Kristin. Seis meses após a devastação, há milhares de milhões de prejuízos e traumas que não se (a)pagam

Empresas e escolas esperançosas na clemência do clima, falta de mão-de-obra e os planos para deslocar migrantes para a construção e as florestas. Seis meses depois, Kristin não deixa que a esqueçam.

O movimento de autocarros de longo curso a entrar e sair de uma tenda de dimensões avantajadas é o símbolo de uma devastação que na memória de muitos ocorreu “ontem”, mas na realidade soma seis meses.

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Com o teto desabado sobre autocarros, o terminal rodoviário deixou o centro de Leiria e transferiu-se para junto do estádio construído para o Euro 2004, também ele danificado a 28 de janeiro. Sobranceiro à tenda ficará o novo terminal, do qual, olhando a partir do castelo que se temeu viesse a ruir, vemos o esqueleto metálico em crescimento e a movimentação de máquinas.

Presente e futuro, lado a lado. À esquerda, em construção, o novo terminal rodoviário de Leiria. À direita, o terminal improvisado que tem recebido numa tenda gigante autocarros e passageiros depois do antigo terminal ter sido destruído pela tempestade Kristin. Hugo Amaral/ECO

Leiria, Marinha Grande e Pombal foram devastados pela tempestade Kristin, e é aqui que centramos atenções, apesar de o “comboio de tempestades” que varreu a região centro ao longo de fevereiro ter colocado 77 municípios em calamidade.

Neste período, a Estrutura de Missão criada no início de fevereiro para coordenar os esforços de reconstrução já recebeu 36 mil candidaturas para reparações de casas com custos abaixo de 10 mil euros, com os pedidos a atingirem um valor médio de 6.000 euros e os processos aprovados a ficarem-se pela média de 4.900 euros, clarifica ao ECO/Local Online o líder da estrutura de missão, Paulo Fernandes.

Podemos dizer que houve de tudo, inclusive quem enviou processos criativos com fotos de danos em casas geradas em inteligência artificial, vários elementos da família a apresentarem candidatura para os mesmos prejuízos e, ao nível do absurdo, duas campas num cemitério. “É uma habitação própria e permanente”, ironiza o presidente da Câmara da Marinha Grande, Paulo Vicente.

Mas, para lá dos episódios rocambolescos, que incluem os que aproveitaram a desgraça de um pequeno empresário no seu restaurante de praia devastado pela tempestade na Praia da Vieira para levar as garrafas do interior, o que sobressai ao fim de seis meses é o muito que já está feito. “Foram seis meses bastante intensos”, resume o diretor-geral da Umbelino, fabricante de telhas na freguesia de Meirinhas, em Pombal.

No rescaldo que lhe pedimos, diz-nos que “as principais dificuldades foram a energia, que durou 17 ou 18 dias a repor, e as telecomunicações, [que] demoraram meses a chegar. Se não fosse o Starlink, teríamos ficado isolados”. Na energia, “foi algo a todos os títulos inédito, difícil de fazer perceber aos nossos acionistas”, diz o diretor-geral da fabricante de telhas do grupo francês Edillians, que só em gasóleo para geradores gastava mil euros a cada dia. “A determinada altura, andávamos junto dos nossos parceiros em Espanha e França à procura de geradores”.

A solução foi “investir fortemente em cabos elétricos e alterações, colocar os geradores em série para poder recuperar produção”, explica. A seguir à tempestade, que deitou telhados abaixo, destruiu portões e deixou paredes em risco de colapso, a região foi atropelada pelo comboio de tempestades.

Fruto desta tempestade, aconteceu uma coisa curiosa: a incerteza era grande, tivemos, na altura, de dispensar mão-de-obra temporária. Não conseguimos repô-la.

Pedro Valente

Diretor-geral da Umbelino

O gestor recorda “três semanas de chuvas. Para iniciar trabalhos mais profundos, foi extremamente complexo. Contribuiu para alguma desmoralização das tropas. A vontade de reerguer era muita, mas as condições não permitiam”, recorda Pedro Valente.

Seis meses depois, uma tenda gigante permite manter uma das linhas de produção a funcionar na Umbelino Monteiro. Em janeiro, o telhado ficou completamente arrasado. Hugo Amaral/ECO

“O negócio não esteve em risco”, assegura, mas, diz, “o nível de serviço, sim”. O stock acumulado permitiu à Umbelino responder às solicitações. Hoje, não pode dar a mesma certeza sobre o risco para a empresa. “Fruto desta tempestade, aconteceu uma coisa curiosa: a incerteza era grande, tivemos, na altura, de dispensar mão-de-obra temporária. Não conseguimos repô-la”. A empresa tem um défice de 20% na ocupação de posições na linha de produção.

