Mais de 200 mil casas afetadas pela Kristin. “Precisamos de mais braços. Milagres ninguém faz”

Mais de 200 mil casas foram afetadas pelo mau tempo que assolou sobretudo a região Centro no início deste ano, revelou o líder da Estrutura de Missão.

Paulo Fernandes, coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro do País.Hugo Amaral/ECO

No dia em que se assinalam seis meses da passagem da depressão Kristin, a Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro do País admitiu que será impossível executar, até dezembro de 2027, os cerca de cinco mil milhões de euros previstos para a reconstrução dos territórios afetados pelo chamado comboio de tempestades. O coordenador da estrutura, Paulo Fernandes, revelou ainda um novo balanço: mais de 200 mil casas foram afetadas pelo mau tempo que assolou sobretudo a região Centro.

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“A nossa Missão termina em dezembro do próximo ano. É impossível, ao dia de hoje, em dezembro do próximo ano cerca de cinco mil milhões de euros estarem executados em milhares de intervenções. Milagres ninguém faz“, alertou Paulo Fernandes esta terça-feira, durante uma conferência de imprensa na Startup de Leiria para apresentar o balanço dos seis meses que passaram desde a depressão Kristin.

À mesma hora em que o coordenador da Estrutura Missão começava a fazer o ponto da situação passados seis meses da calamidade, que se prolongou durante mais de uma hora, o autarca de Leiria, Gonçalo Lopes, fazia um périplo por alguns dos locais mais devastados pelo temporal no concelho.

Na conferência de imprensa, Paulo Fernandes identificou a escassez de mão de obra especializada — nomeadamente pedreiros, carpinteiros e eletricistas — como um dos principais entraves ao cumprimento do calendário de reconstrução, defendendo uma resposta urgente para acelerar as empreitadas.

É preciso encontrar novas estratégias de recrutamento e de formação de mão-de-obra, de atração de empresas, de cooperação entre as empresas”, para fazer face à empreitada de recuperação de, nomeadamente, mais de 200 mil casas devastadas pelo mau tempo.

São mais de 200 mil casas afetadas e grande parte delas tem as coberturas afetadas. Precisamos de mais braços, de brigadas, para fazer milhares de intervenções que ainda são precisas. Já agora também precisamos para a empreitada de recuperação na floresta”, apelou.

Por isso mesmo, será necessário apostar na qualificação e formação dos trabalhadores, adiantando estar em cima da mesa a articulação entre o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), a AIMA e o tecido empresarial, para avançar com medidas no terreno, nomeadamente apostar em formações intensivas e em contexto real.

São mais de 200 mil pessoas, habitantes deste nosso território afetado [pelo chamado comboio de tempestades] que ativaram a apólice de seguro, mais somado àquilo que foi a própria linha de apoio até 10 mil euros que o próprio Estado referenciou”, precisou Paulo Fernandes.

Já antes, o responsável tinha adiantado que foram submetidas 35.908 candidaturas aos apoios para a recuperação de habitação própria e permanente, disponibilizados pelo Governo, a que se somam mais 179.046 participações apresentadas às seguradoras.

São mais de 200 mil pessoas, habitantes deste nosso território afetado [pelo chamado comboio de tempestades] que ativaram a apólice de seguro, mais somado àquilo que foi a própria linha de apoio até 10 mil euros que o próprio Estado referenciou.

Paulo Fernandes

Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro

No primeiro caso, calculou, já foram aprovados e pagos 83,5 milhões de euros em habitações de 171 municípios, estimando o custo final entre os 105 e os 110 milhões de euros. O valor médio de apoio é de 4.284 euros. Já as seguradoras aprovaram e pagaram 537,2 milhões de euros dos 661,5 milhões de euros de custo total estimados. O valor médio de indemnização é de 3.695 euros.

Ainda em jeito de balanço, o responsável avançou que “neste momento estão mobilizados 4.386 milhões de euros que correspondem a 290 mil processos”. No total, precisou, já foi autorizado e pago o montante de 3,6 mil milhões de euros entre recuperação de casas, empresas e componente pública, que retifica os 3,5 mil milhões que apontou nos últimos dias em várias entrevistas.

Mesmo assim, Paulo Fernandes prometeu que a Estrutura de Missão vai procurar, até dezembro de 2027, “ter o máximo de intervenções no carril, de preferência todas, ou quase todas no carril, ou seja, todas possam estar em execução”.

“Esperemos que a componente da habitação e a componente das empresas esteja toda ou praticamente toda” executada, frisou o responsável. Ressalvou, contudo: “É natural que nas grandes infraestruturas públicas, por exemplo, e em algumas grandes infraestruturas privadas, obviamente essa questão seja mais demorada, porque milagres ninguém faz neste processo”.

Em breve deverá abrir o Fundo de Emergência Municipal, cujo montante, ainda não foi revelado, para apoiar os municípios nas despesas e “mitigar os efeitos na vida das empresas”. Ainda esta segunda-feira, o autarca de Leiria divulgou que o município gastou 38,5 milhões de euros com trabalhos de recuperação do concelho na sequência da depressão Kristin, contabiliza o autarca Gonçalo Lopes.

Por fim, o coordenador da Estrutura de Missão para a Recuperação da Região Centro deixou um apelo: “Portugal não pode voltar a começar do zero” no caso de acontecer outra calamidade como aconteceu na sequência das depressões Kristin, Leonardo e Marta que causaram pelo menos 19 mortos no país, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo.

Paulo Fernandes defendeu, por isso, a implementação de “um modelo nacional de recuperação” como sendo “uma das questões centrais”, sublinhando ser “fundamental capacitar mais o cidadão e capacitar mais a primeira linha de resposta, as freguesias e os municípios” para estarem preparados para uma eventual calamidade.

Nesse sentido, “é preciso apostar num plano normativo muito relevante que defina a priori tudo o que são estes processos”. Ou seja, precisou, “para que perante um acontecimento, seja um fogo ou uma tempestade, seja o que for, as parametrizações das medidas, dos regulamentos, estejam já feitas, onde obviamente pode haver afinação, mas não construir tudo do zero”.

A aposta num balcão único da calamidade, um quadro jurídico permanente ou procedimentos normalizados são mais algumas das propostas defendidas pela Estrutura de Missão. “Muitas vezes é preciso simplificar nas normas, nas leis”, enfatizou Paulo Fernandes, concluindo: “A pior coisa que podemos fazer é achar que se digitalizarmos a complexidade a resolvemos”.

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