BRANDS' ECO Porto e Airbnb defendem uma nova forma de governar o turismo
A conferência “Portas da Cidade” mostrou como o Porto quer afirmar-se como um laboratório de novas abordagens à governação do turismo.
A história começou em 2018, quando a Câmara Municipal do Porto e a Airbnb decidiram fazer algo pouco comum numa altura em que as plataformas digitais começavam a enfrentar uma crescente contestação em várias cidades europeias: sentaram-se à mesma mesa. O primeiro passo foi um acordo voluntário para a cobrança e remessa da taxa turística. O mais recente foi dado esta terça-feira, com a apresentação de uma ferramenta que permitirá ao município supervisionar diretamente os anúncios de alojamento local publicados na plataforma. Entre um momento e outro passaram oito anos, várias mudanças legislativas e uma transformação profunda na forma como o turismo é encarado pelas cidades.
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Mas a conferência “Portas da Cidade – O Futuro do Turismo Inteligente e Sustentável”, promovida pela Câmara Municipal do Porto, Airbnb e ECO, acabou por mostrar que a verdadeira discussão já não está na relação entre plataformas e municípios. O debate é hoje muito mais amplo. Como compatibilizar crescimento económico, qualidade de vida, habitação, mobilidade e sustentabilidade? Como evitar que as decisões públicas sejam tomadas ao sabor da perceção e não da realidade? E, sobretudo, como continuar a fazer do turismo um motor de desenvolvimento sem transformar as cidades em vítimas do seu próprio sucesso?

Foi precisamente essa mudança de paradigma que Hugo Beirão Rodrigues, vereador do Turismo e da Internacionalização da Câmara Municipal do Porto, procurou enquadrar na abertura da conferência. Para o autarca, o grande desafio das cidades deixou de ser atrair visitantes.
“Esta semana foi apresentado o relatório da OCDE Tourism Trends and Policies 2026. Na apresentação desse relatório, o comissário europeu para os Transportes Sustentáveis e Turismo deixou uma ideia particularmente feliz: é tempo de passar da promoção do turismo para a gestão do turismo. Creio que esta frase resume muito bem o momento que vivemos e resume também o caminho que o Porto tem vindo a seguir”.
A ideia acabaria por atravessar praticamente todas as intervenções da tarde. Durante décadas, explicou o vereador, as cidades competiam por notoriedade internacional. O objetivo era atrair visitantes, captar investimento e afirmar-se como destinos turísticos. Hoje, porém, essa missão mudou. “Durante muitos anos, o grande desafio das cidades era promover o turismo, atrair visitantes, ganhar notoriedade internacional e afirmar-se num mercado cada vez mais competitivo. Hoje sabemos que esse deixou de ser o verdadeiro desafio”.
Turismo não é política isolada
Na perspetiva do responsável, o turismo deixou de poder ser tratado como uma política isolada. É hoje uma componente da própria governação urbana e deve ser pensado em conjunto com áreas como a habitação, a mobilidade, o espaço público, a sustentabilidade ou o desenvolvimento económico. “O turismo não se reduz aos visitantes. Abrange também a habitação, a mobilidade e o espaço público, o desenvolvimento económico, a cultura e a sustentabilidade. Abrange, sobretudo, a qualidade de vida dos nossos cidadãos e, em última análise, a boa governação da cidade”.
Hugo Beirão Rodrigues procurou também sustentar esta visão com números. Nos primeiros quatro meses de 2026, o Porto recebeu cerca de 870 mil hóspedes, registou perto de dois milhões de dormidas, mais 6% do que no período homólogo, enquanto os proveitos do alojamento turístico ultrapassaram 126 milhões de euros. As compras realizadas por visitantes estrangeiros através de cartões bancários ascenderam a mais de 218 milhões de euros, indicadores que, defendeu, demonstram que a cidade continua a crescer não apenas em visitantes, mas também em valor económico.
Ao mesmo tempo, destacou a crescente diversificação dos mercados emissores. A consolidação de países como Espanha, Estados Unidos, França e Reino Unido é agora acompanhada pelo crescimento de mercados como Coreia do Sul, China, Austrália, Irlanda ou Polónia, tornando o destino menos dependente de um número reduzido de origens.

Hugo Beirão Rodrigues, Vereador do Pelouro do Turismo e da Internacionalização da Câmara Municipal do PortoMas, para o vereador, o crescimento traz inevitavelmente novas responsabilidades. “Quem governa não pode nem ignorar esses desafios nem dramatizá-los. Tem de conhecê-los, medi-los, debatê-los e agir sobre eles de forma decisiva, mas pensada, permitindo que a atividade económica prospere, mas que esse crescimento sirva para criar valor para o Porto e não para gerar pressão sobre os portuenses”.