A mão-de-obra na zona não está disponível. A empresa tem encomendas, estamos com necessidade grande de fornecer clientes, mas não conseguimos. Temos as três linhas a funcionar, mas só uma em plena produção, porque não temos mão-de-obra. É um fenómeno que não tínhamos há muito tempo”. Num registo que se vai ouvindo ao longo do país em vários setores, diz-nos que “o que aparece é mão-de-obra estrangeira. Nacional não há”.

Ciente desta dificuldade, a Estrutura de Missão está a desenvolver um programa conjunto com o instituto de emprego (IEFP) e a Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA), no sentido de identificar trabalhadores migrantes no país e propor-lhes a requalificação profissional. Para já, o destino são as florestas e a construção civil, identifica Paulo Fernandes. A Estrutura de Missão está a trabalhar com a associação de empresas de construção da região de Leiria para que os associados desta permitam a formação no local de trabalho.

Elemento extra é o valor dos orçamentos apresentados pelos empreiteiros: Paulo Vicente, presidente da Câmara da Marinha Grande, destaca que “os preços subiram e de que maneira. Os valores que nos apresentam são completamente inflacionados. No Museu do Vidro, por exemplo, apresentaram-nos um orçamento de um milhão de euros”.

Entre as despesas municipais na Marinha Grande há uma talvez menos óbvia: o investimento em aterro não pára de subir, não só para albergar entulhos das demolições e reconstrução, mas também mobílias e tralha diversa que começaram a aparecer nas ruas. “Dá-me impressão de que as pessoas aproveitaram para pôr tudo cá fora. Nunca vi tanta mobília, tanto sofá, tanto colchão. Tudo isto representa um acréscimo de custos que não tínhamos previsto”, diz o socialista que ainda nem três meses levava de vida autárquica quando a Kristin lhe devastou o território.

Reparações que continuam

Ao longo desta região, os trabalhos de reconstrução decorrem, designadamente nas grandes fábricas da freguesia de Meirinhas. Na Umbelino, vemos um pavilhão que praticamente ruiu e no qual foi montada uma tenda para cobrir a área de produção e permitir responder a encomendas. As fundações do novo pavilhão estão feitas, como verificamos, e já em agosto será retirada a tenda e demolido o pavilhão danificado, para que em novembro a estrutura esteja composta. “Tínhamos prazos de entrega e compromissos, muitos deles relacionados com PRR, autarquias, e se não entregássemos os materiais teríamos problemas muito grandes”, diz o diretor-geral da fabricante de telhas Umbelino. Ao longo do próximo ano ainda haverá reparações, com intervenções intercaladas entre tetos de pavilhões, de modo a nunca parar a produção.

Não muito longe dali, na Adelino Duarte da Mota, continua-se a reparar pavilhões, embora agora apenas na zona dos atomizadores, onde uma destas enormes cubas de produção de pasta cerâmica foi retirada depois de, “heroicamente”, suportar o peso da fábrica no dia 28 de janeiro. O novo atomizador está a ser fabricado no local e dentro de dias uma grua preparada para as dezenas de toneladas virá elevá-lo e colocá-lo dentro da fábrica. Só depois esta será de novo coberta, já com uma estrutura reforçada.

A resiliência é pedra de toque. Foi um dos pilares inscritos no PTRR, instrumento criado pelo Governo após a calamidade, e é tema de conversa com várias das pessoas com quem falamos ao longo de dois dias de reportagem.

António Pedro, responsável pelo agrupamento de 14 estabelecimentos de ensino (do pré-escolar ao secundário, com mais de 3.000 alunos) em Leiria, recebe-nos na escola onde, a 29 de janeiro, na semana de pausa escolar, falámos com professores que, “fechados” no exterior e sem telecomunicações para poderem falar com os responsáveis da escola, manifestavam ao ECO/Local Online a preocupação com o estado da Escola Secundária Domingos Sequeira.

O edifício é a sede do Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira (AEDS), instituído em 2013 com a união entre o Agrupamento de Escolas José Saraiva e a Escola Secundária de Domingos Sequeira. A 28 de janeiro, Kristin partiu as placas de vidro do telhado e estas estatelaram-se cá em baixo, deixando marcas bem visíveis (até) nos corrimões de ferro e no chão de mosaico. O soalho de madeira, sempre brilhante até 27 de janeiro, mostra-se agora estalado, empenado e erodido, fruto dos dias de chuva que o comboio de tempestades lhe despejou em cima. “Dois terços do telhado veio parar cá abaixo. Chovia aqui como chovia na rua”, diz o diretor do agrupamento escolar.

