em Lisboa.

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Na sua sistematizada exposição transpareceu sempre a especificidade da cultura dos portugueses. Viveu cinco anos em Portugal como diretor geral da Metlife, até que em 2012 a gigante americana juntou os negócios ibéricos e acumulou a direção geral de Espanha. Já no ano passado passou a vice presidente para o sul da Europa passando igualmente a ocupar-se de Itália, Grécia e Chipre.

Com experiência vasta no setor segurador, integrou a Metlife em 1995, Oscar Herencia conta ainda com forte currículo académico. É licenciado em Gestão Organizacional e Liderança pela Harvard Business School e mestre em Liderança e Inteligência Emocional pelo INSEAD, instituto francês de gestão. Tem ainda uma licenciatura em Direito e Ciência Jurídicas pelo ICADE e um MBA pela Universidade Complutense de Madrid.

Na sequência da sua participação no fórum do INESE, deu uma breve entrevista a ECOseguros.

“Um produto pode ser muito bom, mas em 3 meses é copiado pela concorrência e em 6 meses está melhorado. No entanto, a experiência do cliente não é copiável”.

Considera a ultra personalização uma boa estratégia das seguradoras do futuro, mas respeitando a diversidade dos consumidores. Como é isso compatível com escala principalmente numa empresa com a dimensão da Metlife?

Muitas vezes temos que ir contra certos processos para conseguir isso. Efetivamente a globalização e a escala gigante de algumas companhias fazem esse percurso mais difícil, talvez mesmo aliciante. A companhia global tem muitas vantagens. Temos escala, temos capacidades de trazer sinergias de um lugar para outro, temos capacidade para estar em mercados mais maduros, como o mercado americano ou o inglês, e temos oportunidade de trazer experiências para Portugal.

Ao mesmo tempo temos que ter a mentalidade sempre clara que estamos a trabalhar e a ganhar a confiança duma sociedade que é a portuguesa. Temos que entender as suas necessidades. Fazer esse caminho parte das vantagens globais e a sua adaptação às necessidades locais. Temos credibilidade e isso sempre ajuda.

Até que ponto há coragem de abandonar o negócio “business as usual”, que assegura a produção, e ter a coragem de assumir novos produtos?

Somos uma companhia que tem 151 anos e estamos há 35 anos em Portugal. Com este tempo de mercado já há a “suspeita” de termos sido capazes de acompanhar os tempos e de ter ganho o respeito da população portuguesa.

Claro que há que começar a ter alguma valentia para fazer coisas novas mas também também ter paciência. O futuro está aí mas, por exemplo, o mercado de seguros mais avançado na Europa é o inglês e neste apenas 9% dos seguros são vendidos pela internet. Nós temos que trabalhar por segmentos e ser capazes de criar soluções. A única coisa que não podemos copiar é a experiência do cliente. Um produto pode ser muito bom, mas em 3 meses é copiado pela concorrência e em 6 meses está melhorado. No entanto, a experiência do cliente não é copiável.

Sem experiência positiva, o churn (troca de companhia para uma mesma proteção por parte dos clientes) é um problema permanente?

A melhor maneira de prevenir o churn é oferecer ao cliente alguma coisa que ele verdadeiramente precisa, trazer uma mais-valia. Quando se compra uma coisa que tem uma mais-valia, o cliente não renuncia a ela. Quando despachávamos seguros como durante muito tempo fizemos no passado, quer em Portugal, quer em Espanha, o risco do churn era muito maior. Só é capaz de se diferenciar uma coisa que não é fácil comparar. Isso obtém-se com a experiência, com boa capacidade de distribuição, com boas as soluções, nesse caso haverá sempre uma fidelidade maior aos clientes.

Fala que para a inovação acontecer é preciso apoio da direção, investimento e tolerância ao erro. Como se gere essa tolerância ao erro?

Dou um exemplo: Quando vais a uma tourada pergunta-se como é que uma pessoa pode estar ali a lutar com um touro. O toureiro tem uma preparação, aprendeu a pôr os pés, aprendeu a situar o corpo. Aqui é igual: Tem que se testar, prototipar, fazer experiências com água das pedras e não com nitroglicerina – e dessa forma limitar o impacto na empresa -, mas tem de se aceitar que há erros. Todo o mundo erra. Todo o mundo que chegou ao sucesso teve que passar por um processo de aprendizagem e a aprendizagem traz erros. Para além do apoio da direção e do investimento, o mais importante a transmitir às equipas é tolerância ao erro, com confiança e com transparência. Não conheço ninguém que tenha trazido uma solução verdadeiramente vencedora que não tenha tido que passar por um processo de aprendizagem. Até Steve Jobs foi incapaz de criar a Apple que conhecemos hoje sem passar por um problema em que teve de sair e voltar à companhia, e essa história deve ser inspiradora para todos nós.

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