Portugal está no caminho para Marte

  • João Lousada
  • 29 Julho 2026

Missões como a AMADEE-27 são mais do que uma oportunidade para testar tecnologia e preparar futuras missões a Marte. São uma oportunidade para Portugal desenvolver conhecimento.

Quando pensamos na exploração de Marte, talvez pensemos num enorme foguetão a descolar ou em astronautas a lutar contra uma tempestade de areia, como o Matt Damon em Perdido em Marte.

Mas, em abril do próximo ano, Marte estará muito mais próximo e passará por Portugal. Um grupo de investigadores, técnicos e especialistas de diferentes áreas e múltiplas nacionalidades vai utilizar a região de Monsaraz para simular Marte.

Este tipo de iniciativas, chamadas “missões análogas”, procura na Terra condições semelhantes às de Marte para testar equipamentos, tecnologias e experiências que poderão, no futuro, ser utilizadas no planeta vermelho. O objetivo principal? Que tudo falhe. Encontrar aqui, na Terra, o maior número de problemas possível, para os resolver antes de enviar astronautas a Marte.

Os participantes, apelidados de “astronautas análogos”, são selecionados, treinados e realizam estas missões de forma semelhante aos astronautas, mas ainda na Terra. Simulam, com a maior fidelidade possível, uma missão a Marte: não podem sair do seu habitat sem um fato espacial e todas as comunicações com o exterior têm um atraso simulado de 10 minutos, para reproduzir os desafios que uma futura tripulação enfrentará.

Para esta missão, intitulada AMADEE-27, já são 17 as entidades, de vários países, incluindo agências espaciais, institutos de investigação e universidades selecionadas para participar e usar a região única de Monsaraz para conduzir experiências que vão desde a astrobiologia e a procura de vida fora da Terra até à robótica, passando pelas geociências e pelo estudo dos fatores psicológicos e da dinâmica de equipa em tripulações isoladas e confinadas.

O setor espacial português chega a esta missão com trabalho já realizado. Ao longo dos últimos anos, em áreas como a robótica, a ciência de materiais ou a medicina espacial, investigadores, universidades e empresas portuguesas têm vindo a desenvolver e a participar em projetos científicos e tecnológicos de alto nível.

Para esta missão, intitulada AMADEE-27, já são 17 as entidades, de vários países, incluindo agências espaciais, institutos de investigação e universidades selecionadas para participar e usar a região única de Monsaraz para conduzir experiências que vão desde a astrobiologia e a procura de vida fora da Terra até à robótica, passando pelas geociências e pelo estudo dos fatores psicológicos e da dinâmica de equipa em tripulações isoladas e confinadas.

Nesse sentido, foi também aberto um concurso para investigadores portugueses, que vai ao encontro da estratégia da Agência Espacial Portuguesa, que cedo reconheceu a importância das missões análogas e a existência, em Portugal, de locais únicos para este tipo de investigação. Com o Catálogo dos Análogos Portugueses, a Agência mostrou que o país pode ter um papel relevante na preparação da futura exploração espacial.

E este desenvolvimento do setor espacial já tem um impacto económico concreto, mas o valor do espaço vai muito além destes números. As tecnologias e o conhecimento desenvolvidos para explorar o espaço contribuem para avanços na medicina, nas comunicações, na robótica e nos materiais, e os dados de satélite são já fundamentais para áreas como a agricultura, a logística e a gestão do mar e do território. Investir no espaço é também investir na ciência, na inovação e na vida na Terra.

Missões como a AMADEE-27 são, por isso, mais do que uma oportunidade para testar tecnologia e preparar futuras missões a Marte. São uma oportunidade para Portugal desenvolver conhecimento, criar novas competências e reforçar a posição num setor que terá um papel cada vez mais importante no futuro.

E, à medida que Portugal desenvolve estas capacidades, é natural imaginar um futuro em que portugueses, além de prepararem as missões que nos levam mais longe, também façam parte delas.

Em 2027, Marte passa por Portugal.

  • João Lousada
  • Chefe de Operações da ISS para a ESA, astronauta análogo e comandante de missões no OeWF

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