“Data centers não têm de representar mais custos energéticos para o consumidor”
Na Conferência .IA, Ana Quelhas, Global Hydrogen & Data Centers Executive Director da EDP, diz que a crescente instalação de 'data centers' no país não implica energia mais cara para consumidores.

A infraestrutura e os custos necessários para suportar a inteligência artificial (IA) estão, por estes dias, no centro do debate do setor tecnológico. Para Ana Quelhas, Global Hydrogen & Data Centers Executive Director da EDP, vai existir sempre um grande consumo de energia por parte dos hyperscalers, mas isso não significa que “o aumento de custos com os data centers tenha de representar mais custos [energéticos] para o consumidor final”.
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Na Conferência .IA, que decorreu esta terça-feira no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, a responsável da EDP admite que a IA vai exigir mais renováveis, mais redes, mais baterias e mais investimento, mas considera que estas necessidades vão acabar por “transformar todo o setor”. Ana Quelhas sublinha que os investimentos relacionados com os centros de dados “beneficiam a descarbonização elétrica, a mobilidade elétrica e outras áreas”.

Num setor em forte expansão e que exige um elevado investimento, Ana Quelhas refere também que é necessário “planear toda a procura, o consumo e o desenvolvimento de infraestruturas”. A responsável da EDP acrescenta que as três áreas onde são necessários investimentos para responder ao aumento do consumo de energia são as “renováveis, redes e flexibilidade”.
“Temos hoje mais de 15 gigawatts (GW) de Power Purchase Agreement (PPA, na sigla em inglês) contratados em todo o mundo e mais de 20% são de centros de dados. Só no último ano, quase metade foi para centros de dados. A urgência dos consumidores em ligarem-se à rede é muito grande e o nosso papel é garantir que o país tem energia sustentável e competitiva para abastecer esse consumo”, explica Ana Quelhas.
Sines é cidade-chave para a IA, mas existem limitações
Luís Rodrigues, Chief Operating Officer (COO) da Start Campus, localizada precisamente em Sines, admite no painel de debate que o desenvolvimento dos centros de dados é um tema “muito complexo”, mas que o Governo já identificou esse desafio com a simplificação de licenciamentos, uma das medidas previstas no Plano Nacional de Centros de Dados, apresentado em março pelo Executivo.
“Mais do que acelerar, é preciso previsibilidade e processos claros. Já vemos alguns indícios de que o foco está lá, mas falta a execução”, começa por explicar Luís Rodrigues.
O COO da Start Campus refere que a empresa está a “mapear qual será o consumo expectável” de energia para depois trabalhar com a EDP, porque “uma coisa é atrair investimento, outra é concretizá-lo. A Europa já não é um mercado fácil e Portugal tem as suas especificidades”, prossegue.

Sines está atualmente no centro do ecossistema quando se fala em IA, não só pela grande infraestrutura da Start Campus instalada na cidade, que continua a crescer com a construção de novos edifícios e onde a Microsoft já anunciou que vai investir mais de dez mil milhões de dólares nos próximos anos, mas também por outros projetos em desenvolvimento, como a amarração de cabos submarinos. Mas estes projetos trazem desafios para a cidade localizada no litoral alentejano.
Luís Rodrigues sublinha que “Sines é um caso particular porque tem muitos projetos em simultâneo” e esclarece que, caso todos os investimentos previstos avancem, “a população poderá duplicar” face aos atuais cerca de 14 mil habitantes.
O executivo da Start Campus explica ainda que, num momento em que a cidade enfrenta dificuldades ao nível da habitação, um fator essencial para atrair a mão-de-obra cada vez mais necessária, a empresa está a investir em soluções de alojamento para os trabalhadores. “Estamos a trabalhar numa aldeia para dar melhores condições de vida, com campos de futebol, padel e enfermaria. A aldeia ficará no concelho de Sines. Estamos também a falar com vários promotores imobiliários”, indica Luís Rodrigues.
“Mas Sines, com este crescimento, precisa de restaurantes, escolas e planeamento. Se não pensarmos nisso, vai ser difícil executar [estes investimentos]. Esta é uma oportunidade única para Sines”, conclui.
Visabeira defende investimento em competências nacionais para desenvolver a indústria
Paulo Soeiro Ferreira, Head of Engineering and Innovation da Visabeira Global, defende que Portugal tem de apostar no desenvolvimento de competências nacionais para tirar partido do crescimento da indústria dos centros de dados.
Apesar de o país conseguir atualmente contratar grandes construtores estrangeiros para executar os investimentos iniciais, considera que “o projeto não acaba no capex“ (investimento) e que, para implementar esta indústria em Portugal, “é preciso muito mais”. Apesar da importância das redes de grande capacidade, é necessário “depois derivar para centros de dados mais pequenos, mais próximos das cidades e das localidades”, afirma.

Em relação aos recursos humanos, o responsável considera que Portugal já dispõe de profissionais com competências técnicas, mas ainda falta capacidade para integrar todas as valências necessárias ao desenvolvimento de um centro de dados. “É nisso que temos de pensar para a próxima fase”, defendeu.
No plano interno, Paulo Soeiro Ferreira revelou que a Visabeira começou a preparar-se para a IA há cerca de três anos. A empresa adotou uma estratégia transversal, disponibilizando o “ChatGPT Pro a todos os colaboradores para aumentar a eficiência”, a par de um plano específico de adoção da IA nos diferentes verticais de negócio.
Assista ao debate na íntegra:
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