O “campeão do turismo” português está a estagnar?
Número de dormidas caiu, mas turistas deixaram mais receitas no Algarve no ano passado. Sazonalidade e dependência de poucos mercados emissores são desafios.
O Algarve perdeu dinamismo em 2025 e confirmou uma desaceleração que já se tinha feito sentir no ano anterior. Depois de ter registado, em 2024, um crescimento de apenas 1,5% nas dormidas, foi uma das duas únicas regiões a entrar em terreno negativo no ano passado, com uma quebra de 0,2%, o que não acontecia desde 2020, o primeiro ano da pandemia.
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A evolução do Algarve coincide com um ano de abrandamento do turismo em Portugal. Em 2025, o país recebeu 29,9 milhões de turistas não residentes, mais 3,3% do que no ano anterior, desacelerando face ao crescimento de 9,3% registado em 2024. No total, os estabelecimentos de alojamento turístico contabilizaram mais 34,8 milhões de hóspedes (+2,2%) e 89,7 milhões de dormidas (+1,6%), com as dormidas de não residentes a crescerem apenas 0,6%, de acordo com as “Estatísticas do Turismo 2025”, divulgadas esta quinta-feira pelo INE.
“Não é por o Algarve ter diminuído um bocadinho as dormidas que as receitas não crescem. É um crescimento saudável“, afirma ao ECO a vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), Cristina Siza Vieira. Em 2025, os proveitos totais dos estabelecimentos de alojamento turístico no Algarve aumentaram 6,1%, embora menos do que os 7,3% registados no ano anterior.
O presidente do Turismo do Algarve, André Gomes, desvaloriza a ligeira quebra das dormidas e defende que a região atravessa uma fase de consolidação. “Os números divulgados confirmam aquilo que observamos todos os dias: o Algarve é hoje um destino maduro e consolidado, que já não compete pelo volume, mas pela qualidade da experiência que oferece durante todo o ano. A moderação pontual nas dormidas registada em 2025 não afeta essa trajetória, pelo contrário, é o reflexo natural de um destino que optou, de forma sustentada e sustentável, por crescer em valor”, afirma.
O Algarve é hoje um destino maduro e consolidado, que já não compete pelo volume, mas pela qualidade da experiência que oferece durante todo o ano. A moderação pontual nas dormidas registada em 2025 não afeta essa trajetória, pelo contrário, é o reflexo natural de um destino que optou, de forma sustentada e sustentável, por crescer em valor.
André Gomes sublinha ainda que essa estratégia continua a produzir resultados. Como exemplo, aponta para maio deste ano, mês em que os proveitos totais do alojamento turístico no Algarve cresceram 10,5%, para 179 milhões de euros.
Apesar da desaceleração, o Algarve manteve-se como a principal região turística do país, concentrando 25,6% do total das dormidas registadas em Portugal. A região dispunha de 1.235 estabelecimentos de alojamento turístico, o que representa 14,1% do total nacional. Dados do INE mostram ainda que o Algarve, com um aumento de 532 camas em 2025, continuou a ser a região com maior oferta de alojamento, concentrando 23,3% da capacidade nacional, menos 0,3 pontos percentuais do que no ano anterior.
A desaceleração assume, por isso, particular relevância numa região onde os turistas estrangeiros representaram 75,3% das dormidas, acima da média nacional de 67,1%. O Algarve continuou a concentrar o maior número de dormidas de não residentes, com 28,7% do total nacional, embora abaixo dos 29,1% registados em 2024. Além disso, manteve-se como a região mais dependente dos principais mercados emissores: o principal mercado externo representou 34,4% das dormidas de não residentes, enquanto os três maiores mercados concentraram 56,8% da procura internacional.
Essa dependência é particularmente evidente nos mercados britânico e irlandês. Em 2025, o Algarve concentrou 57,3% de todas as dormidas realizadas por turistas do Reino Unido em Portugal e 73,1% das dormidas dos turistas irlandeses, o que evidencia a forte dependência da região dos mercados britânico e irlandês.
