A alegria terapêutica do verão e a economia da felicidade
Num país onde nem sempre abundam os recursos materiais, talvez esta capacidade de produzir bem-estar coletivo a partir de experiências simples seja uma forma perfeitamente respeitável de riqueza.
Há duas formas de olhar para o verão. A primeira consiste em vê-lo como uma simples estação do ano, a segunda, bastante mais interessante, consiste em entendê-lo como um fenómeno social. Em praticamente todos os países, o verão altera temporariamente a forma como as pessoas vivem, gastam, convivem e estabelecem prioridades. A rotina abranda, os horários tornam-se mais flexíveis, multiplicam-se os encontros com familiares e amigos, e uma parte significativa do consumo desloca-se para experiências partilhadas ao ar livre. O tempo parece adquirir um valor diferente.
Portugal não foge a este padrão europeu, embora talvez o viva com uma intensidade difícil de ignorar. Entre junho e agosto, o país enche-se de praias movimentadas, esplanadas, festas populares, festivais de música, feiras gastronómicas, romarias e concertos ao ar livre. As cidades esvaziam-se numas zonas e enchem-se noutras; as pequenas localidades ganham uma vida inesperada; as noites prolongam-se muito para além do resto do ano. Quem visitasse o país apenas durante estes meses poderia facilmente concluir que encontrou uma sociedade descontraída e otimista, onde o lazer ocupa um lugar central. Essa impressão não seria falsa, mas seria incompleta. Porque o verão não elimina as dificuldades económicas nem as preocupações do quotidiano; apenas lhes retira, durante algum tempo, o protagonismo. Talvez seja precisamente essa capacidade de suspender temporariamente a pressão da vida diária que explique por que razão esta estação ocupa um lugar tão especial no imaginário coletivo.
Talvez seja precisamente nos Santos Populares que melhor se revele uma característica interessante da sociedade portuguesa. As festas nunca foram apenas entretenimento. Funcionam como momentos de encontro, reforçam identidades locais e oferecem uma pausa coletiva num quotidiano frequentemente exigente. Num país onde tantas discussões públicas giram em torno do crescimento económico, da habitação ou dos salários, há algo de revelador na facilidade com que, durante algumas semanas, essas preocupações cedem lugar ao convívio, à música e à celebração. Não se trata de escapismo puro. Trata-se também de um mecanismo de adaptação social. Como a prosperidade tarda em chegar, aperfeiçoou-se a capacidade de preservar o bem-estar apesar dessa ausência.
As festas populares deixaram há muito de ser apenas festas. Constituem uma pequena indústria nacional, um setor económico sazonal e um sofisticado sistema de redistribuição emocional. Durante três meses, mobilizam-se recursos impressionantes para produzir entretenimento em larga escala. Há procissões, romarias, semanas culturais, festivais gastronómicos, festas da sardinha, do marisco, do polvo, da cerveja artesanal, do vinho, da batata-doce, da amêijoa e, provavelmente, de produtos cuja existência a maioria dos portugueses desconhecia até aparecerem num cartaz municipal. Tudo serve de pretexto para montar um palco, instalar filas de mesas de plástico, estacionar meia dúzia de roulottes e criar, durante algumas noites, a confortável ilusão de que o principal problema nacional consiste em decidir entre uma bifana e uma fartura.
A economia comportamental ajuda a explicar por que razão este sistema funciona tão bem. Indivíduos sujeitos a elevados níveis de incerteza tendem a atribuir um valor desproporcionado às recompensas imediatas. Quando o futuro parece distante, nebuloso ou pouco promissor, o presente ganha importância acrescida. O português médio pode nunca ter ouvido falar em desconto temporal, preferência hiperbólica, adaptação hedónica ou utilidade intertemporal, mas comporta-se frequentemente como se tivesse lido toda a literatura de economia comportamental. Se a casa continua inacessível, se o salário mal acompanha o custo de vida e se a mobilidade social já não parece tão garantida como prometeram várias gerações de responsáveis políticos, então faz perfeito sentido aproveitar o arraial da freguesia, o concerto gratuito ou a noite quente de julho. Não porque resolvam algum problema, mas porque suspendem temporariamente a sua presença.