Noutra escola, a José Saraiva, sob gestão da autarquia de Leiria (um entre 100 edifícios em que a autarquia vai gastar 3,5 milhões de euros em obras nas próximas semanas, conforme anunciou a vice-presidente na reunião de câmara em meados do mês), António Pedro constatou “a desgraça” no dia da tempestade, quando andou a ziguezaguear na estrada durante quase uma hora para ali chegar. Daí, seguiu para a Secundária Domingos Sequeira, novamente numa viagem de mais de uma hora para um percurso que, tal como o anterior, se completa em cerca de dez minutos.

Na escola José Saraiva, o município de Leiria providenciou rapidamente uma empresa e a direção do agrupamento juntou, após um pedido aos pais dos alunos nas redes sociais, “largas dezenas de pessoas” para ajudar o empreiteiro a compor o telhado. “Foi assim que se telhou os três blocos da escola num dia. Foi uma sorte, porque depois, na segunda-feira começou a chover”, recorda.

Na Secundária Domingos Sequeira, sob gestão do Estado central, por via da Construção Pública (ex-Parque Escolar), o processo não teve a agilização municipal. Primeiro, com técnicos desta entidade, fizeram fotos, mas a ausência de rede impedia o envio das imagens para Lisboa.

Há cerca de seis meses, a 28 de janeiro, a Escola Secundária Domingos Sequeira "acordava" neste estado. Imagens gentilmente cedidas pelo diretor da escola, António Pedro

A equipa que a Construção Pública enviou para reparação urgente do telhado trabalhou em condições de perigo, debaixo de chuva e vento no topo do telhado, presos por arneses. “A escola não podia continuar fechada. Tivemos aqui uma situação muito crítica, isto, de facto, só vivendo”, recorda o diretor do agrupamento de escolas.

Ainda assim, a tempestade ocorreu numa quarta-feira e na quinta-feira da semana seguinte já ali havia aulas. A direção do agrupamento viu-se obrigada a deslocar alunos entre jardins-de-infância e também entre escolas, em alguns casos funcionando apenas com a claridade do dia. A autarquia leiriense disponibilizou geradores, alguns dos quais trabalharam incessantemente durante duas semanas.

Se chover em setembro, vai ser um problema, porque muito muitas das obras necessárias não estão feitas. Temos ainda escolas de primeiro ciclo e jardins-de-infância que têm áreas danificadas. Preocupa-me porque temos as estruturas muito débeis. Sabemos que a construção agora tem de ser um pouco mais resiliente.

António Pedro

Diretor do Agrupamento de Escolas Domingos Sequeira

A preocupação, agora, seis meses depois, é ter as condições mínimas asseguradas para o arranque da época escolar a 11 de setembro. “Temos aqui reparações muito provisórias. A escola tem danos que leva ainda meses de trabalho”, descreve António Pedro, que nem pode fazer uma gestão com transferência de alunos entre estabelecimentos, já que, em Leiria, as escolas “estão sobrelotadas. Têm mais turmas do que aquelas para as quais foram projetadas”, explica.

“Se chover em setembro, vai ser um problema, porque muito muitas das obras necessárias não estão feitas. Temos ainda escolas de primeiro ciclo e jardins-de-infância que têm áreas danificadas. Preocupa-me porque temos as estruturas muito débeis. Sabemos que a construção agora tem de ser um pouco mais resiliente”, diz o diretor do agrupamento de 14 escolas.

Nas escolas da vizinha Marinha Grande, a prioridade nos primeiros dias foi igualmente repor as condições mínimas para os alunos retomarem as aulas após a pausa que a sorte, ou o acaso, fez casar com o dia da devastação. “Fizemos a reconstrução mínimas com as mínimas condições de segurança, os pensos rápidos, e agora estamos a tratar da doença”, conta o autarca.

“Vai haver escolas que não vão ser totalmente reabilitadas para repor a situação anterior. Estamos com projetos para renovar de alto a baixo essas escolas que não eram intervencionadas também já há há bastantes anos”, explica.

Uma escola de segundo ciclo na Vieira mantém-se encerrada, esperando a reconversão em “centro escolar modular, com equipamentos e construção resiliente” e ficará preparada para abrigo preparado para acolher a população em caso de nova calamidade, conta Paulo Vicente.

A preparação para o pós-Kristin é, de facto, um tema em aberto ao longo da região.

Paulo Fernandes, Presidente da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro do País, em entrevista ao ECO/Local OnlineHugo Amaral/ECO

Paulo Fernandes conta que aguarda as conclusões de relatórios, designadamente do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) que “poderão levar a tirar conclusões do que é o reforço da resiliência de infraestrutura e o reforço da resiliência do serviço”. “O país carece de forma sistémica de monitorização das infraestruturas críticas, do seu estado, da capacidade de responder a situações mais extremas”, acentua.

Quando propomos um paralelo com o trabalho de supervisão das pontes efetuado após a tragédia da derrocada da ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios, Paulo Fernandes aponta um espetro mais vasto. “O país tem que perceber se este embate total das tempestades teve ou não consequência na redução da resistência” das infraestruturas, diz.

Horas que não se esquecem

Quando um milhão de cidadãos fica sem energia e 500 mil sem telecomunicações, a que se somaram as falhas no abastecimento de água, percebe-se a dimensão da tempestade Kristin. Leiria, Marinha Grande e a parte Sul do concelho de Pombal estiveram semanas sem eletricidade. Meio ano depois, mais de 99% das falhas de telecomunicações estão resolvidos e na energia “os números que temos são de 100%. Não significa que não possa haver uma avaria aqui ou acolá, mas isso faz parte da gestão de uma rede”, explica Paulo Fernandes.

Adicionalmente, o autarca da Marinha Grande destaca um cenário que a reportagem do ECO/Local Online constatou: vastas extensões de cabos das operadoras espalhados pelo chão.

Nos dois serviços, há ainda muita empreitada de consolidação do trabalho que foi executado num contexto de grande urgência e pressão para reposição, explica Paulo Fernandes. A E-Redes aponta para novembro a conclusão da consolidação na energia, na “segunda fase depois daquele esforço dantesco” de recuperação. Já as operadoras de telecomunicações indicam final do ano, explica Paulo Fernandes.

A provar que ainda há casos por resolver, António Pedro diz-nos que a mãe continua, seis meses após a passagem da Kristin, sem telecomunicações fixas.

Hugo Amaral/ECO

A preocupação da Estrutura de Missão dirige-se também ao trabalho nas estradas. Em vários casos acompanhados ao longo da região centro, o problema é estrutural e envolverá estudos geotécnicos em estradas que ruíram e ainda se encontram por reparar.

Num dos casos, na Estrada Nacional 8-2, num troço interdito com cerca de dois quilómetros no concelho da Lourinhã, será necessário reforçar a plataforma com 40 pilares de 14 metros de altura, para trazer segurança ao trânsito e a três habitações adjacentes, contou há dias o presidente da Câmara, citado pela Lusa.

Segundo o ministro das Infraestruturas e Habitação, que em meados de julho falava na Comissão de Infraestruturas, Mobilidade e Habitação, há ainda 21 estradas afetadas, já depois de em junho terem sido reabertas a EN 9-2 em Mafra e a EN 248-8 em Sobral de Monte Agraço, enquanto a EN 342 em Arganil e Góis regressou ao serviço já este mês.

Aquelas 21 vias, por seu lado, “têm problemas cuja resolução tem grande complexidade técnica, obrigando a soluções mais robustas, necessidade de estudos geológicos e geotécnicos e projetos de execução”, explicou o governante.

Julho de 2026. Este é o cenário perto da Base Aérea de Monte Real, na Mata Nacional de Leiria.Hugo Amaral/ECO

Pouco escapou a Kristin. Na floresta, a 28 de janeiro caíram milhões de árvores, que alteraram sobremaneira a paisagem na Marinha Grande e em Leiria, incluindo no interior da cidade. A destruição abrangeu mobiliário urbano, edifícios e equipamentos públicos. “Do castelo, do outro lado, quase não se viam as ameias. A paisagem é completamente diferente”, diz Ana Mendes, técnica do Turismo do Centro de Portugal. “Na base aérea de Monte Real não se via para dentro e agora vê-se. A capela ainda não tem telhado”, nota.

Ali perto, no centro da Marinha Grande, onde antes era um complexo que incluía pavilhão desportivo e o mercado municipal, encontramos máquinas na construção dos novos edifícios, removidos que foram já os escombros do que ali esteve até à madrugada de 28 de janeiro. A única solução para os edifícios, que eram praticamente novos, foi a demolição, por ausência de condições mínimas de reabilitação, conta-nos o autarca. Enquanto o novo mercado da Marinha Grande não é erguido, há uma tenda em fase de instalação.

Parte importante da economia da região e do país, o turismo não ficou incólume a Kristin, registando-se “menos turistas em todo o lado”, explica Ana Mendes. A Câmara de Leiria viu-se obrigada a cancelar a feira de maio e o evento medieval que deveria ocorrer por esta altura, aponta a técnica do Turismo do Centro, que durante a ira de Kristin passou, juntamente com vizinhos, longo tempo a agarrar a porta do prédio onde reside, para que a estrutura de entrada não voasse.

Na zona onde antes se encontrava um pavilhão gimnodesportivo e o mercado da Marinha Grande, só restam escombros.Hugo Amaral/ECO

“Em determinada altura, a E-Redes não tinha respostas para dar a ninguém”

Pedro Valente, diretor-geral da Umbelino, alude a um momento “mais desesperante, a determinada altura”, que foi verificar o quão complexa estava a ser a reposição de energia e telecomunicações. Para o gestor, o país já tinha obrigação de ter tirado os devidos ensinamentos:

"Já tinha acontecido na altura do Leslie, já havia histórico. É preciso termos noção de que aconteceu numa zona bastante condicionada, da Marinha Grande à Figueira da Foz, e depois com uma profundidade no país de 50 ou 60 quilómetros. Não teve repercussão em mais parte nenhuma do país, mas o nosso país não conseguiu resolver. Foi uma situação altamente complexa que todos vivemos, mas numa zona bastante confinada.”

Na mira das suas críticas, e de outros que vêm falando na praça pública ao longo destes seis meses, está uma empresa central na rede elétrica nacional, a antiga EDP Distribuição. “Em determinada altura, a E-Redes não tinha respostas para dar a ninguém”, diz Pedro Valente.

Hugo Amaral/ECO

Menos crítico para a empresa do grupo EDP, o presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) Centro, José Ribau Esteves, centra a atenção nas empresas de telecomunicações:

"Se dermos uma volta ao país, sistematicamente vemos postes de madeira redondo que estão no meio de uma estrada, num passeio, com fios pendurados sem nexo, e isso é a má performance dos operadores de telecomunicações deste país. Não tem nada a ver com tempestades, é a má performance regular. Fui presidente de Câmara durante 28 anos, e enquanto a E-Redes é difícil de responder, mas responde, com as operadoras de telecomunicações é difícil de responder e em regra não respondem.”

Quando comparamos a reação do operador de distribuição de energia com os operadores de telecomunicações, a E-Redes ganhou dez-zero. Tem que fazer melhor? É concessionário de um serviço público? Claro que sim. Mas quando comparamos a performance, a E-Redes ganhou o exercício”, considera o ex-autarca social-democrata de Ílhavo e de Aveiro.

Do lado da energia, Ribau Esteves considera que não há condições financeiras para enterrar as linhas. Aliás, o que se verifica entre a Marinha Grande e Vieira, com o enterramento em curso de linhas de média e alta tensão ao longo de uns 15 quilómetros é mesmo uma excepção.

No trabalho realizado ao longo destes seis meses, o presidente da CCDR Centro destaca as habitações, com 27 mil candidaturas entregues na sua área de jurisdição – das quais 11 mil em Leiria – e 70% dos processos terminados, com pagamentos devidamente regularizados. “É a resposta mais rápida que o Estado deu” nos 10 anos de gestão de calamidades que a CCDR conta, diz José Ribau Esteves. “Ainda agora estamos a pagar indemnizações de 2017, de 2022, de 24 e de 25”, afirma, apontando a entraves administrativos superados há pouco.

Quanto a equipamentos municipais, em que se apuraram 961 milhões de euros de prejuízos nos 77 municípios da região centro, “está a acabar a revisão”.

Entre o trabalho realizado pela CCDR Centro está “uma plataforma para facilitar a gestão. Aquilo era uma folha de Excel a gerir cerca de 30 mil propostas de projetos dos 77 municípios”, diz Ribau Esteves.

Se tivesse acontecido em Lisboa, a resposta teria sido mais rápida?, perguntamos a Ribau Esteves, cuja resposta não foge daquilo que ouvimos a 29 de janeiro e seis meses depois continua a ser um pensamento recorrente nas gentes da terra:

"O país não pode descapitalizar a resposta rápida em todo o país. É evidente que é preciso cuidado com as contas. O investimento per capita para termos essa capacidade nas zonas menos povoadas é muito mais alto, mas o investimento no território de um país que é muito pequeno, em largura tem 200 km, não pode ser descurado em desfavor das zonas com menor população. Além do mais, é um problema para as áreas metropolitanas, onde vive mais gente. Esse investimento que cative mais pessoas a irem viver para as zonas menos povoadas, dá muito rendimento ao próprio Estado.”

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