.IA

Corrida da IA requer energia, data centers e capacidade para decisões. Portugal está preparado?

Depois dos modelos, a inteligência artificial enfrenta novos desafios. Da infraestrutura à governação das empresas, Portugal procura posicionar-se numa corrida que está a redefinir a economia.

A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma revolução tecnológica. Está a transformar a economia e a criar novos desafios para governos, empresas e reguladores. A pressão sobre as redes elétricas, a procura crescente por terrenos para centros de dados, a necessidade de reforçar a soberania tecnológica da Europa e a dificuldade de muitas organizações em acompanhar o ritmo da mudança são apenas alguns dos efeitos da corrida que já se instalou, e da qual Portugal também quer fazer parte.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

A infraestrutura necessária para suportar toda a nova economia digital tornou-se um dos maiores desafios desta década. Os centros de dados, essenciais para garantir capacidade de computação e responder às exigências dos grandes modelos de inteligência artificial (IA), e dos novos agentes autónomos, estão hoje no centro da competição entre países que procuram atrair investimento e posicionar-se nesta nova cadeia de valor.

Portugal quer entrar nessa corrida. Em março, o Governo apresentou o Plano Nacional para os Centros de Dados, com o objetivo de acelerar o licenciamento destes projetos, simplificar e coordenar os processos para investidores e reforçar o papel da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) como ponto único de contacto. A ambição passa por criar condições para captar investimento internacional numa infraestrutura considerada estratégica para o desenvolvimento da economia digital.

É neste contexto que o ECO promove, esta terça-feira, no CCB, uma conferência focada neste momento específico, em que a infraestrutura tecnológica e uma nova geração de modelos e de agentes prometem transformar o dia-a-dia das organizações. Ao longo de uma manhã, líderes empresariais, especialistas, investidores e decisores políticos vão discutir o que falta construir para que Portugal consiga transformar a atual vaga de inovação numa oportunidade económica e tecnológica, incluindo os dois ministros que tutelam o setor.

A estratégia do Governo para esta nova corrida tecnológica será um dos primeiros temas em discussão. O ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, abre a conferência com uma intervenção que deverá abordar temas como o papel que Portugal pretende desempenhar na atração de investimento para centros de dados e outras infraestruturas críticas para a inteligência artificial, bem como aos obstáculos que o país ainda terá de ultrapassar para competir neste mercado.

Sines, concretamente, é atualmente os principal polo da estratégia portuguesa para a IA e os centros de dados. É onde está a ser desenvolvido o mega projeto da Start Campus, um dos maiores de infraestrutura digital da Europa, que deverá atrair investimentos superiores a dez mil milhões de euros e reforçar a posição de Portugal na economia digital. Mas esta transformação também evidencia os desafios que acompanham esta nova corrida tecnológica. A crescente procura por habitação, a necessidade de reforçar as ligações rodoviárias e ferroviárias e o aumento da capacidade da rede elétrica são alguns dos investimentos públicos estruturantes que o país terá de concretizar para acompanhar o crescimento deste setor.

Se há alguns anos a IA era vista sobretudo como uma revolução de software, atualmente, a discussão está centrada na infraestrutura. A capacidade de produzir, transportar e consumir energia tornou-se um dos principais fatores de competitividade da nova economia digital.

Em maio, numa entrevista à Bloomberg, o presidente executivo da EDP, Miguel Stilwell, afirmou que as empresas ligadas à IA já figuram entre os principais clientes da elétrica portuguesa. O crescimento da procura por capacidade de computação está a traduzir-se numa maior procura por eletricidade, obrigando as empresas do setor energético a antecipar investimentos em produção, redes e novas soluções de fornecimento.

O responsável destacou ainda o impacto que projetos de grande dimensão podem ter no sistema elétrico nacional. O campus de centros de dados da Start Campus, em Sines, poderá representar, quando estiverem todos os edifícios concluídos (neste momento ainda só está o SIN01), cerca de 20% do consumo de eletricidade do país. Para responder a esta nova realidade, Miguel Stilwell defendeu também uma aceleração dos processos de licenciamento, considerando que a rapidez na execução dos projetos será determinante para Portugal conseguir afirmar-se como destino de investimento nesta nova vaga tecnológica.