É precisamente aí que reside a verdadeira eficiência económica das festas populares. Produzem aquilo que os economistas chamam utilidade e aquilo que a literatura sobre a economia da felicidade designa por bem-estar subjetivo. Desde os trabalhos pioneiros de Easterlin até às contribuições de Kahneman e Deaton, sabemos que o rendimento explica apenas uma parte da satisfação com a vida. A qualidade das relações sociais, o sentido de pertença, o tempo passado com família e amigos ou a participação em experiências partilhadas desempenham um papel igualmente relevante. Nesse sentido, um arraial pode gerar mais bem-estar marginal do que muitas formas de consumo bastante mais dispendiosas. São, em certo sentido, felicidade de baixo custo.
Existe, contudo, uma dimensão mais melancólica neste entusiasmo coletivo. A intensidade com que Portugal celebra o verão parece inversamente proporcional ao entusiasmo com que encara o resto do calendário. Entre junho e agosto, milhões de portugueses acumulam reservas emocionais. Enchem o telemóvel de fotografias, multiplicam jantares intermináveis, reencontram amigos, prolongam noites e colecionam pequenas memórias destinadas a durar até setembro. Porque setembro chega sempre. Chega com as prestações da casa, as rendas, os horários escolares, o trânsito, os transportes públicos, os salários insuficientes e a sensação persistente de que o país continua a prometer mais do que entrega. E isso nos anos tranquilos. Quando a este quotidiano se juntam crises geopolíticas, financeiras, sanitárias ou causadas pela natureza — como tem acontecido —, a necessidade de uma pausa coletiva torna-se ainda mais compreensível. O verão não resolve nada disto. Mas permite esquecê-lo durante algum tempo. E, muitas vezes, isso basta.
Talvez um dos símbolos mais interessantes desta procura de bem-estar seja a diversidade das formas como cada família escolhe passar o verão. Uns preferem um hotel, outros uma casa emprestada, outros ainda regressam à terra da família, alugam um apartamento junto à praia ou percorrem o país de autocaravana. Cada opção envolve custos, preferências e estilos de vida diferentes. Curiosamente, algumas soluções que durante décadas eram vistas como alternativas económicas deixaram de o ser. Possuir e manter uma caravana ou autocaravana representa hoje um investimento significativo, e muitos parques de campismo praticam preços que rivalizam com outras formas de alojamento. Ainda assim, continuam a atrair milhares de pessoas. A explicação dificilmente reside apenas no preço. O que muitos procuram é a autonomia, a proximidade da natureza, a informalidade, a flexibilidade de horários e o sentido de comunidade que estes espaços frequentemente proporcionam. A economia tradicional mede facilmente o custo monetário de umas férias; mede com muito mais dificuldade o valor atribuído à liberdade de decidir, todos os dias, onde acordar ou onde terminar a viagem.
É precisamente por isso que as análises excessivamente sofisticadas falham tantas vezes ao tentar compreender este universo. Tendem a reduzir estas escolhas a uma simples questão de rendimento ou de restrições orçamentais, quando elas refletem também preferências, identidades e diferentes conceções de qualidade de vida. Os arraiais, os Santos Populares, as festas de aldeia, os festivais de música, as romarias e tantos outros eventos que pontuam o verão português não são apenas entretenimento. Funcionam como espaços de encontro, reforçam laços sociais e geram uma sensação de pertença que dificilmente aparece nas estatísticas económicas. Há certamente ironia em muitos destes rituais, mas existe também uma forma de racionalidade frequentemente ignorada: a capacidade de produzir bem-estar coletivo através de experiências simples, acessíveis e partilhadas.
E assim continuará o país durante mais algumas semanas. As colunas continuarão demasiado altas. As filas continuarão demasiado longas. As sardinhas continuarão demasiado caras. As praças continuarão cheias e os concertos continuarão a juntar milhares de pessoas. Depois chegará setembro e regressará a realidade. Mas, entretanto, os depósitos emocionais terão sido reabastecidos. Houve Santos Populares. Houve bailaricos. Houve noites quentes, conversas demoradas e reencontros improváveis. Num país onde nem sempre abundam os recursos materiais, talvez esta capacidade de produzir bem-estar coletivo a partir de experiências simples seja, afinal, uma forma perfeitamente respeitável de riqueza.
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