A maior herança de Soares

Mário Soares partiu. A mais importante reflexão é sobre o vazio que fica, por irem homens como ele e não haver outros para a troca.

O homem tinha tudo o que hoje nos falta. Até defeitos. Falta-nos na política, em particular. E na vida pública em geral. Nele tudo era em grande, notável, notório. A visão e a convicção. A teimosia e a bonomia. Até poesia e heresia ele trazia.

O carisma. E a coragem. A voragem. Na autenticidade e na verdade, na sua verdade, nas suas convicções, uma vez que decidia, e decidia sempre, levava tudo à frente. Tudo e todos. Os hesitantes. Os mutantes. Os cobardolas e os artolas.

Dobrava adversários e até aliados. Os discordantes ou os que simplesmente se atravessavam ou o contrariavam – “Ó sô guarda, desapareça!”. Soares era o que era. E isso era muito fixe!

Nada a ver com esta apatia. Nada a ver com nostalgia. Convicções e reflexões. A mais importante, nestes momentos de uma homenagem ímpar, depois de o país ter vivido a cerimónia com aquela intensidade e singela grandiosidade, a mais importante reflexão é sobre o vazio que fica. Não por ter imperado a lei da vida, não por aquele homem ter ficado velho, doente e enfim partido, mas por irem homens como ele e não haver outros para a troca.

Na dimensão e porte, Soares não deixa um sucedâneo neste tempo. No tempo que ele moldou, o tempo em que escreveu muitos dos mais importantes capítulos tornou-se o tempo que há muito deixara de ser o seu.

Nos últimos anos escrevia revoltado. Insurgia-se contra a justiça que temos, indignava-o a que falta pelo mundo fora. Era o mundo o seu palco, contra a globalização, contra a ditadura dos mercados. Já não era a Europa connosco. Tornou-se uma abstração em que deixou de se rever.

Soares partiu e a Europa perdeu mais um dos estadistas que teve, um dos raros sobreviventes. Resta a Europa sem princípios, sem meios e sem fins. A Europa que se alargou a Leste mas foi perdendo o norte. Também contra a Europa da austeridade batalhou. E esta foi a contradição que nunca se descodificou.

Soares, que na década de 80 chamou o FMI, era contra a Europa da austeridade porque a causa ocupou o lugar da consequência. Antes havia um projeto nacional, aos portugueses foram impostos sacrifícios duros e pesados, Ernâni Lopes firme e intransigente, recuperava as finanças públicas para cumprir a visão: pertencer ao Ocidente, ser uma democracia liberal, afastar definitivamente o totalitarismo.

Na troika de Passos, o sacrifício não acabava em nada, as restrições não eram legitimadas por um sonho, perguntava e ninguém respondia: a política feita em nome de quê? Do défice? Do porque sim?! Pequena e mesquinha…não, não era a mesma coisa. Este último programa de ajustamento, que de certa forma ainda vivemos, não mobilizava ninguém porque não nos indicava caminho algum.

Traidor à direita, que não lhe perdoa o fim do Império. Traidor à esquerda, porque eram diferentes as portas que Abril abriu. Nestes dias em que se lhe agradece tudo – a Liberdade, a Democracia, a Europa, a Vida – apareceram a apedrejar o morto. Pedras e flores, sempre foi assim, sempre recebeu das duas, odiado e admirado, derrotado e vitorioso, com uma vida tão longa e tão rica, Soares foi tudo. Menos consensual.

José Miguel Júdice, a propósito de Passos e Merkel, dizia há quinze dias na TVI24 que na classe política se distinguem dois grupos: os líderes geniais e os homens banais. A propósito de Passos e Merkel, ambos evidentemente no segundo lote. Ontem, explicou porque Soares conseguia ser genial sem ser um génio. Não foi o melhor primeiro-ministro. Não foi o melhor Presidente da República. Não fez tudo certo.
Soares foi genial porque foi único, foi bravo, foi corajoso, foi autêntico, foi inspirador, foi diferente, foi persistente, foi idealista, foi realista, foi humanista, foi como qualquer um de nós. Remava contra a maré. Também a fazia surgir do nada.

Ganhava umas vezes e perdia outras, mas arriscava sempre. O nosso pai era o nosso herói, celebraram Isabel e João na cerimónia dos Jerónimos. Não há nada mais belo para herdar desta história confessada: desejar que os filhos de amanhã sintam o mesmo por aquilo que os seus pais andam a fazer hoje.

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