Daí a insistência numa ideia que repetiria várias vezes ao longo da intervenção: uma cidade que deixa de funcionar para quem nela vive acabará inevitavelmente por deixar de ser atrativa para quem a visita. “Uma cidade que não é boa para quem vive nunca será uma cidade boa para quem a visita”.
Na visão do município, responder a esse desafio implica também reforçar a cooperação entre instituições públicas e privadas, substituindo uma lógica de confronto por mecanismos de partilha de informação e construção conjunta de soluções. No evento, Hugo Beirão Rodrigues enquadrou a parceria estabelecida com a Airbnb e a apresentação da ferramenta digital que permitirá ao município acompanhar diretamente a atividade de alojamento local na plataforma. “Não estamos apenas a apresentar uma inovação tecnológica. Estamos a afirmar uma forma de governar. Uma forma de governar assente em melhores dados, em maior transparência e em maior capacidade de monitorização. Uma forma de governar assente na promoção da legalidade, na qualificação da oferta turística e numa utilização mais inteligente da informação”.
A aposta em decisões baseadas em evidência acabaria por tornar-se um dos grandes temas da conferência. O antigo secretário de Estado do Turismo utilizou a sua intervenção para lançar uma crítica às políticas públicas que, na sua opinião, continuam excessivamente condicionadas por perceções, slogans e respostas imediatas a problemas complexos. “Tenho opiniões muito fortes sobre este tema porque acho que o turismo tem sido, ao longo destes anos, um bom exemplo de como as políticas públicas podem ser profundamente influenciadas por perceções infundadas, por populismo, e não por políticas públicas bem desenhadas”.
A facilidade dos slogans políticos
Para Adolfo Mesquita Nunes, uma das maiores fragilidades do debate atual sobre turismo reside precisamente na facilidade com que conceitos complexos são transformados em slogans políticos. O antigo governante começou por atacar uma expressão que, considera, passou a dominar a discussão pública sem que alguém se preocupe verdadeiramente em definir o seu significado. “Há uma frase com que todos concordamos: não queremos turismo a mais. Tudo o que é a mais enjoa, portanto ninguém quer turismo a mais. O problema é que esta frase tem servido de pressuposto para muitas políticas públicas e não significa absolutamente nada”.
Na sua perspetiva, a ideia de “turismo a mais” parte de um pressuposto impossível de concretizar. “Só há turismo a mais se conseguirmos definir qual é o número de turistas que aceitamos e, depois, encontrar uma forma de impedir que entre mais alguém. Ora, isso é impossível. Todas as reflexões feitas à volta deste conceito não têm por objetivo encontrar soluções. Têm apenas por objetivo manter o turismo como o culpado de todos os males”.
O antigo secretário de Estado fez questão de esclarecer que nunca negou a existência de impactos negativos associados ao crescimento da atividade turística. O problema, afirmou, é quando esses impactos são analisados de forma isolada, ignorando a complexidade das cidades e das políticas públicas. “Isso não significa que o turismo não tenha externalidades negativas. Tem, como qualquer outra atividade económica. O que não faz sentido é começar uma conversa a partir da ideia de que temos turistas a mais, quando ninguém consegue explicar o que isso significa”.
Na mesma linha, criticou outra expressão que, segundo disse, se tornou recorrente nas estratégias de promoção dos destinos: a necessidade de atrair turistas com maior poder de compra. “À segunda, quinta e sexta-feira queremos turistas que gastem muito dinheiro. À terça, quarta e domingo dizemos que esses turistas fazem subir os preços dos restaurantes e das cidades e, por isso, já não os queremos. Acabamos presos numa contradição permanente”.
Para Adolfo Mesquita Nunes, o papel das políticas públicas não deve passar por selecionar visitantes nem por tentar controlar artificialmente a procura. “Não podemos estar à porta do aeroporto a pedir às pessoas que abram a carteira para perceber se podem entrar ou não. Não é assim que se faz política pública”.
Turismo integrado na gestão das cidades
Em vez disso, defendeu que o turismo deve ser integrado na estratégia global das cidades, acompanhando precisamente a ideia lançada por Hugo Beirão Rodrigues na abertura da conferência. “Devemos deixar de olhar para o turismo como uma espécie de realidade acessória e passar a integrá-lo completamente na cidade. Se uma cidade for boa para todos, será naturalmente boa para o turismo. Se for má para quem cá vive, será inevitavelmente má para quem nos visita”.
Na opinião do antigo governante, é precisamente essa integração que permitirá compatibilizar o turismo com os restantes usos da cidade. “Não faz sentido limitar números. Não faz sentido limitar procura. Mais não seja porque não conseguimos. Vivemos numa economia aberta e numa sociedade livre. O verdadeiro desafio é perceber como compatibilizamos o turismo com a habitação, com a mobilidade, com o espaço público e com todas as outras necessidades da cidade”.
