A próxima travessia atlântica de Santa Maria

  • Afshin Beheshti
  • 31 Julho 2026

Santa Maria já tem experiência como o lugar onde as viagens ambiciosas param, se cruzam e prosseguem. Agora, está a aplicar esse instinto atlântico ao espaço.

Há séculos que Santa Maria transforma a sua posição no Atlântico em oportunidade. Agora, quando o mundo entra numa nova era de voos espaciais, esta pequena ilha açoriana prepara-se para a sua travessia mais ambiciosa de sempre, não pelo oceano, mas para lá da atmosfera.

Essa possibilidade tornou-se clara durante o evento Atlantic Space Hub 2026: Designing the Future of Space. Cerca de cem participantes da Europa, dos Estados Unidos, do Japão, da Austrália e da América do Sul reuniram-se em Santa Maria. A reunião foi organizada por mim através da Universidade de Pittsburgh, acolhido pela Agência Espacial Portuguesa, com Rodrigo Almeida, da Agência Espacial Europeia, no comité científico. O evento foi possível graças o generoso patrocínio da japonesa Otsuka Pharmaceutical. A mensagem da conferência era simples: o futuro do espaço não será construído por engenheiros, cientistas, governos ou empresas a trabalhar isoladamente. O espaço já é suficientemente difícil, e não há razão para o tornar ainda mais difícil ficando cada um no seu canto.

As nossas conversas ligaram a engenharia de naves à biomedicina espacial, às operações de missão, aos cuidados de saúde autónomos e à investigação científica. Os foguetões podem levar pessoas ao espaço, mas é a biologia que decide quanto tempo lá podem ficar. A radiação, a microgravidade e o isolamento sujeitam o corpo humano a situações de stress. Se as máquinas avançarem a passos largos enquanto a saúde humana fica a coxear atrás, a exploração continuará a ser impressionante, cara e breve.

Santa Maria está particularmente bem posicionada para unir estes campos. Em 2027, os Açores assinalam 600 anos sobre o avistamento de 1427 tradicionalmente atribuído ao navegador Diogo de Silves; as viagens posteriores de Gonçalo Velho, em 1431 e 1432, ligam-se à exploração e ao povoamento de Santa Maria, a primeira ilha habitada do arquipélago.

A ilha voltou a reinventar-se na era da aviação. O Aeroporto de Santa Maria foi construído em 1944, com participação dos Estados Unidos ao abrigo de um acordo com Portugal, apoiou a logística aliada e tornou-se, mais tarde, numa escala transatlântica e um centro de controlo de tráfego aéreo de referência do Atlântico Norte. Santa Maria já tem experiência como o lugar onde as viagens ambiciosas param, se cruzam e prosseguem. Agora, está a aplicar esse instinto atlântico ao espaço.

A Agência Espacial Portuguesa instalou a sua sede em Vila do Porto. Em 2025, Portugal emitiu a primeira licença para operar um porto espacial, autorizando o Atlantic Spaceport Consortium a desenvolver um centro de lançamentos na Malbusca, ainda que cada lançamento careça de aprovação própria. O Teleporto de Santa Maria já assegura o rastreio de satélites, telecomunicações, observação da Terra e vigilância marítima, incluindo a deteção de derrames de petróleo.

Santa Maria já ajudou a ligar continentes por via aérea. Pode agora ajudar a ligar a Terra à órbita. O Atlantic Space Hub 2026 foi mais do que uma conversa sobre esse futuro; juntou as pessoas capazes de o construir.

A Agência Espacial Europeia confirmou Santa Maria como local de aterragem do voo inaugural do Space Rider, o laboratório orbital europeu reutilizável e não tripulado, previsto para 2028. O Space Rider foi concebido para passar cerca de dois meses em órbita terrestre baixa, com experiências em tecnologia, biologia, biomedicina e outras ciências, antes de trazer as suas cargas de volta à Terra. Para os investigadores, o velho «tudo o que sobe tem de descer» está finalmente a tornar-se um modelo de negócio.

A conferência mostrou que a verdadeira força de Santa Maria não é uma infraestrutura ou um projeto. É a possibilidade de um ecossistema integrado: acompanhar missões, receber as naves que regressam, recuperar experiências biológicas que não podem esperar, testar tecnologias e ligar investigadores de todo o mundo ao saber português e açoriano.

A minha própria ligação a esta rede começou em 2003, quando conheci a minha mulher, Paula Arruda, cuja família é de Santa Maria. Desde então, as minhas inúmeras visitas à ilha aprofundaram tanto a minha admiração pela sua beleza extraordinária como a noção do seu enorme potencial. No ano passado, o nosso amigo Luís Bairos, um dos carteiros da ilha e talvez o seu especialista em comunicações mais experiente, apresentou-me ao vice-presidente da Agência Espacial Portuguesa, Eduardo Ferreira. Um contacto pessoal levou a outro, depois a instituições, a países e a esta conferência. É assim que os ecossistemas acabam por evoluir: não apenas através de infraestruturas, mas através de pessoas dispostas a fazer a apresentação seguinte.

Santa Maria já ajudou a ligar continentes por via aérea. Pode agora ajudar a ligar a Terra à órbita. O Atlantic Space Hub 2026 foi mais do que uma conversa sobre esse futuro; juntou as pessoas capazes de o construir. A pista está pronta e as relações começam a ganhar forma. O próximo renascimento da ilha talvez não chegue por mar nem pela pista, mas sim de paraquedas, vindo do espaço.

  • Afshin Beheshti
  • Diretor do Center for Space Biomedicine, Trivedi Institute for Space and Global Biomedicine / Universidade de Pittsburgh

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