Nesse sentido, Luís Rodrigues, o diretor de operações (COO) da Start Campus, que vai estar presente na Conferência .IA, defende, em declarações ao ECO, que a discussão em torno da IA tende a centrar-se nos modelos, nas aplicações e nos casos de uso, mas sublinha que, na prática, “a IA começa pela infraestrutura”.

Luís Rodrigues, Chief Operating Officer da Start CampusHugo Amaral/ECO

“Sem os data centers adequados e sem capacidade de rede elétrica, não há capacidade de computação escalável, não há resiliência, nem uma base fiável para a adoção em larga escala da IA”, sublinha o COO da Start Campus.

É precisamente esse o papel que, segundo o responsável, a Start Campus procura desempenhar com o Sines Data Campus, um projeto com capacidade prevista de 1,2 GW, concebido para suportar serviços de cloud, computação de alto desempenho e inteligência artificial. Na sua perspetiva, Portugal reúne condições para se afirmar como um hub estratégico neste novo ciclo tecnológico, graças à combinação de energia renovável, forte conectividade internacional e capacidade para responder ao crescimento da procura europeia.

Para Luís Rodrigues, essa oportunidade “já está a passar da ambição à execução”. O responsável aponta como prova uma infraestrutura preparada para responder às necessidades futuras, operações focadas na disponibilidade, eficiência e sustentabilidade e um plano de crescimento “ativamente em curso, com resultados premiados; não apenas no papel”.

Sem os data centers adequados e sem capacidade de rede elétrica, não há capacidade de computação escalável, não há resiliência, nem uma base fiável para a adoção em larga escala da IA.

Luís Rodrigues

Diretor de operações de centros de dados da Start Campus

Em maio, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, revelou também que a Rede Elétrica Nacional (REN) apresentou um plano que prevê um investimento de cerca de 400 milhões de euros para reforçar a rede, de forma a acomodar a crescente procura de eletricidade. Na mesma ocasião, o Ministério do Ambiente e Energia adiantou que as manifestações de interesse de consumidores para ligação à rede representam já uma capacidade de 4,6 gigawatts.

O tema não é novo. Já na sexta edição da Talk .IA, organizada pelo ECO em fevereiro, um dos principais consensos entre especialistas e empresas foi precisamente o de que Portugal reúne condições para se afirmar como um polo relevante de infraestrutura para a IA. O maior desafio, defenderam os participantes, não está na capacidade de atrair investimento, mas sim em garantir que as redes de transporte e distribuição de eletricidade acompanham o ritmo da expansão dos centros de dados e das restantes infraestruturas digitais.

É precisamente sobre esta corrida à infraestrutura — e sobre as oportunidades económicas, energéticas e industriais que dela resultam — que se centra o primeiro painel da conferência, “Oportunidades e impactos da corrida à infraestrutura”. A discussão reúne Ana Quelhas, Global Hydrogen & Data Centers Executive Director da EDP, Paulo Soeiro Ferreira, Head of Engineering and Innovation da Visabeira Global, além de Luís Rodrigues, da Start Campus.

A importância da soberania europeia

A discussão sobre a infraestrutura dará depois lugar a um dos temas mais estratégicos da atualidade: a soberania tecnológica. Numa altura em que os Estados Unidos restringem o acesso aos modelos de IA mais avançados, como o Mythos da Anthropic, a Europa volta a debater a sua dependência tecnológica e a capacidade para desenvolver soluções próprias.

É neste contexto que o presidente do INESC e professor catedrático do Instituto Superior Técnico (IST), Arlindo Oliveira, participa numa conversa dedicada aos desafios que a IA coloca a Portugal, à Europa e à sociedade. Em antecipação, ao ECO, Arlindo Oliveira, explica que “a Europa enfrenta um desafio histórico de reforço da sua autonomia estratégica, pressionada pela guerra no continente, pela incerteza do compromisso dos Estados Unidos e pela aceleração tecnológica que transforma a economia e a defesa”.

