Sérgio Figueiredo abandona Conta Lá ao fim de 12 meses
O Conta Lá tem um ano, está na posição 15 da Meo, mas já acumula dívidas e salários em atraso. E agora o seu fundador e líder, Sérgio Figueiredo, anuncia a sua saída.
No dia 17 de junho do ano passado, o ECO/+M revelou em primeira mão o regresso de Sérgio Figueiredo ao jornalismo, com o lançamento de um novo canal de televisão que, como dizia à data, era muito mais do que isso. Sérgio Figueiredo tinha saída da direção da TVI, demitido por Mário Ferreira, e esteve, depois, a um passo de ser consultor de Fernando Medina nas Finanças, mas acabou por renunciar. Juntou, então, um conjunto de investidores para lançar o canal de televisão Conta Lá, de que era o CEO. Esta semana, Sérgio Figueiredo apresentou a demissão do projeto, na sequência de uma crise financeira ao fim de menos de um ano de operação e que levou a salários em atraso, um ‘lay-off’ e audiências absolutamente marginais. “Não é o fim do projeto, é simplesmente o meu fim nele“, justificou o jornalista, esta quarta-feira, em comunicado aos trabalhadores.
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Em junho de 2025, o Conta Lá fez uma emissão especial a partir da Feira Nacional de Agricultura, e foi nesse contexto que ECO/+M revelou as primeiras informações sobre este canal de televisão, que se anunciava muito mais do que isso. “É uma plataforma feita para aproximar, dar palco e iluminar o que tantas vezes fica fora do radar mediático. Nasce das pessoas. E para as pessoas”, explicava uma fonte oficial, em nome do líder e principal rosto do projeto editorial. Na liderança e estrutura acionista do grupo aparecia Sérgio Figueiredo, Maurício Ribeiro, produtor e fundador da MauMauMia, e os empresários Luís Santos e Luís Fernandes, donos da holding New Anderthal, grupo de consultoria de TI.

Não se conheciam os números do capital, nem do investimento, mas o projeto era anunciado com uma ambição surpreendente tendo em conta o contexto do setor. Anunciavam-se mais de 200 trabalhadores e um fôlego de investimento relevante, nomeadamente em tecnologia. O Conta Lá apareceu com caras conhecidas, muitas delas vindas da TVI. Paulo Salvador, Rita Ferro Rodrigues, Marcos Pinto, Luís Varela de Almeida e Margarida Pinto Correia eram nomes com experiência em televisão. E chegou ao canal 15 da Meo, uma posição privilegiada, mas estava também na Vodafone e Nos. Mas nestes cerca de sete meses de emissão regular, as audiências também não saíram de números absolutamente marginais, com uma média diária abaixo dos mil telespetadores.
No manifesto inicial, o ‘Conta Lá’ anunciava pretende “transformar a forma como se consome media regional, rural e turístico”. Mas, na prática, de que forma? “Queremos substituir o modelo tradicional — centralizado, massificado e desconectado com o território — por um ecossistema inteligente, personalizado e multicanal, onde cada utilizador tem acesso a conteúdos relevantes para a sua região, os seus interesses e a sua vivência. Através da distribuição simultânea em canais de televisão e plataformas digitais, vamos unir o impacto da TV linear ao potencial das novas comunidades digitais. A nossa proposta é “escrever uma vez e publicar em todo o lado”, com conteúdos adaptados automaticamente a cada canal, dispositivo e contexto de consumo”, pormenoriza nas respostas enviadas por escrito ao ECO/+M. Com Inteligência Artificial.
A primeira grande operação foi nas eleições autárquicas, com a promoção de debates em todos os concelhos do país, e logo a seguir iniciaram-se as emissões regulares. O dia 11 de dezembro, às 18h, arranca a emissão com o programa “Minha Terra Minha Gente”, uma mini série documental sobre as tradições nacionais. Meses depois, começaram a circular rumores não confirmados de problemas financeiros e pagamentos em atraso a fornecedores. E a 29 de junho, pouco mais de meio ano depois do arranque formal do canal, as dificuldades financeiras são confirmadas oficialmente. “Em setembro, com o dia 15 como referência, o projeto entra numa nova fase, conseguindo meios que nunca teve para acelerar investimentos e cumprir o Conta Lá tal qual ele foi pensado. […] A questão é ‘como sobreviver até lá’? O que tem de ser feito para que o colapso não seja drástico e definitivo“, escreveu Sérgio Figueiredo a todos os trabalhadores. Com um objetivo anunciado: “Reduzir a escala de custos é vital. Temos de voltar a ser menos, para voltarmos a ser mais”, prometia. E apontava para o dia 31 de julho a data para a regularização das dívidas aos trabalhadores.
Esta quarta-feira, Sérgio Figueiredo anuncia a saída prematura do projeto que fundou. “Sei que nada disto paga o que vos é devido — e é a essa dívida que a nova Comissão de Gestão deverá responder primeiro. Resta-me somar a essa angústia o peso de saber que se podia ter feito mais. Começar com a confiança de quem nos segue é das sensações mais extraordinárias da realização humana, acabar com a incapacidade de responder ao desespero de quem nos olha à espera de respostas, é uma desgraça que não desejo a ninguém. Tornou-se insuportável viver sem respostas”, refere Sérgio Figueiredo. “Não é o fim do projeto, é simplesmente o meu fim nele“, acrescentou o jornalista.
No dia da saída, Sérgio Figueiredo anunciou que ainda este mês será convocada uma assembleia geral de acionistas para aprovar o plano de reestruturação e nomear uma nova Comissão de Gestão, que passará a assumir a condução executiva do Conta Lá. E também novos acionistas, ainda por conhecer.
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