BRANDS' ECOSEGUROS Muito para Além das Quatro Linhas: o Fascínio e o Valor do Colecionismo Contemporâneo
Colecionar é uma das manifestações culturais mais antigas do comportamento humano.
Com o encerramento de mais um Campeonato do Mundo de Futebol, podemos agora olhar para trás e recordar os grandes protagonistas do jogo, os golos mais marcantes ou as surpresas e desilusões que marcaram o torneio. Mas há fenómenos paralelos ao que acontece dentro das quatro linhas que acabam por conquistar também um lugar próprio na história do evento, sejam eles de caráter mais político, económico ou social.
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Cerca de uma semana antes da grande final, ao deslocar-me a um centro comercial, deparei-me com um stand dedicado ao Mundial no qual estavam largas dezenas de pessoas, na maioria adultos, sentados no chão em pequenos grupos à volta de cadernetas, cromos e folhas rabiscadas com números em falta nas suas coleções. Era, portanto, um evento dentro do evento, destinado à troca de cromos da coleção oficial do Mundial de 2026. Mas sei bem que este não foi um acontecimento único e que muito antes do apito inicial, milhões de pessoas em todo o mundo se terão começado a dedicar à difícil tarefa de preencher a emblemática caderneta do Mundial, procurando afincadamente as saquetas de cromos, muitas vezes esgotadas nos pontos de venda e participando depois em trocas ou recorrendo, em alguns casos, a um mercado secundário que nestas alturas de grande procura sempre emerge, em busca dos desejados itens em falta. Os colecionadores e os mais atentos reconhecem que se viveu uma autêntica febre, sem grande paralelo com edições de anteriores mundiais.
A coleção do Mundial de Futebol representa, para muitos, uma porta de entrada para o universo do colecionismo. Colecionar é uma das manifestações culturais mais antigas do comportamento humano e o sucesso das cadernetas do Mundial ajuda a compreender alguns dos mecanismos fundamentais que estão na base do colecionismo. No caso específico desta coleção, ou de outras do mesmo género, existe o desafio da completude, que desencadeia a procura da peça em falta, coexistindo, porém, com outros aspetos do comportamento humano, como o prazer da organização e da catalogação, a dimensão social da troca ou a criação de um repositório de memórias.
Contudo, não é possível ignorar a dimensão económica deste universo, nem a evolução que o mercado do colecionismo tem vivido nas últimas décadas. Ainda no universo do futebol, cromos raros associados a alguns dos maiores nomes deste desporto têm alcançado valores elevados em leilões especializados. Peças em estado de conservação excecional, séries limitadas ou exemplares particularmente difíceis de encontrar tornaram-se alvo de um mercado cada vez mais profissionalizado, envolvendo casas de leilões, plataformas digitais e colecionadores internacionais. Em 2021, um cromo de Diego Maradona foi vendido em leilão por mais de meio milhão de euros e em 2023, um exemplar único do cromo de Lionel Messi, referente à coleção do Mundial de 2022, foi vendido por 139 mil dólares. Valores muito elevados, mas ainda assim longe dos estratosféricos 12 milhões de dólares da venda de uma carta colecionável de 1952, da lenda do baseball Mickey Mantle. Embora a esmagadora maioria das peças produzidas não alcance tais montantes, estes casos contribuem para despertar o interesse do público e demonstram como objetos aparentemente banais podem adquirir relevância patrimonial ao longo do tempo.
Este tipo de valorização financeira traz consigo uma questão muitas vezes ignorada: a do interesse segurável das coleções. À medida que determinadas coleções adquirem valor económico relevante, torna-se importante considerar a sua proteção enquanto património. O conceito de interesse segurável tem por base a existência de um prejuízo económico potencial decorrente da perda, dano ou destruição de um bem e, embora muitos associem esta questão a obras de arte, joias ou antiguidades, ela aplica-se igualmente a coleções com um cariz, digamos, mais contemporâneo. Existe um vasto ecossistema de coleções ditas contemporâneas que abrange desde bandas desenhadas, discos, brinquedos, cartas colecionáveis, selos ou, precisamente, cromos desportivos. Uma coleção completa, especialmente quando integra edições raras, exemplares difíceis de encontrar ou conjuntos conservados em estado excecional, pode representar não só um investimento significativo, mas também um património de valor considerável, justificando medidas de preservação adequadas e, em determinados casos, a contratação de soluções de seguro específicas. Conclui-se, portanto, que a proteção deste tipo de património é altamente recomendável, não só pelo valor afetivo que os objetos colecionáveis da cultura popular podem possuir, mas também pelo seu valor económico.
Esta realidade aproxima o colecionismo contemporâneo das tais áreas tradicionalmente associadas às antiguidades e ao mercado da arte. Naturalmente, existem diferenças importantes. Uma pintura renascentista ou uma cómoda francesa do século XVIII possuem enquadramentos culturais e critérios de valorização próprios. Ainda assim, nos diferentes tipos de coleção encontramos elementos comuns: a escassez, a autenticidade, o estado de conservação, a proveniência, a procura e o significado simbólico atribuído pelos colecionadores. Um exemplar do denominado “White Album” dos The Beatles foi vendido em 2015 por um valor recorde de 790 mil dólares. E porquê? Não só se tratava do exemplar nº 0000001, como se tratava do disco que pertencia ao próprio Ringo Starr, baterista da banda.
Exemplos como este ou como as coleções de cromos de futebol ilustram também uma questão geracional na forma como se entende o conceito de património colecionável. Historicamente, o colecionismo esteve fortemente associado a objetos antigos, muitas vezes com valor intrínseco ou com caráter erudito, mas, hoje, reconhece-se cada vez mais valor cultural em objetos ligados à cultura popular e às memórias coletivas. As luzes do Mundial apagam-se e o espetáculo dentro das quatro linhas chega ao fim, mas um aparentemente simples conjunto de cromos prova-nos que o colecionismo continua vivo, reinventando-se e conquistando novos adeptos.
Texto por Ricardo Azevedo, Diretor da Innovarisk
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