Sport TV, um “buraco financeiro” apesar dos lucros

Miguel Almeida, líder da NOS e acionista da Sport TV, diz que o canal é um “buraco financeiro”. As contas de 2024 mostram lucro, mas uma rentabilidade operacional quase nula.

A Sport TV fechou o ano de 2024 com lucros, mas os números ajudam a perceber por que motivo Miguel Almeida, presidente executivo da NOS, classificou o canal desportivo como um “buraco financeiro”. A expressão não descreve uma empresa insolvente ou incapaz de pagar as suas obrigações, mas traduz uma rentabilidade reduzida de um negócio que movimenta mais de 200 milhões de euros por ano e absorve quase toda a margem gerada.

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Em entrevista ao Expresso (acesso pago), Miguel Almeida admitiu não estar “tranquilo” em relação à Sport TV, na medida em que esta representa um “buraco financeiro”, embora tenha atribuído a situação aos “contextos de mercado”. A declaração assume particular relevância por partir do líder de um dos acionistas do canal. A NOS detém 25% da Sport TV, ao lado da MEO, Vodafone e Olivedesportos, com posições acionistas equivalentes. Na mesma entrevista, o gestor afirma que a entrada da operador no capital da Sport TV resultou de “movimentos de 2015 e 2016 em torno dos direitos de transmissão dos jogos da Liga Portuguesa de Futebol”.

Foi, acrescenta, “uma guerra iniciada por um concorrente nosso [a PT, atual Meo] à qual nós reagimos, e que foi negativa para o setor e para o consumidor e positiva para o futebol nacional. Nós fizemos um movimento defensivo”. Terá sido, aliás, o mesmo motivo que levou a NOS a comprar os direitos de transmissão do Benfica para as duas próximas épocas, antes da centralização, por cerca de 115 milhões de euros. “Não queremos estar, não é a nossa vocação. E esse paradigma vai mudar, pois vem aí a centralização dos direitos televisivos no futebol português. As coisas podem, na nossa perspetiva, voltar à normalidade, que é, basicamente, nós não queremos ter nada a ver com isso.”

As últimas contas disponíveis relativas a 2024, depositadas no registo comercial, mostram que a Sport TV aumentou as vendas e serviços prestados em 9%, para 216,1 milhões de euros. Apesar desse crescimento, o EBITDA ajustado recuou 1%, para 148,9 milhões, porque os custos cresceram mais depressa do que as receitas. Só o custo das mercadorias vendidas e matérias consumidas quase duplicou, de 21,9 milhões para 41,6 milhões de euros.

O principal problema surge depois do EBITDA. A Sport TV registou 147,7 milhões de euros em depreciações e amortizações, mais 2% do que em 2023. Esta rubrica consumiu assim 99,2% do EBITDA, deixando apenas 1,16 milhões de resultado operacional, uma queda de 81%. A margem operacional caiu de 3,06% para 0,54%, o que significa que, por cada 100 euros faturados, o canal televisivo reteve apenas 54 cêntimos antes de juros e impostos.

Num negócio assente na aquisição de direitos desportivos por vários anos de diversas modalidades, as amortizações traduzem na prática o consumo contabilístico desses ativos ao longo da duração dos respetivos contratos. É esta realidade que explica a distância entre uma margem EBITDA de 68,9%, aparentemente elevada, e uma rentabilidade operacional quase residual. O EBITDA mostra a capacidade de geração antes do custo económico dos ativos, já o resultado operacional revela quanto sobra depois desse custo.

A Sport TV terminou o ano com um lucro líquido de 2,25 milhões de euros, menos 59% do que em 2023. O resultado beneficiou ainda de 1,16 milhões associados ao imposto sobre o rendimento, sem os quais o lucro teria ficado próximo do resultado antes de impostos de 1,09 milhões. A margem líquida, essa, foi de apenas 1,04%.

As contas de 2024 não mostram uma emergência de liquidez. A empresa apresentava uma autonomia financeira de 47,2%, liquidez reduzida de 1,42 e encargos com juros de apenas 74 mil euros. O “buraco financeiro” referido por Miguel Almeida reflete, por isso, uma crítica à capacidade da Sport TV para remunerar os capitais e os riscos assumidos pelos acionistas.

As contas de 2025, essas, ainda não são conhecidas. Com a informação disponível, a Sport TV deverá ter fechado o ano com lucros, mas gera um retorno muito reduzido face ao volume de receitas, aos ativos utilizados e aos compromissos associados aos direitos desportivos.

Rolando Oliveira, recorde-se, é o presidente do conselho de administração da Sport TV desde outubro do ano passado, substituindo no cargo Joaquim Oliveira, fundador do canal desportivo que faleceu em agosto. Já Nuno Ferreira Pires foi reconduzido no cargo de CEO, com o conselho de administração a “sublinhar a confiança na atual liderança executiva” para o mandato até 2028.

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