O vereador procurou ainda contrariar uma visão frequentemente associada ao crescimento da atividade turística. “O crescimento do turismo é, na verdade, o êxito do combate à pobreza. Há cada vez mais pessoas a viajar porque, felizmente, há cada vez mais pessoas que conseguem satisfazer as suas necessidades básicas e têm condições para viajar. Quanto mais turismo existe no mundo, maior é, em regra, o nível de prosperidade”.
Mas se houve uma ideia que atravessou praticamente toda a intervenção foi a necessidade de construir políticas públicas sustentadas em evidência e não em perceções. “Quando começamos a decidir sobre hotéis, alojamento local ou qualquer outra matéria relacionada com o turismo, tudo isso tem de ser decidido com base em dados. As perceções são profundamente enganadoras. Tendemos a confundir a nossa rua com o mundo inteiro e aquilo que ouvimos ontem com aquilo que está a acontecer em todo o lado”.
Na sua perspetiva, essa ausência de informação rigorosa explica muitas das decisões tomadas nos últimos anos, incluindo algumas relacionadas com o alojamento local. “Regular tudo da mesma forma, como se todas as ruas de uma cidade fossem iguais, é fazer má política pública. O Porto foi precisamente uma das cidades que mais procurou adaptar a regulação às características de cada bairro, em vez de tratar realidades completamente diferentes como se fossem exatamente iguais”.
O antigo secretário de Estado utilizou depois o tema da habitação para ilustrar a forma como o turismo se tornou, frequentemente, um bode expiatório para problemas muito mais profundos.
“Ninguém acreditará, olhando para os números, que o alojamento local explica a crise da habitação. Os dados dizem exatamente o contrário. Não dizem que não contribui. Dizem que contribui muito menos do que normalmente se afirma”.

Ainda assim, reconheceu que essa explicação simplificada continua a ser politicamente apelativa. “É muito mais fácil dizer que os turistas, os hotéis ou o alojamento local são os culpados da crise da habitação do que fazer uma reflexão séria sobre as verdadeiras razões pelas quais existe falta de oferta”.
Na sua visão, o problema resulta sobretudo da insuficiente construção de habitação ao longo de décadas, de dificuldades no licenciamento, da escassez de oferta pública e de uma política de mobilidade incapaz de criar novas centralidades urbanas. “A discussão sobre habitação não pode resumir-se à construção de casas. Tem também de ser uma discussão sobre transportes, mobilidade e acessibilidade. Se o centro da cidade não chega para todos – e nunca chegará – então temos de garantir que viver fora do centro não significa perder qualidade de vida”.
A utilização dos dados para apoiar decisões foi, de resto, uma das poucas ideias em que todos os oradores convergiram. Para Adolfo Mesquita Nunes, a tecnologia pode desempenhar um papel determinante, desde que seja colocada ao serviço de políticas públicas mais inteligentes e não utilizada apenas para justificar decisões previamente tomadas. “Precisamos de muitos mais dados para tomar boas decisões públicas. E precisamos igualmente de utilizar esses dados para gerir melhor os destinos turísticos. Há muita coisa que hoje já conseguimos fazer se conhecermos verdadeiramente aquilo que está a acontecer nas cidades”.
A autenticidade dos centros históricos
O antigo secretário de Estado voltou depois a um tema recorrente no debate público: a autenticidade dos centros históricos. Também aqui, considerou que existe uma visão excessivamente romantizada sobre aquilo que eram as cidades antes da recuperação urbana impulsionada pelo turismo. “Há quem diga que o turismo está a destruir a autenticidade das cidades. Mas muitas dessas pessoas têm, no fundo, saudades da pobreza dos centros históricos. Têm saudades das casas degradadas, das pessoas sem condições, das ruas abandonadas. É preciso ter cuidado com essa ideia”.
Adolfo Mesquita Nunes reconheceu que a atividade turística pode introduzir fenómenos de uniformização comercial e descaracterização urbana, mas defendeu que esses desafios devem ser enfrentados através de políticas públicas específicas e não através da rejeição do próprio turismo. “Se há ruas onde todos os cafés acabam por ser iguais, onde desaparece determinado comércio tradicional, isso merece uma reflexão. Mas uma coisa é proteger aquilo que faz parte da identidade de uma cidade. Outra completamente diferente é achar que a autenticidade consistia em manter os centros históricos pobres e degradados”.
