Soledade Carvalho Duarte: “Estava grávida e pensei que, com aquela barriga, ninguém me ia dar emprego”
Sempre sonhou ser médica, mas a falta de média levou Soledade Carvalho Duarte a formar-se em RH e Psicologia do Trabalho. Hoje lidera a Transearch Portugal e garante ser apaixonada pelo que faz.
Soledade Carvalho Duarte, diretora-geral da Transearch Portugal, é a 86º convidada do podcast “E Se Corre Bem?”. Apesar de nunca se ter imaginado a trabalhar na área de Recursos Humanos, esta pareceu-lhe a melhor alternativa para aquele que era o plano A da sua vida: ser médica. Já que não conseguiu entrar em medicina quando terminou o 12º ano, escolheu a licenciatura de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho como ponte para, mais tarde, voltar a candidatar-se ao curso que sempre quis.
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“Toda a minha vida sonhei ser médica. Acontece que, quando cheguei ao fim do 12º ano, não tive média para entrar na faculdade de medicina e tive o meu primeiro grande choque pessoal. Eu não tinha plano B. O meu plano A era medicina, mas não tive nota. Então percebi que se eu tirasse um outro curso superior, a seguir poderia concorrer a medicina com uma licenciatura, fosse ela na área que fosse. Como gostava bastante de psicologia, achei que este curso me poderia dar esta aproximação”, começou por dizer.
Acabou, assim, por seguir um plano B inesperado, mas sempre com o plano A em mente. Terminados os cinco anos de curso, voltou à faculdade de medicina para se informar sobre como se poderia candidatar, mas acabou por perceber que havia alunos prioritários para entrar naquelas condições: “Perguntaram-me se eu já tinha trabalhado ou vivido em algum país dos PALOP porque esses alunos tinham prioridade. Portanto, naquele ano, nada de vaga para mim. No ano seguinte, voltei, mas a conversa foi mais ou menos a mesma. E aí eu decidi que me ia dedicar à minha vida profissional e, quem sabe, um dia mais tarde, quando me reformar, vou fazer medicina”.
Nessa altura, Soledade Carvalho Duarte já estava a trabalhar como trainee na empresa que hoje lidera e foi lá que sempre se manteve. “Terminei a licenciatura em julho de 1986 e arranjei emprego na empresa onde hoje estou. Quando fui entrevistada, o fundador da empresa perguntou-me se eu sabia fazer entrevistas a outras pessoas. Nunca tinha feito nenhuma, mas disse que achava que era capaz de fazer. E fui contratada para trabalhar diretamente com ele, como trainee”, explicou.
Depois do primeiro cargo como trainee, passou a junior e, posteriormente, a consultant. Desde aí, foi fazendo entrevistas a centenas de pessoas e revela que, apesar de ter começado a desempenhar esta função com um guião que a orientava, rapidamente começou a abandoná-lo para poder ter conversas mais abertas e menos estruturadas: “Eu tento sempre conhecer o profissional que está à minha frente muito para lá da sua vida profissional. Queria ter uma conversa aberta, descontraída, e que pudesse tocar em todas as suas áreas da vida para perceber se, de facto, aquela pessoa iria ser feliz ali“.
Sentia que tinha tudo bem encaminhado, que estava a ser bem-sucedida no seu trabalho, mas acabou por ser confrontada com uma decisão do seu chefe, que mudou completamente a sua vida. “O chefe e fundador da empresa disse-me que se queria reformar e perguntou-me se eu queria ficar como Managing Partner da empresa. Disse-me que fazia gosto, mas alertou-me para me aconselhar porque achava que eu não ia ser capaz. Devo dizer que lhe agradeço profundamente esta mensagem”, reconheceu.
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Soledade Carvalho Duarte, diretora-geral da Transearch Portugal, no 86º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
"Eu tento sempre conhecer o profissional que está à minha frente muito para lá da sua vida profissional" Hugo Amaral/ECO -
"Eu continuo a acreditar que quando chamo alguém e lhes proponho um projeto profissional é para correr bem" Hugo Amaral/ECO -
"Quando uma empresa tem uma necessidade, temos de ir àqueles bons executivos que já estão a fazer o seu trabalho bem feito, e abaná-los" Hugo Amaral/ECO
O convite foi inesperado e, ao mesmo tempo, controverso. Mas, depois de analisar a situação, Soledade Carvalho Duarte não teve dúvidas na resposta: “Cheguei a uma brilhante conclusão, que foi: eu não tenho alternativa. Estava grávida da minha terceira filha e pensei que, com aquela barriga, ninguém me ia dar emprego. E eu tinha de trabalhar porque já tinha dois filhos, portanto não tinha alternativa e ia aceitar o convite. Só lhe pedi que estivesse disponível para falarmos se me surgisse alguma dúvida”.
E assim foi. Começou a liderar a empresa com uma filha recém-nascida, mas sempre a acreditar no potencial que tinha para oferecer e no consequente crescimento da Transearch. “Eu moldei-a para ser a minha empresa. Nós estamos aqui para servir clientes e para servir candidatos. E, como tal, o que temos de fazer é pôr-nos à disposição do cliente, com todo o nosso saber e experiência, para irmos à procura das pessoas que melhor o podem servir naquele momento. Do lado dos candidatos, eu continuo a acreditar que quando chamo alguém e lhes proponho um projeto profissional é para correr bem“, garantiu.
Esta confiança no seu próprio trabalho cresceu ao ponto de não se sentir intimidada com a escassez de talento e ter a segurança necessária para conseguir fazer um executivo sair de um trabalho que gosta para outro que, garante, ainda o fará mais feliz: “Há escassez de talento a todos os níveis, sobretudo ao nível de executivos. Então, quando uma empresa tem uma necessidade, temos de ir àqueles bons executivos que já estão a fazer o seu trabalho bem feito, e abaná-los“.
“Aquilo que eu tenho que ter para os candidatos é uma boa proposta de valor. E é muito fácil encontrar pessoas que digam que sim. A grande dificuldade é nós irmos à procura de pessoas que estejam dimensionadas para aquele desempenho. Então, quando eu as tenho à frente, como já estudei todo o seu percurso, eu consigo dizer-lhes quais são as áreas profissionais deles que podem ser potenciadas com o desempenho daquela posição e até onde é que ele pode chegar“, continuou.
Esta certeza, além de advir da sua experiência, surge também da sua capacidade de análise, que considera ser uma consequência direta de adorar o seu trabalho. Hoje, enquanto diretora-geral da Transearch, afirma ser “apaixonadíssima” pelo que faz e concluiu: “Portugal tem ótimas condições para as pessoas poderem ser muito felizes, muito realizadas profissionalmente, e acrescentarem valor num país que tem imensas oportunidades de crescer e de se desenvolver“.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.
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