BRANDS' ECO O turismo deixou de precisar de promoção, agora precisa de gestão

  • Conteúdo Patrocinado
  • 13 Julho 2026

O desafio já não é convencer mais turistas a visitar Portugal, mas garantir que o crescimento da atividade é compatível com a qualidade de vida dos residentes.

Durante décadas, a grande preocupação dos destinos turísticos foi atrair visitantes. Hoje, a discussão mudou de natureza. O desafio já não é convencer mais pessoas a visitar o Porto ou Portugal, mas encontrar formas de gerir esse crescimento sem comprometer a qualidade de vida dos residentes, a identidade dos territórios e a sustentabilidade da atividade. Foi precisamente esta mudança de paradigma que marcou o painel “Governação do Turismo: Equilíbrio entre Crescimento e Coesão”, no qual representantes do município do Porto, do Turismo do Porto e Norte de Portugal e da Associação do Alojamento Local em Portugal defenderam que o futuro do setor dependerá cada vez menos da promoção e cada vez mais da capacidade de tomar decisões sustentadas em dados.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

Num debate onde houve mais consensos do que divergências, a principal ideia foi que o turismo deixou de poder ser gerido isoladamente. Habitação, mobilidade, planeamento urbano, investimento privado e qualidade de vida passaram a fazer parte da mesma equação. E, por isso, as decisões já não podem assentar apenas em perceções ou na pressão da opinião pública, mas em informação que permita compreender onde existem problemas reais e onde persistem narrativas que não encontram correspondência nos números.

Hugo Beirão Rodrigues, vereador do Turismo e da Internacionalização da Câmara Municipal do Porto, foi um dos mais incisivos na defesa desta ideia. O autarca confessou que, durante vários anos, sentiu que a discussão pública sobre o turismo era dominada por preconceitos e ideias feitas, muitas vezes desligadas da realidade da cidade. “Hoje é um dos dias mais felizes que tenho tido a debater turismo, porque durante muito tempo senti-me completamente isolado nesta discussão. Debatia estes temas com jornalistas, universidades e opinion makers que falavam sem dados e sem noção do que estavam a dizer. Alimentaram-se mitos urbanos que encheram páginas de jornais e programas de televisão, mas que raramente eram sustentados por factos”, afirmou.

Um dos exemplos apontados foi o conceito de overtourism, frequentemente associado ao Porto. Para Hugo Beirão Rodrigues, a utilização do termo nem sempre corresponde à realidade observada no terreno. “Fala-se constantemente de overtourism, mas qual é exatamente o limite? Quem o definiu? Tirando alguns dias de agosto, no centro histórico, não existe hoje uma pressão turística que justifique essa narrativa”.

Mais do que rejeitar o problema, o vereador defendeu que é necessário enquadrá-lo de forma rigorosa e compreender que o Porto não se resume ao seu centro histórico. A cidade, argumentou, transformou-se profundamente nas últimas décadas e essa transformação não pode ser analisada ignorando o contexto em que ocorreu.

Foi precisamente esse contexto que levou Hugo Beirão Rodrigues a recordar o estado em que se encontrava o centro histórico do Porto nas décadas de 1980 e 1990, muito antes de a cidade se afirmar como destino turístico internacional. “Há quem fale de autenticidade, mas esquece-se de como era o centro histórico. Havia edifícios sem telhado, casas sem condições, crianças a tomar banho em alguidares nas varandas. Quase ninguém queria viver ali. Hoje olha-se para aquela realidade como se tivesse sido melhor, mas a verdade é que a reabilitação transformou completamente a cidade”.

Para o autarca, também é incorreto atribuir exclusivamente ao turismo mudanças como o desaparecimento de parte do comércio tradicional ou a redução da população residente no centro histórico. “Os nossos hábitos de consumo mudaram. Antes de culparmos o turismo, devemos perguntar quando foi a última vez que fizemos compras no comércio tradicional. Muitas dessas lojas continuam abertas precisamente porque existem turistas que compram os produtos que nós próprios deixámos de comprar”. Mais do que discutir o número de visitantes, Hugo Beirão Rodrigues defendeu que o verdadeiro desafio passa por integrar o turismo nas restantes políticas públicas. “O turismo não pode ser dissociado da qualidade de vida da cidade. Não haverá uma cidade boa para os residentes que seja má para os turistas, nem uma cidade boa para os turistas que seja má para quem cá vive. Tem de existir esse equilíbrio”.

Precisamos de mais dados

Se a gestão do turismo deve assentar em dados, esses mesmos dados têm vindo a alterar a forma como a região se promove internacionalmente. Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, recordou que um dos maiores desafios dos últimos anos foi precisamente reduzir a concentração de visitantes na Área Metropolitana do Porto e demonstrar que o destino vai muito além da cidade. “Quando iniciámos este trabalho, mais de 75% dos turistas não saíam da Área Metropolitana do Porto. Hoje conseguimos reduzir esse peso em quase dez pontos percentuais porque deixámos de vender apenas o Porto e passámos a apresentar toda a região. Mostramos aos mercados internacionais que existe um parque nacional, cinco parques naturais, três geoparques, património mundial, enoturismo, turismo industrial, gastronomia e muito mais”.