Ao recordar o período em que exerceu funções governativas, explicou também que uma das suas primeiras preocupações foi precisamente retirar o alojamento local da economia paralela e integrá-lo num quadro legal que permitisse aos operadores pagar impostos, cumprir regras e ser fiscalizados. “As pessoas já faziam alojamento local. Já existiam quartos, apartamentos e casas arrendadas a turistas. A diferença é que grande parte dessa atividade funcionava fora do sistema. O primeiro passo era trazê-la para a economia formal. Só depois faria sentido discutir formas de a regular com maior detalhe”.
No seu entender, essa evolução permite hoje que os municípios disponham de condições para adaptar a regulação às características específicas de cada território. “Agora faz sentido olhar para a realidade de cada cidade, de cada bairro, e regular com granularidade. O que nunca fez sentido foi tratar todas as situações exatamente da mesma maneira”.
Se Adolfo Mesquita Nunes centrou a sua intervenção na necessidade de melhorar as políticas públicas, Jaime Rodríguez de Santiago procurou demonstrar de que forma as plataformas digitais podem contribuir para esse processo. O Diretor-Geral da Airbnb Marketing Services para Espanha e Portugal começou por recordar a origem da empresa. Em 2007, dois designers de São Francisco decidiram colocar três colchões insufláveis na sala do apartamento onde viviam para conseguirem pagar a renda. Quase duas décadas depois, essa ideia deu origem a uma plataforma presente em 220 países e territórios, com mais de nove milhões de anúncios.
No entanto, para Jaime Rodríguez de Santiago, o mais importante não é a dimensão que a empresa alcançou, mas a forma como o próprio turismo tem vindo a evoluir. “Em 2018, metade das dormidas reservadas em alojamentos de curta duração na Europa concentrava-se nas grandes cidades. Em 2023, essa percentagem caiu para 45%. Pode parecer uma diferença pequena, mas representa uma mudança estrutural que continua a acelerar.”

Segundo o responsável, esta evolução demonstra que um número crescente de viajantes procura hoje bairros menos conhecidos, pequenas localidades e territórios que, até há poucos anos, permaneciam praticamente fora dos circuitos turísticos internacionais.
Os números da tendência
Portugal acompanha essa tendência. Jaime Rodríguez de Santiago destacou a forma como a Airbnb pode ser uma ferramenta para descentralizar o turismo para além dos centros urbanos tradicionais, permitindo aos viajantes descobrir comunidades rurais. “Em 2025, os hóspedes da plataforma viajaram por mais de 300 destinos em Portugal — do Minho à Madeira — e não apenas pelo conhecido triângulo formado por Lisboa, Porto e Algarve.”
Para além disso, também destacou a crescente dispersão territorial desse impacto económico, com regiões como Trás-os-Montes ou o Alentejo a beneficiarem cada vez mais da procura turística.
Foi precisamente essa lógica que, segundo explicou, orientou também a colaboração desenvolvida com o município do Porto. “O turismo inteligente não consiste em ter menos turistas. Consiste em encontrar um equilíbrio. Em convidar as pessoas a descobrir mais Porto dentro do Porto”.
Para ilustrar essa estratégia, referiu o trabalho desenvolvido em bairros menos procurados da cidade, onde a plataforma passou a incentivar os visitantes a permanecer mais tempo e a consumir em estabelecimentos locais. “Quarenta e três por cento dos hóspedes dizem que nunca teriam visitado esses bairros se não tivessem ficado alojados ali. Isso significa mais pessoas nos restaurantes locais, mais compras no comércio de proximidade e mais riqueza distribuída pela cidade”.
Foi neste enquadramento que Jaime Rodríguez de Santiago apresentou oficialmente a ferramenta digital, sublinhando que representa apenas mais um passo numa relação iniciada há oito anos. “Outras cidades estão neste momento a perguntar-se se a cooperação entre plataformas e autoridades públicas produz resultados. Aquilo que o Porto demonstra é que sim”.
A conferência contou ainda com o painel “Governação do Turismo: Equilíbrio entre Crescimento e Coesão”, moderado por Diogo Agostinho, COO do ECO, que reuniu Hugo Beirão Rodrigues, vereador do Turismo e da Internacionalização da Câmara Municipal do Porto, Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, e Nuno Trigo, vice-presidente da ALEP e coordenador da delegação Porto e Norte. O debate centrou-se nos desafios da governação do turismo, na necessidade de conciliar crescimento e qualidade de vida, no papel dos dados na definição de políticas públicas e na regulação do alojamento local.
O encerramento da conferência esteve a cargo de Pedro Machado, secretário de Estado do Turismo, Comércio e Serviços, que destacou a importância da inteligência artificial, da adaptação às alterações climáticas, da cooperação entre entidades e da utilização de dados como pilares para a competitividade futura do turismo português.
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