A defesa começa nos materiais

  • Luís Oliveira
  • 13 Julho 2026

O futuro não estará necessariamente num material “extraordinário”, mas na capacidade de combinar materiais, processos de fabrico, desenho de produto e conhecimento operacional numa solução coerente.

Quando se fala de defesa, o debate tende a concentrar-se nas plataformas, nos sistemas de armas ou nas tecnologias digitais. No entanto, antes de qualquer capacidade existir no terreno, no mar, no ar ou no espaço, há uma pergunta essencial: de que materiais é feita? A resposta condiciona o peso, a resistência, a autonomia, a assinatura, a durabilidade e, acima de tudo, o nível de proteção que pode oferecer.

Foi esta dimensão, por vezes menos visível, que esteve no centro da quinta edição da AUXDefense – World Conference on Advanced Materials for Defense, realizada no Funchal, entre 1 e 3 de julho. Mais de 150 especialistas internacionais reuniram-se na Madeira, representando universidades, centros de investigação, entidades de defesa e empresas. A diversidade confirmou que a inovação neste setor já não acontece dentro de fronteiras disciplinares ou nacionais.

O programa mostrou como os “materiais avançados” abrangem realidades distintas: cerâmicas para proteção balística, compósitos leves, nanomateriais, fabrico aditivo, têxteis eletrónicos, sensores bioquímicos e blindagem eletromagnética. Proteger deixou de significar apenas colocar uma barreira mais espessa entre a ameaça e a pessoa. Significa combinar menor peso com maior desempenho, integrar deteção e comunicação, gerir energia e temperatura, reduzir assinaturas e adaptar a resposta ao ambiente operacional.

Os contributos dos oradores tornaram esta evolução clara. Pablo Geijo, por exemplo, da Agência Europeia de Defesa, enquadrou o fabrico aditivo não apenas como tecnologia de produção, mas como um futuro facilitador de capacidade militar: pode permitir peças e reparações a pedido, reforçar a resiliência logística e acelerar a resposta operacional. Foram também lembrados obstáculos como normalização, certificação, cadeias de abastecimento e cibersegurança. Uma tecnologia só se transforma em capacidade quando sai do laboratório com fiabilidade e confiança.

Noutras intervenções, as cerâmicas avançadas surgiram como resposta à procura de proteção balística mais eficiente; os têxteis inteligentes mostraram o potencial de incorporar sensores e funções protetoras no equipamento; e as novas aeroestruturas apontaram para construções mais leves, económicas e de baixa assinatura. A biodefesa esteve presente através de sensores em fibra ótica e sistemas de libertação antimicrobiana. Já o estudo de materiais sujeitos a impactos de hipervelocidade e a radiação laser de elevada intensidade, bem como a blindagem eletromagnética, recordaram que proteger implica responder a ameaças que não são apenas cinéticas, mas sim provenientes de outros e diversos domínios.

Nenhuma cadeia de inovação em defesa se constrói de forma autossuficiente. Soberania tecnológica não significa isolamento; significa conhecimento, competências produtivas, capacidade de decisão e parceiros de confiança.

Esta variedade não é dispersão, mas reflete a natureza multidomínio das necessidades atuais. Um mesmo sistema pode ter de ser resistente, leve, discreto, energeticamente eficiente, sensorizado e reparável no terreno. O futuro não estará necessariamente num material “extraordinário”, mas na capacidade de combinar materiais, processos de fabrico, desenho de produto e conhecimento operacional numa solução coerente e eficaz.

A participação de instituições da Bélgica, França, Alemanha, Itália, Canadá e Portugal reforçou outro ponto: nenhuma cadeia de inovação em defesa se constrói de forma autossuficiente. Soberania tecnológica não significa isolamento; significa conhecimento, competências produtivas, capacidade de decisão e parceiros de confiança. O exemplo do Canada, em específico da região do Quebeque (PRIMA) recordou a importância de organizar essas competências e aproximar investigação, indústria e utilizadores finais, de qualquer que seja o seu continente.

A AUXDefense deixou, por isso mais uma vez, uma mensagem que ultrapassa os três dias da conferência. Os materiais avançados não são apenas uma área de investigação: são facilitadores de capacidade. O seu impacto torna-se real quando permitem aumentar a sobrevivência de quem opera no terreno, reduzir o peso dos equipamentos, prolongar a vida útil das plataformas, diminuir dependências logísticas ou produzir e reparar componentes mais perto do local onde são necessários.

Uma conferência, por si só, não cria essa capacidade. O seu valor mede-se no que acontecer a seguir: nos projetos que forem iniciados, nas tecnologias que avancem para ensaio e certificação, nas empresas que consigam integrar novas cadeias de fornecimento e nas soluções que cheguem efetivamente aos utilizadores. Esse é também o desafio para Portugal e para a Europa: transformar conhecimento científico em capacidade industrial, produção escalável e autonomia tecnológica.

A defesa do futuro será mais digital, conectada e autónoma, mas continuará a ser condicionada por algo profundamente físico: os materiais que dão forma, resistência e funcionalidade a cada solução. Quem dominar a capacidade de os desenvolver, combinar, testar e produzir estará mais bem preparado para responder a ameaças emergentes — e para transferir esse conhecimento para a proteção civil, a segurança, o espaço, a mobilidade e outras áreas de aplicação dual. Em última análise, o futuro da proteção começa na matéria, mas concretiza-se na capacidade de a transformar em soluções reais.

  • Luís Oliveira
  • CEO da Fibrenamics

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