Álvaro Covões: “É estranho, mas 52 anos depois do 25 de Abril, as pessoas têm medo de falar”
Com apenas 12 anos, dedicou-se ao negócio do bar do Coliseu dos Recreios, propriedade da sua família. Hoje, Álvaro Covões conta com mais de 30 anos dedicados à organização de espetáculos no país.
Álvaro Covões, fundador e diretor-geral da Everything Is New, é o 79º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Começou a trabalhar aos 12 anos, no bar do Coliseu dos Recreios, que pertencia à sua família. Não o fazia por necessidade, mas sim por aquilo que considera fazer parte do seu ADN, que é contribuir para a arte e para a cultura.
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“Eu trabalhava no bar do Coliseu porque, para começar, significava estar dentro de uma sala de espetáculos. Mas eu, assim como todos os meus familiares, fui educado para seguir outra vida porque a vida das artes cénicas, há umas décadas, era mais instável. Por isso, os meus pais queriam que eu fosse médico. Só que eu não gosto de ver sangue. No 9º ano, apaixonei-me por uma cadeira, que era introdução à economia, e achei que o caminho era por ali. Mas acabei por ir para gestão de empresas. E quando disse ao meu pai que estava em gestão, ele disse-me que, pelo menos, podia ter ido para a economia“, começou por contar.
A verdade é que, ainda na faculdade, começou a evidenciar o gosto pela organização de espetáculos. Foi lá que organizou o seu “primeiro espetáculo a sério” e trouxe até ao Coliseu de Lisboa o espetáculo “Amália”. Ainda assim, quando terminou o curso, o seu primeiro contacto com o mercado de trabalho foi enquanto dealer de mercados: “Foi muito importante porque um dealer tem que saber parar, assumir que perdeu e começar de novo. É preciso saber parar e levar com naturalidade quando se perde”.
Esta mentalidade contribuiu muito para que, quando decidiu sair do mercado financeiro, Álvaro Covões decidisse apostar completamente na cultura. “Na altura, existiam espetáculos de bandas internacionais todos os dias em toda a Europa, mas nós tínhamos um concerto de uma banda internacional só de dois em dois meses, e no verão havia duas empresas que faziam três a quatro espetáculos de estádio. E isto era o mercado de música internacional. Mas eu vi aqui uma oportunidade porque pensei que se lá fora havia espetáculos todos os dias, então nós também tínhamos de entrar no circuito“, explicou.
Foi aí que começou a dedicar-se inteiramente à organização de espetáculos, entre os quais se destaca o “Música no Coração”, que decorreu em 1991: “Foi um trabalho muito bem feito. Éramos dois sócios, mas contribuímos muito para mudar Portugal porque fomos nós que iniciamos esta onda dos festivais. Em 1997, já fazíamos o Super Bock, Super Rock; o Sudoeste; e foi a primeira vez que entramos em Paredes de Coura“.
Este trajeto bem sucedido levou à criação da Everything Is New, que é hoje promotora oficial de concertos de grandes nomes da música nacional e internacional e do festival NOS Alive. “Este projeto foi pensado para tentar posicionar o NOS Alive como um dos maiores festivais do mundo. A verdade é que, estatisticamente, um português vai uma vez a cada dois anos ver um espetáculo ao vivo. Isto é um mau retrato, mas ao mesmo tempo uma grande oportunidade para criar um setor económico que dê trabalho e que dê felicidade a todos os seus profissionais”, afirmou.
Contudo, mesmo vendo uma oportunidade na dificuldade, Álvaro Covões considera que o setor não é devidamente reconhecido e apoiado em Portugal: “Eu demorei 20 anos a convencer o Turismo de Portugal sobre a importância dos festivais para trazer pessoas a Portugal. E, de facto, o Turismo de Portugal tem dado apoio aos grandes eventos para isso. Mas qual é a explicação racional para que não tenha sido construído nenhum teatro privado num grande centro urbano nos últimos 50 anos? O Estado distorce o mercado e não há incentivo nenhum”.
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Álvaro Covões, fundador e diretor-geral da Everything Is New, no 79º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
"Estatisticamente, um português vai uma vez a cada dois anos ver um espetáculo ao vivo. Isto é um mau retrato, mas ao mesmo tempo uma grande oportunidade" Hugo Amaral/ECO -
"Eu demorei 20 anos a convencer o Turismo de Portugal sobre a importância dos festivais para trazer pessoas a Portugal" Hugo Amaral/ECO -
"Se, um dia, aparecer um partido ainda mais à direita e ganhar as eleições, tem o poder de controlar a cultura. E passa a dominar a palavra e a dominar um povo" Hugo Amaral/ECO
Para o fundador da Everything Is New, não há dúvidas de que “as políticas são de cultura pública” e justifica dando os exemplos do que aconteceu com o PRR, com os vistos gold culturais e com a lei de mecenato: “O PRR foi um plano desenvolvido na União Europeia para recuperar a economia. Mas a economia é o Estado e são os privados. E nós fizemos uma campanha de 5% para a cultura porque no projeto inicial não havia nada para a cultura. O governo acedeu com os 5%, mas para a cultura pública. Ou seja, só os museus públicos é que tiveram acesso ao PRR, mais ninguém teve. Outro exemplo são os vistos gold culturais, dos quais os privados estão excluídos. E, depois, ainda podemos falar da lei de mecenato, que não funciona nem vai funcionar”.
“Os países mais desenvolvidos na área cultural e com maior proximidade a nós são o Brasil e Espanha. E eles têm leis de incentivo ao investimento no setor da cultura absolutamente brutais. Por exemplo, 100 mil euros de mecenato em Espanha ou no Brasil dão à empresa que dá o dinheiro um crédito de 100 mil euros. Aqui, com a lei recentemente aprovada, num projeto anual, há 140% de majoração. Isto significa que 100 mil euros vão dar 7200 euros de crédito fiscal. Ou seja, estamos a comparar 7200 para 100 mil. Isto é útil para quem? É útil para o lobby político“, continuou.
Ainda assim, e apesar das dificuldades, Álvaro Covões acredita que “um dia a política vai correr bem e vai ter uma nova geração de políticos que vão dar importância aos hábitos culturais”. Por essa razão, não desiste de acreditar em melhores dias para o setor e enaltece a forte relação da cultura com o pensamento crítico e, consequentemente, com a liberdade: “Se vivemos num país que tem dos mais baixos consumos culturais, não estamos a crescer muito em termos de espírito crítico e conhecimento, de liberdade interior, de poder pensar. É estranho, mas 52 anos depois do 25 de Abril, as pessoas têm medo de falar”.
“Isto dá-me muita tristeza porque há uma correlação muito direta entre o consumo cultural e a criação de riqueza. Os países que mais produzem e onde as pessoas vivem melhor são países que têm mais hábitos de cultura. Em 1984, criticavam os Três F, mas isto agora é um só F, que é só futebol. Se houver uma conferência de imprensa sobre futebol, estão lá os canais todos. Mas se houver uma conferência de imprensa cultural, não há ninguém, a não ser que seja media partner. A cultura é muito ausente dos serviços de informação das televisões e isto ajuda a destruir a criação ou a manutenção de hábitos culturais”, garantiu.
Esta preocupação com a divulgação cultural e com a falta de apoio aos privados prende-se muito com o facto de Álvaro Covões ter acompanhado os acontecimentos do antes e do pós 25 de Abril: “Quando falo da importância dos privados na cultura, utilizo sempre eventos especiais como, por exemplo, o concerto que aconteceu no 29 de março de 1974, quatro semanas antes do 25 de abril, no Coliseu dos Recreios. Este foi o primeiro encontro da música internacional, onde se cantou pela primeira vez a Grândola Vila Morena. Só aconteceu porque havia um teatro privado, que garante a liberdade e que não há discriminação“.
Não haver teatros privados, garante, “é um perigo para a liberdade”. “Isto porque se, um dia, aparecer um partido ainda mais à direita e ganhar as eleições, tem o poder de controlar a cultura. E passa a dominar a palavra e a dominar um povo. Por isso, precisamos de uma economia mais robusta e que as empresas ganhem mais dinheiro para poderem apoiar projetos culturais e, acima de tudo, precisamos que os trabalhadores tenham mais poder de compra para poderem consumir cultura. Nós temos tanto orgulho em ser do povo. Foi isto que eu aprendi na cultura: o espírito de liberdade e de que a cultura é para todos“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e da Scalpers.
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