O que pode Lisboa aprender com Berlim

  • Paulo Bandeira e Francisco Martins Caetano
  • 17 Abril 2017

Berlim continua a viver um ecossistema vibrante, suportado em incubadoras de sucesso e em startups que tiveram exits interessantes em valor, com grande visibilidade, ou até IPO sonantes.

No rescaldo da EU Startups Conference, realizada em Berlim a 13 de Abril (na última quinta-feira) e em que participámos, foi-nos dada a oportunidade, em reuniões várias mantidas com diversos agentes, de compreender um pouco melhor as semelhanças e as diferenças entre os dois ecossistemas.

Berlim continua a viver um ecossistema vibrante, suportado em incubadoras de sucesso e em startups que tiveram exits interessantes em valor, com grande visibilidade, ou até IPO sonantes.

Berlim é hoje, destacadamente, a cidade alemã que maior número de startups congrega, deixando para trás, cada vez a maior distância, Munique, Hamburgo e Colónia, num movimento que os próprios alemães consideram que vai secando os demais centros de inovação do país. Isso deve-se, sobretudo, ao sucesso acumulado pela Rocket Internet (sociedade cotada desde 2014), uma realidade dual que congrega uma incubadora focada unicamente em negócios online ou mobile nos setores alimentar, moda, comércio genérico e de produtos para a casa, a que junta aquele que provavelmente é o maior fundo de investimento da Europa em early stage num montante acima de mil milhões de euros. Investimentos significativos, a que corresponderam encaixes muitíssimo relevantes com, por exemplo, o IPO da Zalando em 2014, ou movimentos de consolidação operacional e financeiras como a integração das operações da Delivery Hero com a Foodpanda do final do ano passado, com valorizações implícitas de muitos milhões.

Mercê deste enquadramento, Berlim assume-se no panorama das startups como a cidade que privilegia negócios de e-commerce. É essa a matriz das grandes incubadoras, é essa a apetência das venture capital que atuam no mercado e é o foco de quem procura Berlim para iniciar a sua startup.

Há, naturalmente, diferenças estruturais que enformam os dois mercados, a saber:

  • a dimensão e influência geográfica – a Alemanha representa um mercado potencial de mais de quarenta milhões de pessoas (a que se somam os países germanófilos ou de influência germânica da Europa de leste) o que permite às empresas, querendo, centrar-se desde logo (ou até apenas) naquele mercado; já em Portugal, por ser um mercado substancialmente mais reduzido, as startups devem assumir desde cedo uma vocação universalista, na procura quase imediata de outros mercados de muito maior dimensão;
  • a especialização – conforme referido acima, Berlim afunila o foco para soluções de e-commerce, já em Lisboa essa especialização não está tão vincada, o que nos permite assumir um caráter mais universalista;
  • a capacidade financeira – Berlim goza de um conjunto de venture capitals bastante maduros e capitalizados, muito focados em early stage, o que permite um maior número de investimentos e acelerar muito o desenvolvimento dos produtos; em Lisboa o financiamento às startups continua a ser um processo mais moroso e ainda muito dependente de co-financiamento comunitário, o que atrasa sobremaneira o time to market das startups; curiosamente, ouvimos muitas vezes em Berlim uma queixa relativa a um “round B crunch” que obriga as startups a procurarem investidores internacionais, embora os montantes de uma ronda B em Berlim toquem tradicionalmente os dez milhões de euros e em Lisboa “apenas” cinco milhões de euros;
  • governance dos investimentos – não notámos diferenças significativas a reportar na forma como os contratos de investimento e acordos parassociais se estruturam nos dois ecossistemas, comparando Lisboa muito bem com o que se pratica noutras jurisdições (sem prejuízo das diferenças significativas para a regulação contratual nos EUA, o que deixaremos para outro artigo);
  • exits e give backs – por último, Berlim tem aquilo que Lisboa ainda não teve, (i) exits bem-sucedidos e IPO de startups e (ii) empreendedores que após o exit da sua startup se converteram em venture capitalists.

Em resumo, Lisboa encontra-se num momento e movimento fantásticos tendo conseguido posicionar-se como um centro de referência europeu para startups. Quando comparada com Berlim está, todavia, ainda alguns passos atrás mostrando-se menos madura (mercê de Berlim ter iniciado este movimento há quase quinze anos e Lisboa apenas há cinco), mas sobretudo pela falta de veículos que verticalizem ou articulem de forma mais integrada a incubação e o financiamento early stage. Trabalhemos nesse sentido.

  • Paulo Bandeira
  • Francisco Martins Caetano

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