"Em pouco tempo conseguimos oferecer experiências completamente diferentes”

Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal

Na perspetiva do responsável, a diversificação da oferta constitui uma das principais vantagens competitivas da região e responde a uma procura cada vez mais exigente, interessada em experiências diferenciadas e não apenas nos destinos mais conhecidos. “Em pouco tempo conseguimos oferecer experiências completamente diferentes. Passamos da costa atlântica ao Douro, dos vinhos verdes ao vinho do Porto, da natureza ao património, da gastronomia ao turismo industrial. É esta diversidade que nos permite chegar a novos mercados e aumentar o tempo de permanência dos visitantes”.

Luís Pedro Martins defendeu ainda que esta estratégia exige uma escala de promoção que ultrapassa fronteiras administrativas e até nacionais. Num mercado global, argumentou, o importante é tornar o destino suficientemente atrativo para captar visitantes, mesmo que isso implique articular ofertas entre diferentes regiões ou países. “Quando estou a promover a região na Coreia do Sul não posso falar apenas do Norte. Tenho de falar de Fátima, de Braga e até de Santiago de Compostela. O importante é criar uma proposta suficientemente forte para convencer o turista a fazer a viagem. Depois, naturalmente, cada território beneficia dessa procura”.

Cooperação é fundamental

A cooperação foi, aliás, uma das palavras mais repetidas ao longo do painel. Para o presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, o atual momento de entendimento entre municípios, entidades regionais, organismos de promoção e Governo representa uma oportunidade rara para consolidar o crescimento do setor. “Hoje existe um verdadeiro espírito de cooperação entre as instituições. É isso que nos permite desenvolver projetos que, há alguns anos, seriam muito mais difíceis de concretizar. Quando deixamos de competir entre nós e começamos a trabalhar em conjunto, tornamo-nos muito mais fortes”. A mesma lógica de equilíbrio foi defendida por Nuno Trigo, vice-presidente da ALEP e coordenador da delegação Porto e Norte, para quem a discussão em torno do alojamento local evoluiu significativamente nos últimos anos. Se numa primeira fase o principal desafio passou por legalizar uma atividade que já existia, hoje o foco centra-se na criação de instrumentos que permitam gerir o crescimento de forma antecipada.

O alojamento local já existia muito antes de existir enquadramento legal. O grande mérito das sucessivas reformas foi trazer essa atividade para dentro da economia formal, criar regras, enquadramento fiscal e permitir que os municípios tivessem instrumentos para a gerir.”

O responsável recordou igualmente o papel desempenhado pelo alojamento local na recuperação dos centros urbanos, defendendo que grande parte da reabilitação realizada nas últimas duas décadas dificilmente teria acontecido apenas através do investimento público. “O alojamento local foi fundamental para atrair investimento privado para a reabilitação das cidades. Basta recordar como estavam muitos centros históricos há vinte anos e comparar com aquilo que existe hoje”.

"O Porto foi pioneiro ao criar um observatório que permite saber exatamente onde está localizada cada licença de alojamento local”

Nuno Trigo, Vice Presidente da ALEP e Coordenador da delegação Porto & Norte

Na opinião de Nuno Trigo, uma das mudanças mais relevantes introduzidas pela legislação recente foi precisamente permitir que os municípios deixassem de atuar apenas quando surgiam problemas, passando a planear o crescimento da oferta de forma preventiva. “As zonas de crescimento sustentável representam uma alteração importante de paradigma. Em vez de proibir quando o problema já existe, permitem acompanhar previamente a evolução do mercado e perceber onde existe capacidade para crescer e onde essa capacidade começa a ficar limitada”.

O dirigente destacou ainda o trabalho desenvolvido pelo Porto através do Observatório do Alojamento Local, uma ferramenta que permite conhecer, praticamente ao detalhe, a distribuição da oferta existente na cidade. “O Porto foi pioneiro ao criar um observatório que permite saber exatamente onde está localizada cada licença de alojamento local. Isso dá aos municípios e aos próprios operadores uma capacidade de decisão muito mais informada”.

Mais do que restringir o crescimento da atividade, Nuno Trigo acredita que o próprio mercado tenderá a corrigir alguns desequilíbrios, sobretudo nos centros históricos, onde a pressão da oferta começa a ser cada vez maior. “Hoje os operadores percebem que não faz sentido querer instalar-se todos nos mesmos locais. Há cada vez mais oportunidades noutros territórios, quer no interior, quer em novas zonas urbanas, e essa dispersão é positiva para todos”.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O turismo deixou de precisar de promoção, agora precisa de gestão

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião