Rui Bento: “Encontrar talento forte é o ingrediente mais importante quando se faz uma startup”

  • ECO
  • 8:00

Considerava-se um "nerd" e, desde cedo, sentia curiosidade por explorar diferentes temas. Hoje, Rui Bento é CEO da Pollen e partilha as diferentes fases do seu percurso até fundar a sua empresa.

Rui Bento, cofundador e CEO da Pollen, é o 89º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Tem um percurso académico e profissional marcado pela diferença e pela diversidade, muito devido à sua “personalidade obsessiva”, que o levava a querer explorar muitas possibilidades. No segundo ano de faculdade, decidiu mudar de curso, mantendo o objetivo de o terminar em cinco anos. E, mais tarde, quando saiu do Técnico, além de fazer um MBA na Califórnia, passou depois por várias empresas renomadas, como a McKinsey, a Apple e a Uber. Em todas elas foi vendo desafios que se podiam tornar oportunidades e acabou, assim, a criar a Pollen.

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“O meu percurso no Técnico foi um bocadinho atípico na medida em que eu mudei de curso no final do segundo ano. Mas queria na mesma sair do curso ao fim dos cinco anos, ou seja, tinha cadeiras com os caloiros do primeiro ano e com os finalistas do quinto todos os semestres porque era o que dava para encaixar. Eu queria trabalhar para fazer coisas além das académicas”, começou por dizer.

A verdade é que esta vontade se concretizou rapidamente e, logo que saiu do Técnico, Rui Bento começou a trabalhar na Mackenzie: “Na altura em que entrei na Mackenzie, eu não fazia ideia do que queria fazer profissionalmente. Mas foi a minha primeira escola pós Técnico. É uma escola de vida, de ética e de trabalho. Foi um sítio muito formativo para mim porque eu entrei como engenheiro, então tinha zero noção do que era finanças, economia, marketing e gestão no geral“.

Esta falta de conhecimento em determinadas áreas fez com que o CEO decidisse procurar uma educação formal nesse âmbito, o que o levou a entrar num MBA em Berkeley, na Califórnia. “Sobretudo no caso de um engenheiro, fazia sentido ter este complemento. Por isso é que escolhi fazer um MBA e saí da Mackenzie para o fazer. Lá estive muito exposto a um ecossistema que gira muito à volta de startups e a expectativa é quase sempre ires para lá e criares ou, pelo menos, juntares-te a uma startup, é o normal“, referiu.

No entanto, ao contrário do que seria o esperado na cultura de Berkeley, Rui Bento terminou o MBA e regressou a Portugal para se juntar a uma empresa chamada Groupon, que “tinha acabado de comprar a empresa alemã MyCityDeal”: “Portanto, eu juntei-me a esta empresa para gerir o mercado português e um conjunto de cidades em Espanha. Estive algum tempo lá, mas senti que não era o sítio onde me queria desenvolver porque tinha alguma desconfiança em relação ao modelo e, passado alguns meses, aparece a Apple”.

“A Apple, na altura, era a empresa mais valiosa do mundo e tinha um hype muito grande à sua volta. Como entrei muito novo, fui conquistando o meu espaço lá, mas é um sítio muito diferente, no fundo, é o oposto de quando se pensa numa startup. Isto porque, apesar de ser uma casa de alguma pressão, também já é uma máquina muito grande e isso torna-a muito diferente de uma startup, onde existe pressão, mas existem muito poucos ombros para sustentar aquela pressão. Na Apple já há vários ombros”, continuou.

Mas, apesar de ter ido conquistando o seu espaço dentro da Apple, Rui Bento acabou por sair da empresa para liderar uma equipa da Uber, em Londres. Curiosamente, “depois de algumas conversas”, surgiu a possibilidade de liderar a equipa em Portugal, a qual aceitou imediatamente. Aí começou um percurso bem desafiador, uma vez que ninguém conhecia a Uber em Portugal: “Naquele primeiro momento, o nosso objetivo era garantir que havia mais pessoas a conduzir e a utilizar. E nós telefonávamos a empresas para perceber se eles queriam conduzir carros na Uber e tínhamos de soletrar o nome porque as pessoas percebiam ´Urban´. Tínhamos que soletrar e explicar o que era a Uber”.

