Açores desafiados a transformar insularidade em valor

  • ECO
  • 28 Abril 2026

Da mobilidade ao turismo, da economia azul ao espaço, a conferência ECO Açores colocou a região no centro do debate sobre competitividade e coesão.

Os Açores têm de crescer menos pelo volume e mais pelo valor, defenderam os oradores da conferência ECO Açores, organizada pelo ECO no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, uma ideia que marcou tanto a sessão de abertura como de encerramento, onde responsáveis regionais e nacionais colocaram a economia açoriana perante os seus principais desafios. Entre eles, as contas públicas, mobilidade, coesão territorial, produtividade e capacidade de transformar ativos únicos em vantagem competitiva.

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Na abertura, António Costa, diretor do ECO, começou por assumir que a presença do jornal nos Açores é também uma forma de acompanhar a economia para lá de Lisboa, e lembrou que “a realidade hoje dos Açores” tem dois contextos “particularmente difíceis ou desafiadores”. “A pressão das contas públicas” e “o caso Ryanair”, não apenas pela companhia em si, mas pelo que representa “do ponto de vista do que são as opções estratégicas e de futuro dos Açores”.

A pergunta foi se devem os Açores crescer em volume ou em valor? “Crescer em volume é mais dormidas, mais passageiros, mais atividade. Crescer em valor é outra coisa”, defendeu o diretor do ECO. É “crescer com mais receita por visitante”, “aumentar salários”, “aumentar a produtividade”, “reter talento” e investir em cadeias de valor.

José Manuel Bolieiro, presidente do Governo Regional dos Açores, respondeu ao desafio referindo que quer “fazer dos Açores uma oportunidade de futuro”. Apesar da “riqueza da nossa história”, acrescentou, a região quer apostar “na inovação, na tecnologia” e numa centralidade “geopolítica, geoeconómica”, que é desafiante. “Queremos apostar no valor”, sublinhou.

O líder regional defendeu que a ambição passa por deixar de ver os Açores apenas como “uma região de necessidades” e passar a afirmá-la como “uma região de oportunidades”. Essas oportunidades, disse, multiplicam-se “na economia azul”, onde o mar é “fonte de conhecimento, de inovação e de riqueza”; na economia verde, onde a sustentabilidade “tem de ser uma vantagem competitiva”; e na economia espacial, onde os Açores se afirmam como “plataforma atlântica e central para o desenvolvimento científico e tecnológico”.

O turismo afirma-se como um dos motores da economia, mas não será uma monocultura

José Manuel Bolieiro

Presidente do Governo Regional dos Açores

O presidente do Governo Regional apresentou também indicadores para sustentar a ideia de mudança estrutural. Segundo José Manuel Bolieiro, o investimento público aumentou cerca de 50% face a 2019, há hoje mais 12.700 açorianos empregados do que nesse ano, menos 2.700 desempregados e o turismo representa cerca de 17% do PIB regional, 16% do emprego e 20% do valor acrescentado bruto. Ainda assim, avisou que o turismo “afirma-se como um dos motores da economia, mas não será uma monocultura”.

Apostar na competitividade

“Esta conferência aborda aquilo que é o tema certo”, afirmou João Rui Ferreira, secretário de Estado da Economia, apontando o desenvolvimento económico, a sustentabilidade “duradoura” e a competitividade como questões decisivas para os Açores e para o país.

Para o governante, que encerrou o evento, produtividade e competitividade significam gerar mais valor “por cada hora que trabalhamos” ou por cada recurso natural utilizado. “Temos mesmo de mudar de volume para valor. É esse que tem de ser o posicionamento de Portugal”, afirmou.

João Rui Ferreira defendeu que os Açores mostram que “o desenvolvimento económico, a sustentabilidade ambiental e coesão territorial não são objetivos contraditórios”. Pelo contrário, “são e podem ser caminhos conjuntos”. Apontou a intenção de investimento superior a mil milhões de euros no ecossistema empresarial regional, somando candidaturas ao Construir 2030, ao instrumento financeiro de inovação e competitividade e à transição digital, como sinal de um tecido empresarial que “investe, inova e acredita no futuro”.

Simplificar procedimentos é mesmo uma questão de competitividade económica, de confiança institucional e, muitas vezes, a diferença entre um investimento que se concretiza e uma oportunidade que se perde

João Rui Ferreira

Secretário de Estado da Economia

O secretário de Estado destacou ainda o setor do espaço como exemplo de transformação da ultraperiferia em vantagem competitiva, por permitir gerar “conhecimento, investimento qualificado e projeção internacional”. E voltou ao turismo, sublinhando que os Açores seguiram “um caminho de qualidade e sustentabilidade”, com um modelo “mais qualificado, equilibrado e compatível com a preservação das características ambientais da região”.

No final, deixou uma mensagem sobre burocracia e competitividade, lembrando que “simplificar procedimentos, reduzir tempos de decisão, garantir previsibilidade não é apenas uma questão administrativa”. “É mesmo uma questão de competitividade económica, de confiança institucional e, muitas vezes, a diferença entre um investimento que se concretiza e uma oportunidade que se perde”, acrescentou.

Assista ao evento aqui.

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