BRANDS' ECO Sustentabilidade nos Alojamentos Turísticos: Tendência ou Estratégia?
Num contexto de crescente preocupação ambiental, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma tendência para assumir um papel estratégico na competitividade e resiliência dos alojamentos turísticos.
A crescente atenção dada à sustentabilidade tem orientado as organizações de vários setores a integrar práticas mais responsáveis nas suas dinâmicas. Nesse sentido, o presente artigo baseia-se num estudo que analisa a perceção dos hóspedes de um alojamento turístico no Algarve – a Pousada da Juventude de Tavira – em relação a essas práticas. Procurou-se entender se a sustentabilidade é considerada como simples tendência de mercado ou se constitui um fator estratégico diferenciador. Assim, com base num questionário elaborado para o efeito, foram obtidas respostas de 42 hóspedes. Os resultados revelam uma perceção favorável das práticas sustentáveis implementadas, bem como uma tendência positiva de suportar custos adicionais associados a tais iniciativas.
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A pousada integra um conjunto de práticas alinhadas com as dimensões ambiental, social, económica e de governança. Ao nível ambiental destacam-se medidas de eficiência energética (painéis solares, iluminação Led), poupança de água (torneiras com sensores, reaproveitamento de águas) e gestão de resíduos (reciclagem, redução de plásticos, utilização de materiais biodegradáveis). Na dimensão social valoriza-se a cultura local, a contratação de recursos humanos locais e a promoção da acessibilidade. Na dimensão económica evidenciam-se práticas de controlo de custos, fidelização de clientes, parcerias com fornecedores sustentáveis e estratégias de marketing verde. Ao nível da governança verificam-se princípios de transparência, ética e cumprimento de normas ambientais e turísticas. Estes aspetos demonstram um alinhamento com orientações europeias e internacionais no domínio da sustentabilidade, nomeadamente com os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) 5, 6, 7, 8, 11, 12, 13, 15 e 17.
A gestora da pousada, em entrevista, reconhece os benefícios económicos indiretos das práticas sustentáveis, nomeadamente associados à otimização de recursos e à imagem organizacional. Contudo, destacou constrangimentos financeiros e limitações estruturais na implementação de novas medidas. Referiu ainda a intenção de implementar nos próximos cinco anos os ajustes necessários em conformidade com os padrões de sustentabilidade vigentes em Portugal. A unidade revela preocupação com o meio ambiente, tendo obtido uma certificação da Hostelling Internacional (HI) – entidade que certifica e promove práticas de turismo sustentável entre os membros associados. A monitorização regular e o envio da avaliação anual identificam os ajustes necessários para exibir o logotipo HI. Esta certificação demonstra que os consumidores estão cada vez mais atentos às questões ambientais e sociais, procurando alojamentos alinhados com valores de responsabilidade e preservação ecológica.
Contudo, foi possível verificar que nem todos os hóspedes identificam as iniciativas sustentáveis existentes, o que evidencia um desafio importante que é o de torná-las mais visíveis, acessíveis e tangíveis durante a estadia. Este resultado sugere a existência de limitações ao nível da comunicação e visibilidade das práticas, o que pode condicionar o seu impacto na perceção de valor da organização. Assim, o reforço da comunicação estratégica e sensibilização dos clientes assumem particular relevância em tornar mais evidente o impacto das práticas sustentáveis. Por outro lado, a análise SWOT elaborada revelou oportunidades externas (integração em redes internacionais do turismo) e forças internas (ambiente acolhedor e equipa proativa) relevantes que evidenciam potencial para uma gestão sustentável mais madura. O reforço da comunicação, através de divulgação clara e sistemática das práticas sustentáveis, poderá ampliar a perceção de valor da oferta.
Este estudo demonstra que a sustentabilidade deixou de ser uma opção acessória para assumir um papel estratégico na competitividade. Gradualmente os consumidores valorizam organizações mais responsáveis, alojamentos que integrarem práticas sustentáveis de modo consistente. Alojamentos assim poderão contribuir para um desenvolvimento sustentável do turismo. O estudo evidencia que a criação de valor no turismo dependerá cada vez mais da capacidade dos destinos e empresas de conciliarem competitividade, responsabilidade ambiental e bem-estar social. Investir em sustentabilidade representa uma resposta às expetativas dos clientes e uma oportunidade para promover um modelo de desenvolvimento turístico mais resiliente e alinhado com os desafios globais. O verdadeiro foco deixa de ser implementar medidas isoladas, mas sim incorporar a sustentabilidade como princípio orientador da gestão, da inovação e da criação de valor para os hóspedes, para as organizações e para os destinos.
Este artigo expressa apenas a opinião das autoras, não representando a posição das entidades com as quais colabora.
Sandra Domingos é Mestre em Gestão Empresarial pela Universidade do Algarve (2025), possui Especialização em Tecnologias para a Transformação Digital pela Universidade Católica Portuguesa (2026) e Pós-Graduação em Sustentabilidade e Bem-Estar pelo Instituto Politécnico de Beja (2024). Atualmente, participa num estágio de iniciação à investigação no CinTurs (Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar, Faculdade de Economia – Universidade do Algarve).
Eugénia Ferreira é Professora Auxiliar na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. Doutora em Estatística Multivariada Aplicada pela Universidade de Salamanca, possui também especializações em Matemática Pura e Aplicada. É Diretora do Mestrado em Gestão Empresarial e membro colaborador do CinTurs – Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-estar.
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