O interregno de Starmer. Um governo sem legado
A rápida nomeação de Andy Burnham como novo primeiro-ministro encerra formalmente esse ciclo e abre uma nova fase para o Partido Trabalhista.
Keir Starmer demitiu-se e a notícia dificilmente terá provocado grande surpresa junto dos britânicos. Depois de meses de deterioração política, resultados económicos medíocres e crescente descontentamento eleitoral, a sua saída parece menos uma crise inesperada do que o desfecho natural de uma experiência governativa que nunca conseguiu encontrar um propósito claro. A rápida nomeação de Andy Burnham como novo primeiro-ministro encerra formalmente esse ciclo e abre uma nova fase para o Partido Trabalhista.
A sua queda representa mais do que o fracasso de um líder. Representa o esgotamento de uma estratégia política que tem marcado uma parte importante da esquerda europeia nas últimas décadas: a convicção de que competência administrativa pode substituir visão política. Depois de anos de turbulência, polémicas e divisões, os trabalhistas chegaram ao poder prometendo estabilidade, moderação e responsabilidade. O problema é que estabilidade não é um projeto político. É apenas uma condição para o executar.
O Reino Unido enfrenta há muito tempo desafios estruturais. O crescimento económico permanece anémico, a produtividade estagnou, a crise habitacional agrava-se, os serviços públicos acumulam dificuldades e a pressão migratória continua a dominar o debate político. Nenhum destes problemas pode ser resolvido através de pequenos ajustamentos administrativos. Exigem reformas, prioridades claras e capacidade para enfrentar interesses instalados. Exigem liderança.
A história britânica mostra precisamente isso. Margaret Thatcher (Tory) transformou uma economia em declínio através de reformas liberalizadoras profundas. Tony Blair (Labour) compreendeu que uma agenda social ambiciosa dependia de crescimento económico, disciplina orçamental e abertura aos mercados. Mesmo Boris Johnson (Tory), apesar das suas limitações evidentes, ofereceu aos eleitores uma narrativa política clara através do Brexit. Em todos estes casos existia uma visão reconhecível sobre o rumo do país. Com Starmer (Labour), essa visão nunca se tornou evidente.
Durante algum tempo, essa fragilidade passou despercebida. Depois do radicalismo de Jeremy Corbyn e do caos político vivido pelos Conservadores, muitos eleitores estavam dispostos a aceitar uma liderança discreta e pouco ideológica. Mas os governos não são avaliados apenas pelas intenções. São avaliados pelos resultados. E os resultados acabaram por expor uma realidade desconfortável: o executivo trabalhista não conseguiu alterar de forma significativa a trajetória económica do Reino Unido.
Esta dificuldade não resulta apenas de erros individuais de Starmer. Reflete um problema mais amplo da social-democracia contemporânea. Durante décadas, muitos partidos de esquerda tornaram-se progressivamente mais eficazes a discutir distribuição de riqueza do que criação de riqueza. A linguagem do crescimento económico, da competitividade, do investimento privado e do empreendedorismo foi sendo substituída por uma visão predominantemente centrada na gestão do Estado e na redistribuição de recursos. Mas nenhuma economia consegue distribuir prosperidade de forma sustentável sem primeiro a produzir.
O caso britânico é particularmente revelador porque os obstáculos ao crescimento são bem conhecidos. O país sofre de défices persistentes de investimento, restrições severas à construção de habitação, processos de licenciamento excessivamente lentos, custos energéticos elevados e problemas de qualificação da força de trabalho. Resolver estas questões exige reformas do lado da oferta, maior flexibilidade económica e um ambiente mais favorável à iniciativa privada. Exige também aceitar conflitos políticos inevitáveis. Reformar significa quase sempre contrariar interesses organizados.
Foi precisamente aqui que o governo de Starmer revelou as suas maiores limitações. Em vez de utilizar a sua legitimidade eleitoral para promover mudanças estruturais, preferiu frequentemente preservar equilíbrios internos no Partido Trabalhista e evitar confrontos potencialmente impopulares. O resultado foi um governo que procurou minimizar riscos políticos quando o país precisava de assumir riscos reformistas.