O elevado grau de internacionalização da região é também visível à escala municipal. Dos 25 municípios portugueses onde mais de 75% das dormidas são realizadas por turistas estrangeiros, sete localizam-se no Algarve. Entre os principais destinos nacionais, Lagos destaca-se por apresentar uma quota de 88% de dormidas de não residentes.
A região continua também a destacar-se pela elevada sazonalidade. Entre os turistas residentes, o Algarve foi a única região do país onde a taxa de sazonalidade ultrapassou os 50%, fixando-se em 55,9%, o que evidencia uma forte concentração da procura nos meses de verão.
Apesar do abrandamento da procura, a rentabilidade do setor continuou a melhorar. Os proveitos totais dos estabelecimentos de alojamento turístico cresceram 6,9% em 2025, para 7,1 mil milhões de euros, enquanto o rendimento médio por quarto disponível (RevPAR) aumentou 4,4%, fixando-se em 72,4 euros. No Algarve, o indicador fixou-se em 78,4 euros, o terceiro mais elevado do país, atrás da Grande Lisboa (106 euros) e da Madeira (97 euros).

A Grande Lisboa e o Algarve, no seu conjunto, geraram mais de metade dos proveitos dos estabelecimentos de alojamento turístico em Portugal em 2025 (54,0% dos proveitos totais e 54,8% dos proveitos de aposento).
André Gomes lembra ainda que os dados do INE não refletem toda a procura turística da região. “O alojamento local com menos de dez camas, que representa uma fatia muito significativa da oferta algarvia, com um potencial estimado superior a oito milhões de dormidas anuais, não é contabilizado nestes números, o que significa que o verdadeiro peso turístico do Algarve é, na prática, substancialmente maior do que os dados oficiais sugerem“, sustenta.
Cristina Siza Vieira considera que a estratégia do setor não passa por ter menos turistas a gastar mais dinheiro, mas sim por praticar “preços justos que acompanhem o crescimento dos custos dos fatores de produção, designadamente dos salários”. “A estratégia não se alterou. Afinaram-se os mercados onde queremos ir buscar mais turistas e o tipo de consumo que procuramos”, afirma.
A estratégia não se alterou. Afinaram-se os mercados onde queremos ir buscar mais turistas e o tipo de consumo que procuramos.
“Temos ganho quota de mercado naquilo que são alguns mercados emissores que nos interessam e que estão disponíveis para pagar mais”, acrescenta a vice-presidente executiva da AHP.
O Algarve manteve-se entre os destinos preferidos dos portugueses. Em 2025, cerca de 5,4 milhões de residentes realizaram viagens turísticas, o equivalente a 50,3% da população, mais 1,6 pontos percentuais do que no ano anterior. O lazer (39,6%) e a visita a familiares e amigos (21%) foram as principais motivações das deslocações, sendo o Norte, o Centro, o Algarve e o Oeste os destinos nacionais mais procurados.
Na generalidade dos meios de alojamento, porém, o Norte concentrou a maior quota de dormidas dos residentes (20,6%), superando o Algarve, cuja participação recuou de 19,5% para 19,2%.
Os dados do INE mostram, assim, que o Algarve continua a liderar o turismo nacional em volume de dormidas, mas perdeu dinamismo pelo segundo ano consecutivo. Num ano em que o crescimento do setor abrandou, o Norte assumiu a liderança da evolução das dormidas (+4%), seguido da Madeira (+3,9%) e do Alentejo (+3,8%), sinalizando uma redistribuição do crescimento turístico por outras regiões do país. A Península de Setúbal recuou 3,5%.
Para Cristina Siza Vieira, esta redistribuição resulta de uma estratégia deliberada do setor, a par do esforço para reduzir a sazonalidade. “Há uma intenção muito vincada de oferecer mais destinos do que aqueles que eram os destinos convencionais.”
“O Algarve é campeão de destino, a Grande Lisboa e a Madeira, continuam a ser as principais âncoras do turismo nacional, mas há uma clara afirmação de outras regiões do país como sendo destinos turísticos muito interessantes de conhecer”, afirma Cristina Siza Vieira.
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