Às redes energéticas não falta dinheiro, falta velocidade
Puneet Singh, da Siemens, apresentou em Lisboa o Infrastructure Transition Monitor 2025, estudo que ouviu 1.400 executivos sobre o ritmo da transição energética nas redes, nos edifícios e na indústria
A transição energética está a acontecer, mas não ao ritmo que o planeta exige, considera Puneet Singh, responsável por Tecnologia e Inovação para Eletrificação e Automação na Siemens AG, que marcou presença na abertura da conferência Transição das Infraestruturas, esta terça-feira em Lisboa.
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O especialista apresentou o Infrastructure Transition Monitor 2025, estudo bienal da Siemens que ouviu 1.400 executivos seniores em várias geografias, incluindo Portugal, complementado por entrevistas em profundidade. O relatório organiza as respostas em três pilares: as redes energéticas, os edifícios e a infraestrutura industrial.
O ponto de partida, porém, não é animador. Puneet Singh recordou que o compromisso assumido em 2015 para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius foi ultrapassado no ano passado. “É uma espécie de tempestade perfeita”, aponta, enumerando as pressões que se acumulam sobre os três setores e que incluem escassez de recursos críticos, cadeias de fornecimento fragilizadas e conflitos geopolíticos com impacto nos preços e nos investimentos.
“Não há realmente uma falta de investimento nas redes elétricas, mas há uma falta de velocidade”, reconhece. Muitas redes europeias têm entre 40 e 70 anos e precisam de expansão contínua, enquanto os equipamentos críticos, como transformadores, podem demorar cerca de quatro anos a ser entregues, a contar do momento da encomenda. A Siemens assumiu o compromisso, em conjunto com outros parceiros da indústria e a Comissão Europeia, de eliminar das redes os gases fluorados (entre os quais, o SF6), com elevado potencial de aquecimento global. Ainda assim, sublinhou, é preciso mais investimento, já que a eletrificação, motor da descarbonização, depende precisamente dessa expansão.
Os edifícios foram descritos como uma “espada de dois gumes”, porque o património arquitetónico europeu é um dos grandes atrativos turísticos do continente, mas é também antigo e pouco eficiente em termos energéticos. Tornar estes espaços mais inteligentes é, segundo o relatório, a maior prioridade identificada este ano. Singh deu como exemplo os Estados Unidos, onde os edifícios já ajudam a gerir a rede, evitando picos de consumo, e apontou o crescimento das microrredes e dos painéis solares como forma de acelerar a sua descarbonização.
Na indústria, o principal travão é mesmo ao nível da regulação. O hidrogénio verde continua a ser uma aposta promissora, acredita o especialista, mas a falta de clareza nas políticas europeias está a dificultar a sua adoção em larga escala.
Puneet Singh destacou ainda o papel da digitalização e da inteligência artificial (IA) como aceleradores da mudança. Portugal e Espanha são exemplos a seguir, com 82% dos inquiridos pelo estudo a considerar a digitalização decisiva para a eficiência energética. O crescimento dos centros de dados de IA pressiona, porém, redes que já estão sobrecarregadas, como no Texas, onde o operador está a recusar novos pedidos de ligação. “A digitalização é a peça do puzzle que falta para unir as duas pontas”, defende, acrescentando que a Siemens advoga por uma IA de confiança, ética e sempre com supervisão humana.
Tecnologia não é uma barreira
O perito partilhou três bons exemplos em que a tecnologia pode ser um parceiro importante. Em Trieste, na Itália, o operador da rede portuária usa um gémeo digital para ter visibilidade total sobre a rede de baixa e média tensão, o que permite reduzir emissões e gerir melhor os picos de procura.
Na Alemanha, uma farmacêutica passou a saber exatamente quanta energia, e de que tipo, consome em cada linha de produção, cortando nos custos e na pegada de carbono. Em Espanha, um hospital centralizou num único centro de comando a climatização, a segurança e a energia, garantindo fornecimento elétrico ininterrupto.
Para Puneet Singh, a Península Ibérica merece um elogio pelo caminho percorrido em matéria de energias renováveis, lembrando o especialista que Portugal e Espanha lideram na adoção do solar e da eólica offshore, permitindo vários dias em que as redes elétricas funcionam totalmente à base de energia verde.
“Esta região tem muita experiência para mostrar ao resto da Europa”, sublinha, apontando também o potencial do hidrogénio verde no território.
Contudo, lembra, é preciso apostar numa crescente colaboração entre governos, academia e indústria, porque, defende, o principal obstáculo à mudança já não é a tecnologia. “A tecnologia não é uma barreira. A pergunta é: o que queremos deixar para as próximas gerações, e quais serão as nossas contribuições individuais para tornar o mundo um lugar melhor e mais sustentável?”, questionou.
Assista à apresentação no vídeo abaixo.
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