Esta falta de ambição acabou inevitavelmente por abrir espaço para alternativas mais radicais. O crescimento de Nigel Farage era, em larga medida, previsível. Não resulta apenas do talento político do seu líder nem da eficácia das suas mensagens. Resulta sobretudo do fracasso dos partidos tradicionais em responder a preocupações que uma parte significativa do eleitorado considera ignoradas há demasiado tempo. Quando os cidadãos concluem que a alternância entre governos produz apenas mudanças de estilo, mas não mudanças de substância, tornam-se naturalmente mais recetivos a propostas de ruptura. O populismo raramente surge no vazio; prospera quando os partidos do centro deixam por resolver problemas que os eleitores consideram prioritários.
Seria, contudo, um erro atribuir todos os problemas britânicos ao Partido Trabalhista. Os Conservadores também carregam uma responsabilidade considerável. Durante muitos anos dispuseram de maiorias parlamentares confortáveis e de oportunidades políticas únicas para modernizar a economia britânica. Apesar disso, raramente demonstraram a determinação reformista que caracterizou os anos Thatcher. A despesa pública continuou a crescer, a crise habitacional agravou-se, a produtividade permaneceu estagnada e muitas das oportunidades criadas pelo Brexit ficaram por concretizar. Em demasiadas ocasiões, a direita britânica limitou-se a gerir problemas que dizia querer resolver.
A diferença está noutro plano. Quando a direita falha, normalmente falha por não reformar o suficiente. Quando a esquerda falha, tende a falhar porque subestima a importância das reformas orientadas para o crescimento económico. Os erros podem ser diferentes, mas as consequências acabam frequentemente por convergir: baixo crescimento, frustração social e perda de confiança nas instituições.
É neste contexto que a chegada de Andy Burnham a Downing Street merece especial atenção. O novo primeiro-ministro continua a pertencer à tradição trabalhista britânica, mas apresentou-se como defensor de um autodenominado “socialismo pró-negócios”, centrado no desenvolvimento das regiões fora de Londres, na reindustrialização e no crescimento económico. Prometeu descentralizar o poder, acelerar a reindustrialização e reformar os serviços públicos, chegando mesmo a anunciar a criação de um gabinete permanente do primeiro-ministro em Manchester como símbolo dessa estratégia. Resta agora saber se conseguirá transformar esta narrativa em políticas eficazes. Mas pelo menos parte de um diagnóstico que Starmer nunca conseguiu enfrentar plenamente: sem crescimento económico sustentado, nenhum projeto político consegue prosperar durante muito tempo.
O legado de Starmer será provavelmente o de uma oportunidade desperdiçada. Chegou ao poder num momento em que o Reino Unido procurava uma nova direção depois das convulsões do Brexit e da instabilidade política dos anos anteriores. Tinha condições para redefinir prioridades e lançar uma agenda reformista credível. Em vez disso, ofereceu sobretudo prudência, gestão e cautela.
Para um país que precisava de crescimento, recebeu-se administração. Para um país que precisava de reformas, recebeu-se gestão corrente. Para um país que precisava de uma visão para a próxima década, recebeu-se uma estratégia orientada para o próximo ciclo noticioso. E é precisamente por isso que a saída de Starmer dificilmente será recordada como o fim de uma era. Será recordada como o fim de um interregno.
Talvez José Luís Carneiro devesse tomar nota. Starmer chegou a primeiro-ministro, mas acabou por transformar o seu mandato num interregno. A sua substituição por Andy Burnham mostra que até o próprio Partido Trabalhista concluiu que era necessário abrir um novo ciclo político, assente numa narrativa de crescimento económico, reindustrialização e descentralização. Há líderes que transformam uma transição num projeto. Há outros que correm o risco de transformar a própria liderança numa longa transição.
José Luís Carneiro parece hoje desempenhar uma função politicamente útil, ainda que provavelmente involuntária: convencer os militantes socialistas de que existe uma alternativa em preparação ao mesmo tempo que ajuda discretamente a prolongar a vida política da AD. Não divide, não mobiliza, não entusiasma e, até ao momento, permanece mais associado a um perfil de prudência do que a uma visão para o país. Talvez seja precisamente essa a sua principal característica política.
José Luís Carneiro não parece liderar uma alternativa, parece apenas mantê-la em espera. E a história raramente é generosa com quem permanece demasiado tempo na sala de espera. Recorda os protagonistas, os reformadores, os vencedores e até os derrotados. Mas quase nunca reserva um lugar para quem se limitou a assegurar a transição entre dois protagonistas.
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