“Na altura, carregar num botão e ver um carro a vir ter connosco, fazermos uma viagem em segurança, sem problemas, e com pagamentos automáticos, era completamente inovador. Hoje é banal, mas na altura não era, era único. Portanto, a possibilidade de trazer isto para Portugal, sem dúvida que foi super aliciante. Mas também trouxe muitos momentos de pressão porque nós sabíamos que faltava um quadro regulatório feito de raiz para uma Uber. Portanto, esta entrada e adaptação, tanto de decisores políticos, de legisladores, de outros operadores de transporte – taxistas, no caso – foi todo um processo de adaptação, com muita fricção e com vários momentos de tensão“, contou.

Ainda assim, Rui Bento considera que “houve muita aceitação da Uber em Portugal desde o primeiro momento” e a prova disso foi a adesão que começou a acontecer, até de subserviços, como a Uber Eats. No entanto, esta procura começou a deixar evidente que havia um problema – havia restaurantes que não faziam delivery porque tinham muita procura física e não lhes sobrava tempo para mais encomendas. E foi assim que nasceu a Kitch, a primeira startup de Rui Bento, que procurava responder a esta necessidade através de uma cozinha virtual.

Contudo, a data de lançamento da Kitch coincidiu com o lockdown da pandemia e isso obrigou a uma mudança de planos: “O problema que nós estávamos a resolver – que era os restaurantes não terem tempo para delivery – acabou porque deixou de haver gente no restaurante e tudo passou a ser delivery. Tivemos horas para perceber o que fazer e acabamos por pegar na nossa tecnologia e dividimos a equipa para que cada pessoa fosse para um restaurante que trabalhava connosco”. Mais tarde, receberam uma proposta da Glovo e perceberam que poderia ser uma mais-valia: “A Glovo dava-nos caminho porque já tinha uma base de utilizadores e nós sentimos que podíamos pegar nisso e chegar a muitos mais restaurantes. Depois dessa transição, acabei por sair“.

Quando saiu da Kitch, olhou para outro problema que queria ver resolvido – a quantidade de motas a combustão que ainda existem. “60% dos carros vendidos na UE, no ano passado, já eram elétricos ou híbridos, mas só 6% das motas é que eram. E continuam a não eletrificar”, explicou, justificando que, entre vários inconvenientes, destaca-se o facto de as motas elétricas serem “mais caras” e de obrigarem os utilizadores a pararem para as carregar muitas mais vezes, uma vez que não têm muita autonomia. Além disso, essas paragens, “em vez de demorarem cinco minutos, podem demorar sete a oito horas a carregar”.

A ideia foi criar baterias, de modo a que a pessoa use a sua e, quando ela se esgotar, vai a uma estação e troca-a por outra em segundos. Por isso, desenhamos as estações para serem o mais rápidas e convenientes possível, ou seja, não há apps, não há check- in, não há cartões, não há pagamentos no local. É só chegar a uma estação, pôr lá a bateria descarregada, receber outra bateria carregada, pôr na mota e ir“, disse.

Hoje em dia, a Pollen tem 11 pessoas e Rui Bento não tem dúvidas de que “encontrar talento forte é o ingrediente mais importante quando se cria uma equipa e quando se faz uma startup”. Esse talento, de acordo com o CEO, vai muito além da capacidade intelectual – “é o compromisso, é a dedicação, é a paixão, é acreditar no propósito”: “É fundamental dar liberdade à equipa e é fundamental ter o talento certo para sentires que podes dar liberdade“.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.

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