Arlindo Oliveira, presidente do INESC, em entrevista ao “Podcast.IA”Hugo Amaral/ECO

Segundo o professor catedrático, que liderou o IST entre 2012 e 2019, essa “dependência é profunda” e particularmente evidente na área tecnológica, uma vez que “praticamente toda a computação em nuvem e modelos de inteligência artificial usados na Europa são produzidos nos EUA”. Na defesa, acrescenta, a indústria europeia “precisa da existência de uma contratação pública ágil e disposta a assumir riscos, como acontece nos EUA”.

Para Arlindo Oliveira, “financiar investigação não basta” e “só uma contratação pública robusta e sustentada poderá transformar inovação em capacidade industrial e económica”. Na sua perspetiva, “a verdadeira soberania europeia exige que a contratação pública faça parte da política industrial, remunerando o risco tecnológico e diversificando os fornecedores”, tanto na área da defesa como da tecnologia.

Também no penúltimo episódio do Podcast .IA, Arlindo Oliveira, desvalorizou a ideia de que o acesso aos modelos mais avançados seja, por si só, determinante para a competitividade europeia. Mesmo os modelos que chegam ao mercado europeu com seis a nove meses de diferença, explicou, apresentam já um nível de desempenho suficientemente elevado para permitir transformar processos e acelerar a adoção da inteligência artificial nas empresas. “Mesmo os modelos que não são os de ponta já são muito bons, só estão seis meses atrasados“, afirmou.

O especialista defendeu ainda que a rapidez com que novos modelos são lançados torna a liderança tecnológica necessariamente transitória. “Hoje é o Mythos, mas amanhã é o GPT-5.5 e depois a seguir vai ser outro”, resumiu, sublinhando que, mais do que perseguir constantemente o modelo mais avançado, o verdadeiro desafio passa por saber aplicar a tecnologia de forma eficaz e tirar partido do seu potencial económico e social. Entretanto, o tema da soberania ganhou ainda mais expressão quando os EUA decidiram colocar entraves ao lançamento dos modelos Mythos e Fable, da Anthropic, e também dos modelos GPT-5.6 Sol, Terra e Luna, da OpenAI.

A dependência é profunda: praticamente toda a computação em nuvem e modelos de inteligência artificial usados na Europa são produzidos nos EUA e a indústria de defesa precisa da existência de uma contratação pública ágil e disposta a assumir riscos, como acontece nos EUA.

Arlindo Oliveira

Presidente do INESC

Da geopolítica e da soberania tecnológica, a conferência passa para um desafio mais próximo da realidade das empresas: a capacidade de tomar decisões com a rapidez que a tecnologia impõe, ou falta dela. Na keynote “Da Inteligência à Ação: como a IA vai testar a capacidade de decisão das organizações”, Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC Portugal, irá refletir sobre os obstáculos que continuam a travar a adoção da IA no tecido empresarial português e sobre a necessidade de as organizações se tornarem mais ágeis num contexto de mudança acelerada.

No Podcast .IA, do ECO, Jorge Portugal defendia em janeiro que um dos principais entraves não está na tecnologia, mas na forma como as organizações decidem. À medida que crescem, explicou, os processos tornam-se mais burocráticos e a tomada de decisão mais lenta, dificultando a capacidade de adaptação. “Quem chega a Portugal de fora olha e diz: ‘Isto decide-se muito devagar'”, resumiu, defendendo que a velocidade de decisão será um dos fatores críticos para que empresas e economia consigam retirar partido da inteligência artificial.

O desafio dos CEO e do Governo com a IA

À medida que a IA deixa de ser apenas uma ferramenta de produtividade para passar a influenciar decisões estratégicas, subindo aos boards das empresas, também o papel dos executivos está em mutação. Aos CEO, é hoje exigido mais do que decidir se devem ou não adotar IA: têm de definir como a integrar nas organizações, estabelecer mecanismos de governação, gerir os riscos associados e garantir que a tecnologia cria valor para o negócio.

É neste âmbito que decorre o último painel “Liderar com IA: Como Decidem os CEO”, que reúne Rui Diniz, CEO da CUF, Francisco Teixeira, country manager da WPP Portugal, e Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal. Os três líderes representam setores distintos da economia, mas têm um ponto em comum: a IA já faz parte da estratégia das empresas que lideram.

