Transporte marítimo vai levar meses a voltar ao normal e preço dos fretes vai continuar alto

Operadores marítimos antecipam obstáculos e avisam que mesmo que sobretaxa de combustível baixe, preço dos fretes vai permanecer elevado.

O transporte marítimo de energia e de mercadorias deverá levar vários meses a regressar à normalidade, permanecendo desafios operacionais até que seja assinado o acordo de paz final entre os EUA e o Irão. Apesar do anúncio que o Estreito de Ormuz deverá ser reaberto totalmente até ao final desta semana, as empresas de transporte marítimo e agentes de navegação alertam que a reabertura desta passagem marítima “não resolve, por si só, a desorganização criada durante o conflito” e afastam, para já, uma descida do preço dos fretes marítimos. Normalização deverá demorar meses.

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O ataque ao Irão, no final de fevereiro deste ano, resultou no encerramento praticamente total do Estreito de Ormuz, uma situação que afetou o transporte marítimo de energia e de mercadorias, que já tinha sido fortemente afetado no final de 2023 e início de 2024 pelos ataques dos houthis no Mar Vermelho, forçando as gigantes do transporte marítimo, como a CMA CGM, a Maersk, MSC ou a Hapag-Lloyd, a suspender encomendas e redesenhar rotas. Ao mesmo tempo, as taxas de transporte de contentores quadruplicaram em algumas rotas, devido aos custos do seguro contra riscos de guerra e às sobretaxas de combustível. Depois de meses de incerteza, as transportadoras receberam a notícia de acordo com cautela, avisando que os seus navios apenas vão voltar ao estreito quando estiverem asseguradas condições de segurança.

O acordo é bom, mas não nos dá confiança absoluta“, reconhece António Belmar da Costa, secretário-geral da AGEPOR – Associação dos Agentes de Navegação de Portugal. O responsável destaca que “é uma boa notícia baixar o preço do petróleo”, com impacto positivo nos custos. “Vai haver mais oferta de petróleo. Vejo isto com otimismo mas cautela”, acrescenta.

Para António Belmar da Costa, no que diz respeito ao transporte de energia, a situação “vai demorar uns três ou quatro meses para o restabelecimento total da circulação de navios com o petróleo. Dentro de quatro a cinco meses a situação tenderá a normalizar-se”, calcula. Já “o transporte de mercadorias, a partir do momento que esteja o Estreito esteja aberto, as companhias poderão começar a passar”, afirma, notando, porém, que o grosso dos contentores não passa por Ormuz. “Não prevejo que os preços dos fretes marítimos venham por aí abaixo. A sobretaxa para combustível vai baixar, mas os fretes não“, assume.

“A abertura formal de uma passagem marítima não resolve, por si só, a desorganização criada durante o conflito”, atira Mário de Sousa, acrescentando que “repor rotas entretanto alteradas leva bastante tempo”. “Durante semanas ou meses, armadores, operadores logísticos, seguradoras e carregadores adaptaram-se a uma nova realidade: rotas alternativas, desvios de navios, portos de transbordo diferentes, maior utilização do Cabo da Boa Esperança e menor previsibilidade operacional“, justifica o CEO da Portocargo.

A abertura formal de uma passagem marítima não resolve, por si só, a desorganização criada durante o conflito. Repor rotas entretanto alteradas leva bastante tempo. Durante semanas ou meses, armadores, operadores logísticos, seguradoras e carregadores adaptaram-se a uma nova realidade: rotas alternativas, desvios de navios, portos de transbordo diferentes, maior utilização do Cabo da Boa Esperança e menor previsibilidade operacional.

Mário de Sousa

CEO da Portocargo

Segundo explica, mesmo com o canal reaberto há riscos que permanecem, como “desminagem, confirmação de segurança efetiva, cobertura seguradora, reposicionamento de navios, reposicionamento de contentores vazios, congestionamento nos hubs que receberam tráfego adicional e recuperação da confiança dos armadores”. “Poderemos assistir a alguma melhoria nas próximas semanas, mas a normalização robusta de rotas, fretes, seguros e schedules deverá demorar vários meses, assumindo que não há novos incidentes militares ou restrições de segurança“, explica.

Quanto aos custos, o responsável reforça que o impacto nos fretes marítimos é muito significativo e não deverá desaparecer de imediato. “O mercado já absorveu vários fatores de agravamento em simultâneo: combustível mais caro, falta ou menor disponibilidade de fuel em determinados hubs, maior consumo por viagem, aumento do custo diário dos navios, prémios de seguro mais elevados, risco de guerra, atrasos e rotas mais longas”, custos que foram repercutidos pelos armadores através de “Emergency Fuel Surcharge e outras sobretaxas associadas ao risco e ao combustível”.

Posteriormente, com a pressão sobre a capacidade e a antecipação de procura, foram também implementadas Peak Season Surcharges, particularmente relevantes e de valor muito elevado no corredor Ásia-Europa”, acrescenta, explicando que todas estas sobretaxas acrescentem ao preço base do frete.

“O importador ou exportador não sente apenas uma subida do frete marítimo; sente a acumulação de frete, combustível, risco, PSS, custos de reposicionamento, demoras e maior incerteza operacional”, resume o CEO da Portocargo. “Mesmo que o preço do petróleo alivie parcialmente após o acordo, isso não significa uma redução imediata dos fretes. Os armadores e seguradoras tenderão a esperar por estabilidade efetiva antes de reduzirem prémios e sobretaxas. O mercado poderá estabilizar primeiro e só depois corrigir gradualmente“, antecipa.

Para Mário de Sousa, “é seguro afirmar que o impacto [desta guerra] foi brutal para a economia mundial”. “A economia mundial sofre não só pelo aumento direto dos fretes, mas também pelo custo da incerteza: stocks de segurança mais elevados, ruturas de inventário, custos de armazenagem, penalizações contratuais, necessidade de transporte aéreo em situações urgentes e atrasos na produção industrial”.

Após o regresso à normalidade há congestionamento de navios, contentores mal posicionados e congestionamento dos Portos, são normalmente condicionantes para o regresso à normalidade tanto no trânsito como nos preços. Temos notado, que, normalmente, após uma disrupção nesta cadeia os efeitos logísticos mantêm-se durante algum tempo, normalmente devido às alterações operacionais operadas na frota mundial.

António Nabo Martins

Diretor-geral da APAT - Associação dos Transitários de Portugal

Tudo isto é muito volátil e os armadores, as seguradoras e até algumas autoridades marítimas mantêm muitas cautelas relativamente a um regresso imediato, até porque é fundamental garantir a segurança da navegação e eventualmente implementar medidas operacionais que estavam suspensas e voltar a avaliar os planos alternativos”, concorda António Nabo Martins. Para o diretor-geral da APAT – Associação dos Transitários de Portugal, “só teremos uma situação normal e se tudo correr de forma normal dentro de alguns meses“, que calcula que a guerra teve um impacto nos preços dos fretes marítimos de “60% a 75%, dependendo, nomeadamente de seguros mais caros, escolha por rotas alternativas, disponibilidade dos Portos alternativos e obviamente devido à subida do preço do petróleo”.

O representante dos transitários nota ainda que “o que vai demorar mais a normalizar é o regresso aos fluxos normais da cadeia de abastecimentos e é perfeitamente expectável que os fretes desçam mais lentamente do que subiram”. “Acresce, que após o regresso à normalidade há congestionamento de navios, contentores mal posicionados e congestionamento dos Portos, são normalmente condicionantes para o regresso à normalidade tanto no trânsito como nos preços. Temos notado, que, normalmente, após uma disrupção nesta cadeia os efeitos logísticos mantêm-se durante algum tempo, normalmente devido às alterações operacionais operadas na frota mundial”, acrescenta

Helder Martins, country manager Air & Sea da Torrestir Transitários, realça que a assinatura do acordo de paz “será certamente um facto positivo para o comércio marítimo a nível global, mas a incerteza geopolítica não irá desaparecer“. “Como consequências de curto prazo, realçaria o alívio nos custos operacionais dos armadores, nomeadamente no que diz respeito aos custos de combustível e aos prémios de seguro de guerra”, destaca. Ainda assim, avisa, “estes deverão permanecer em níveis elevados por algum tempo”.

Historicamente, os armadores reagem mais rapidamente quando se trata de aumentar preços. Portanto, não é expectável que os valores dos fretes marítimos reduzam à mesma velocidade que aumentaram nos últimos meses. No curto prazo, o mercado irá estabilizar em níveis elevados de frete. Nos próximos dois a três meses, deverá normalizar lentamente, quer nos níveis de frete quer em termos de capacidade disponível.

Helder Martins

Country Manager Air & Sea da Torrestir Transitários

“Historicamente, os armadores reagem mais rapidamente quando se trata de aumentar preços. Portanto, não é expectável que os valores dos fretes marítimos reduzam à mesma velocidade que aumentaram nos últimos meses”, admite Helder Martins. “No curto prazo, o mercado irá estabilizar em níveis elevados de frete. Nos próximos dois a três meses, deverá normalizar lentamente, quer nos níveis de frete quer em termos de capacidade disponível“, antecipa o responsável da empresa de transportes.

Sem o acordo final fechado, os armadores não retomarão o trânsito pelo Estreito de Ormuz durante várias semanas, até estarem confiantes de que o acordo entre os EUA e o Irão é efetivamente sólido e duradouro, adiantou Jotaro Tamura, diretor executivo da Mitsui O.S.K. Lines, ao Financial Times.

Também a S&P Global admite “desafios operacionais contínuos” até que seja assinado o acordo final. “Mesmo após um acordo preliminar, o nosso cenário-base continua a assumir apenas uma recuperação gradual dos fluxos de transporte marítimo e de energia através do Estreito de Ormuz. Acreditamos que existe potencial para desafios operacionais contínuos e incerteza persistente até que um acordo abrangente seja finalmente concluído”, argumenta a S&P num novo relatório, onde comenta o acordo anunciado no fim de semana.

A agência de notação financeira lembra que a “história sugere que uma trégua provisória pode revelar-se frágil” e, nas próximas semanas, os mercados vão procurar sinais concretos de que os “compromissos assumidos na sexta-feira estão efetivamente a ser cumpridos e mantidos ao longo do tempo”. “Para que a confiança regresse e se consolide a perceção de uma resolução duradoura do conflito, será necessário haver progressos na fase seguinte das negociações, destinada a abordar as questões centrais que estão na origem das tensões: as ambições e capacidades nucleares do Irão, o seu apoio a grupos aliados na região e o seu programa de mísseis”, remata.

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