BRANDS' ECO IA cria novos desafios no Mundo do Direito

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  • 30 Junho 2026

As áreas do direito, gestão e ensino refletiram, num debate no CCB, sobre o que sobra para os humanos quando a máquina faz cada vez mais e melhor. Parar a IA é como "parar o vento com as mãos".

No Centro Cultural de Belém, em Lisboa, três especialistas reuniram-se para responder a uma das perguntas mais prementes do nosso tempo. A conferência “Inteligência Artificial e as Profissões do Conhecimento”, organizada pela Macedo Vitorino em parceria com o ECO para assinalar o 30.º aniversário da sociedade de advogados, juntou Pedro Reis, ex-ministro da Economia, Pedro Oliveira, diretor da Nova SBE, e António Vitorino, managing partner da Macedo Vitorino.

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João Macedo Vitorino, sócio fundador, abriu a sessão lembrando que “a inteligência artificial (IA) não é a verdadeira inteligência, que só os humanos têm” e que, por muito complexa que seja, “não deixa de ser uma máquina, um instrumento que devemos pôr ao serviço das nossas finalidades”. A ressalva foi o ponto de partida para um debate moderado por Diogo Agostinho, COO do ECO, onde as posições foram, por vezes, surpreendentemente francas.

Estão os estagiários em risco?

António Vitorino foi direto ao ponto quando confrontado com o futuro dos estagiários em escritórios de advogados e considerou que o modelo piramidal tradicional está condenado. “Esse trabalho automatizável por IA vai reduzir-se, reduzir-se, reduzir-se”, disse, recordando que os estagiários aprendiam precisamente ao fazer aquelas tarefas mais repetitivas – traduções, registos, pesquisa – que as máquinas já dominam.

A consequência é, porém, que formar os advogados do futuro vai custar mais do que antes. “Vamos ter que assumir o prejuízo/investimento de ter um estagiário” e “o modelo de leverage (muitos estagiários de baixo custo a fazer trabalho de baixo valor) vai acabar”, afirmou o especialista em direito, sem eufemismos. O foco tem de estar na formação. É importante, sublinhou, cultivar conhecimento para o longo prazo, num modelo em que já não há substituto barato para o tempo e a experiência que um sénior transmite enquanto é observado a trabalhar. Para trabalho de pensamento, o estagiário tem de voltar a usar papel e lápis; para trabalho de volume, utiliza IA, verifica e volta a verificar.

O problema, acrescentou, é que a IA não perdoa como perdoa um sénior ao rever o trabalho de um júnior. “Tenho de rever tudo como se fosse um trabalho de um estagiário de primeiro ano. Com a agravante de que, na IA, os erros estão lá escondidos, numa palavra, num artigo, numa vírgula. É muito mais difícil identificá-los. Tudo tem de ser revisto linha a linha”.

Pedro Oliveira contou como a Nova SBE decidiu, há cerca de quatro anos, seguir a via oposta à da maioria das instituições europeias, que avançaram para proibições, e encorajar professores e alunos a usar a IA ao máximo. “Era como parar o vento com as mãos”, disse, justificando a decisão. Os resultados da experiência mostram que, à data, quase 100% dos alunos já usavam IA e que apenas 15% dos professores o faziam.

A aposta obrigou a reinventar métodos de avaliação, nomeadamente através da ampliação do tempo de discussão oral das teses, porque “deixa de ser tão importante analisar um documento que pode ter sido feito por um algoritmo”. Mas trouxe também erros inesperados, como o registado este ano quando cerca de 20 candidatos receberam cartas de rejeição automatizadas porque o seu bilhete de identidade estava caducado. “A máquina não perdoou”, ironizou o Dean da Nova SBE.

Mais preocupante, porém, é o que os dados americanos revelam sobre a geração que agora entra no mercado de trabalho. Num estudo com mil empregadores, 75% disseram não estar satisfeitos com os jovens recrutados, e aponta que mais de 50% não conseguem manter contacto visual numa entrevista, 23% recusam ligar a câmara e uma parte significativa não tratou sequer das suas próprias candidaturas a emprego, mas os pais. “Parece piada, mas não é”, sublinhou Pedro Oliveira.

Gestão de cenários e reforma do Estado

Pedro Reis alargou a discussão e defendeu que, para os gestores, a grande mais-valia da IA está na análise de sensibilidade, ou seja, a capacidade de correr múltiplos cenários em tempo real e testar decisões estratégicas antes de as tomar. “É transformador na capacidade de decisão”, afirmou. Mas a liderança, insistiu, continua a ser humana, até porque “há um momento em que alguém tem que tomar a decisão. Essa liderança a máquina não tem”.

Com a inteligência artificial, podemos estar perante uma nova era e não apenas mais uma revolução

Pedro Reis

Ex-Ministro da Economia e vice-presidente do Conselho Consultivo Estratégico da Cimpor

Quanto ao Estado, e em matéria de reforma, o ex-ministro da Economia foi incisivo e considerou que “o problema de Portugal não é de diagnóstico, é de execução”. Mais do que qualquer lei ou regulação, Pedro Reis identifica “a cultura de medo” que se instalou em Portugal, e mais uma área em que, acredita, a IA pode ajudar a mapear redundâncias e a simplificar processos. No entanto, sublinha, não substitui a coragem política de decidir.

No fecho do debate, Pedro Reis voltou a desafiar a audiência, lembrando que a IA é mais uma revolução numa longa série que inclui a agrícola, industrial e tecnológica, mas apontou uma caraterística que a distingue das anteriores. “Carrega algo de único, inédito, que é escapar ao controlo humano e não ser desligável”. Uma supremacia que avança, nas suas palavras, a um ritmo que até os fundadores das grandes empresas tecnológicas poderão já não controlar. “Podemos estar perante uma nova era e não apenas mais uma revolução”, concluiu.

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