A conspiração contra Luís Neves, ou talvez não
Estes casos são ótimos exemplos, não só da diferença entre casos e casinhos, mas também de como não saber distingui-los é entregar o ouro ao bandido.
Há umas semanas, Luís Neves viu-se envolvido no emaranhado noticioso com adjudicações, empreiteiros e um casinho à volta de um tanque. Tudo isto, por maior gravidade e complexidade legal que possa ter, tinha os contornos de uma notícia de verão. Pequenas peças que se iam juntando, adensando as suspeitas, mas que dificilmente significavam alguma coisa.
Isto para além do voyeurismo, de abusos com drones e de jornalismo mal feito, sensacionalista. Informação baseada em números absolutos, sem perceber o peso dos contratos dentro do contexto orçamental da PJ ou sem perguntar quando começou a relação contratual entre as partes.
Contudo, as coisas mudaram com as notícias relativas ao atrelado, entretanto figura nacional. Aqui passou a estar em causa a sua conduta na gestão da coisa pública, bem como a forma como os portugueses olham para a Polícia Judiciária. Luís Neves liderou a PJ durante oito anos e as suspeitas que agora surgem são gravíssimas. Uma galera reaparecida no quintal de um amigo, sem que a instituição soubesse, numa história que pode até ter implicações no caso de tráfico de droga que deu origem à sua apreensão. Porque é que estava ali?
A cada hora, a cada dia que passa, sem justificações cabais e minuciosas, as condições de continuidade do ministro são mais exíguas. Se na liderança da PJ era praticamente intocável, na política as coisas são diferentes e ainda bem.
Os casos que têm envolvido Luís Neves ao longo das últimas semanas são ótimos exemplos, não só da diferença entre casos e casinhos, mas também de como não saber distingui-los é entregar o ouro ao bandido.
Neste caso, a passividade da oposição do PS é assustadora. Se no PSD a defesa do ministro foi contida, no Rato as ordens foram para assobiar para o lado. A cada dia que passa sem que Montenegro aja, a sua imagem cola-se à do ministro, porque a esta altura é incompreensível que o PM não tenha exigido justificações ou a sua saída. Ao mesmo tempo, a conivência do PS enquanto oposição é entregar de bandeja a liderança política do caso a Ventura.
Num caso manifestamente tão estranho, esta indiferença é inqualificável.Podemos ter a maior das considerações pelo ministro, mas, se não é capaz de explicar, tem de sair. Em última instância, não se pode entregar a oposição a Ventura e querer evitar que os portugueses retirem a consequência eleitoral disso. Todos sabemos o que significará uma CPI à conduta do ministro na PJ: no mínimo, um rodopio de informalidade, suspeitas e a corrosão da imagem da instituição.
Não. Neste caso, não é a animosidade de Ventura para com este ministro em particular que está em causa. São mesmo os mínimos exigíveis. Não é uma conspiração contra Luís Neves. Achar que se trata disso é um erro de análise monumental. Se a passividade provém de uma qualquer simpatia pessoal, política, ideológica ou de uma qualquer análise estratégica, pouco importa. Luís Neves esteve oito anos à frente da PJ a construir autoridade política. Bastaram algumas semanas para percebermos que esta autoridade sem o devido escrutínio vale muito pouco.
O pior que o PSD e o PS podem fazer perante casos destes é convencer-se de que ignorá-los os fará desaparecer. Não fará. Apenas deixará o espaço livre para quem vive deles. Ventura não precisa de inventar escândalos quando os outros partidos lhe entregam, por silêncio ou cobardia, os casos verdadeiramente graves. Depois não vale a pena admirarem-se com o resultado.
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