Na saúde, a CUF tem vindo a integrar soluções de IA para reforçar o acompanhamento dos doentes e otimizar processos clínicos. Um dos exemplos é a Clara, uma assistente virtual que contacta pacientes por telefone para acompanhar a sua evolução clínica, analisando as respostas com recurso a IA e encaminhando para profissionais de saúde sempre que sejam identificados sinais que justifiquem uma intervenção.

Na área do marketing e da publicidade, a WPP tem apostado em plataformas de inteligência artificial capazes de apoiar as marcas em todo o ciclo de uma campanha, desde o planeamento estratégico e criação de conteúdos até à publicação e gestão em diferentes canais. A mais recente evolução desta estratégia passa pelo WPP Open Pro, uma plataforma desenvolvida para permitir às empresas utilizar ferramentas de IA de forma mais autónoma e integrada nas suas operações de marketing.

Na indústria e tecnologia, a Siemens está a reforçar a aposta em Portugal através da criação de novos centros de competências dedicados à IA e à experiência do utilizador, cuja entrada em funcionamento está prevista para este ano. A iniciativa integra a estratégia global do grupo alemão de reforçar a oferta de soluções de IA e deverá traduzir-se, numa primeira fase, na contratação de cerca de 250 profissionais, com a possibilidade de esse número crescer à medida que a operação for sendo expandida. Os novos centros vão desenvolver soluções assentes em inteligência artificial e análise de dados para apoiar a tomada de decisão e acelerar a transformação digital de clientes em diferentes setores da economia.

A encerrar a conferência estará o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, numa altura em que o Governo conta com vários desafios e tem em marcha uma estratégia para acelerar a adoção da inteligência artificial e posicionar Portugal na nova economia digital. Nos últimos meses foram apresentadas a Agenda Nacional para a Inteligência Artificial, com 32 medidas e um investimento superior a 400 milhões de euros, o Pacto Digital de Competências e o modelo de linguagem português Amália.

Entre as principais iniciativas destacam-se a criação de um regime de vistos acelerados para especialistas em IA, uma plataforma nacional de soluções de IA para pequenas e médias empresas, um Centro de Excelência em IA na Administração Pública para desenvolver e escalar soluções para o Estado e um reforço dos incentivos à adoção desta tecnologia através de programas de financiamento à inovação.

O Amália é o primeiro grande modelo de linguagem desenvolvido em Portugal. O LLM português foi financiado com 5,5 milhões de euros através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).Hugo Amaral/ECO

Entre os projetos mais ambiciosos está também o Amália, o primeiro grande modelo de linguagem cujo desenvolvimento foi patrocinado pelo Estado português. Financiado com 5,5 milhões de euros (mas que deverá ultrapassar os sete milhões) através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), o modelo foi apresentado no início deste mês e deverá começar a ser disponibilizado nas próximas semanas a diferentes áreas da Administração Pública, incluindo educação, saúde, defesa, cultura e atendimento ao cidadão, com o objetivo de acelerar a adoção de soluções de inteligência artificial no Estado.

Nas próximas semanas são também esperados desenvolvimentos sobre outro dos projetos estratégicos para Portugal que o Governo está envolvido: a candidatura conjunta com Espanha a uma das cinco gigafábricas de IA que a Comissão Europeia pretende instalar na União Europeia. Estas infraestruturas terão como missão disponibilizar capacidade de supercomputação a empresas, administrações públicas e instituições de investigação para o desenvolvimento e treino de modelos avançados de inteligência artificial. Segundo o Governo, a instalação de uma gigafábrica em Portugal poderá representar um investimento na ordem dos oito mil milhões de euros.

É neste contexto, marcado por novos investimentos, infraestruturas, políticas públicas e desafios para empresas e decisores, que o ECO promove no próximo dia 14 de julho, a conferência .IA, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, reunindo representantes do Governo, líderes empresariais e especialistas para discutir o futuro da inteligência artificial em Portugal.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Corrida da IA requer energia, data centers e capacidade para decisões. Portugal está preparado?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião