Vhils, Joana Vasconcelos e Bela Silva alinham pelo Atlético na nova temporada

Lina Santos,

Lugar apenas reservado ao futebol até agora, o estádio da Tapadinha alia-se ao MAAT e transforma-se numa galeria ao ar livre com obras de Joana Vasconcelhos, Vhils e Bela Silva.

Já esteve à porta do MAAT, já foi emprestado para a abertura de um museu em Malta, já esteve em Roma numa exposição em torno da obra de Valentino e agora está de volta a Lisboa e é impossível ignorá-lo – da estrada, desde a ponte 25 de abril ou até de avião. O anel de grandes dimensões da autoria de Joana Vasconcelos encontra-se num dos pontos mais altos da cidade, no estádio da Tapadinha, casa do histórico Atlético Clube de Portugal, o clube de Alcântara.

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“Aposto que vai haver muitos pedidos de casamento aqui”, diz o detentor do clube, o norte-americano Gifford Miller, ao ECO Avenida.

MAAT e Atlético Clube de Portugal transformam o Estádio da Tapadinha num espaço artístico acessível a todos com obras de Vhils, Joana Vasconcelos e Bela Silva.Hugo Amaral/ECO


Além do Solitário #3 de Joana Vasconcelos, para a entrada da Curva, a única bancada de um estádio em Portugal onde é possível beber uma cerveja e ver um jogo, a artista Bela Silva criou o
painel de azulejos Dança na Relva, uma composição de pinceladas que, sendo abstrata, mostra o que se passa dentro das quatro linhas. “Não queria fazer algo figurativo, mas queria transmitir movimento”, diz a artista. João Pinharanda escolheu-a porque “tem uma energia que faz lembrar a energia desportiva”.

“Corre o campo artístico todo”, diz o diretor do MAAT.

A partir deste ponto do estádio é possível contemplar o mural que Vhils criou para uma das paredes exteriores do pavilhão do clube. É uma homenagem aos muitos que fizeram carreira no clube, incluindo Vítor Domingues e Maria da Luz Jerónimo, que levam uma vida ao serviço do clube.

Ele, responsável pela formação. Ela, funcionária administrativa. Têm os dados na ponta da língua e um indisfarçável orgulho de se verem retratados assim. “Por um artista que adoro e em vida”, diz Maria da Luz na apresentação do projeto MAAT + Atlético, desenvolvido com o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, da Fundação EDP, esta sexta-feira.

O estádio da Tapadinha converte-se em mais um ponto de Lisboa onde se pode usufruir de arte. E porque “a arte precisa de discurso”, como diz João Pinharanda, diretor do MAAT, o solitário de jantes douradas e copos de cristal de Joana Vasconcelos simboliza “o compromisso” entre as duas instituições, museu e clube, e a obra deverá ficar aqui durante um período de dois anos.

Um quarto nome vai juntar-se a este projeto. “Abrimos uma open call para o túnel de acesso ao estádio”, diz João Pinharanda. As candidaturas estão abertas até setembro e visam encontrar “um artista emergente, em contraponto com os três artistas estabelecidos que aqui tempos”, segundo o diretor do MAAT. Em colaboração com o museu, está prevista a criação de um programa de visitas guiadas ao estádio para conhecer de perto as obras agora expostas.

“Queremos construir uma comunidade”, diz Gifford Miller, metade em português, metade em inglês. Pouco depois de se mudar para Lisboa com a família, durante um passeio por Monsanto, viu o estádio, que abria apenas duas vezes por mês para os jogos e percebeu o potencial, conta ao ECO Avenida.

Liderou um grupo de acionistas que compraram a SAD e o clube está a fazer um esforço declarado para trazer mais gente à Tapadinha, investindo nas infraestruturas e em parcerias como aquela que o une ao MAAT. Este é também o resultado da experiência profissional de Miller. Antigo porta-voz da câmara de Nova Iorque, durante a liderança de Michael Bloomberg, esteve muito envolvido na requalificação da antiga estação de High Line, onde a arte tem um papel muito importante.

“A nossa visão é transformar o Atlético num lugar onde pessoas de toda a cidade se reúnem para viver amizade, comunidade e bons momentos. Queremos que a nossa identidade reflita a de Lisboa: um espaço onde arte, gastronomia, música, pessoas e futebol se misturam numa experiência única”, afirma Gifford Miller, presidente e chairman do Atlético Clube de Portugal, citado no dossier do projeto. A programada expansão da linha do metro até bem perto do estádio será uma ajuda para aumentar o número de visitantes, em dias de jogo e não só, comenta ao ECO Avenida.

Aproximar-se ao bairro é uma missão do clube, apontada pelo CEO da SAD, João Leite de Carvalho, voltando aos seus tempos de glória, interrompidos, segundo Maria da Luz Jerónimo, com a construção da ponte, inaugurada em 1962 e responsável pelo realojamento de muitos moradores de Alcântara. “Muita gente saiu daqui e foi viver para o outro lado e para outros lugares”.

“As pessoas vêm ter connosco quando jogamos fora e dizem que eram do Atlético”, conta Vítor Domingues.

Maria da Luz Jerónimo e Vítor Domingues junto ao mural de Vhils que pode ser visto no Atlético Clube de Portugal numa parceria com o MAATHugo Amaral/ECO

 

Fundado em 1942, da fusão entre o União de Lisboa e o Carcavelinhos, o clube tem no seu palmarés “24 passagens pela 1.ª divisão e duas finais da Taça de Portugal”, contabiliza Vítor Domingues. Protagonistas como o roupeiro Álvaro Roxo, Germano de Figueiredo, jogador histórico do Benfica cuja carreira começou no Atlético, ou o cabo-verdiano Ben David, estrela do clube nos anos 50, estão agora imortalizados no mural de mais de 50 metros de comprimento de Vhils, nascido após conversas com pessoas que conhecem bem o Atlético como Maria da Luz, que aqui começou há 46 anos, quando tinha 19 anos, ou Vítor, que vive ao lado do clube, trabalha aqui há mais de quatro décadas e dedica 100% do seu tempo ao clube. “Nasci aqui no bairro e não tenho outro clube”.

“O clube estava degradado e com bancadas fechadas”, relata Vítor Domingues. “Hoje dá gosto passar pela Tapadinha”, diz. “Estão a começar bem, pela infraestrutura”. Enquanto o diz, decorre a pintura da bancada topo e colocação das cadeiras vermelhas, amarelas e azuis – cores do clube – a pensar já na próxima época.

MAAT e Atlético Clube de Portugal transformam o Estádio da Tapadinha num espaço artístico acessível a todos com obras de Vhils, Joana Vasconcelos e Bela Silva.Hugo Amaral/ECO

O Atlético Clube de Portugal compete na Liga 3 na temporada 2026/27 e joga a primeira partida em casa com o CD Mafra, a 16 de agosto (15h00). Tem capacidade para 2.700 pessoas, embora neste momento uma das bancadas (do lado direito) ainda esteja à espera de reforço estrutural antes de avançar com pinturas, segundo o CEO da SAD.

“Temos mais adeptos e mais afluência nos últimos dois anos”, garante João Leite de Carvalho. Uma média de 800 pessoas por jogo na última temporada, contra os 600 que costumavam ir, mais de mil nos jogos contra os grandes ou contra o arquirrival Belenenses. “O desafio é sempre esse: criar os estímulos para os adeptos virem”. Foi o que aconteceu com a Curva, que se orgulham de dizer que é a única bancada onde se pode beber uma cerveja enquanto se vê um jogo. Agora, nos jogos também se pode ver arte contemporânea.

 

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