Emprego na Europa resiste à guerra, mas salários vão sofrer
A Oxford Economics antecipa que os preços vão subir mais rápido do que os salários na Zona Euro, e aponta para os setores automóvel e consumo discricionário como os que concentram maiores riscos.
- O conflito no Médio Oriente está a impactar os mercados de energia e a economia europeia, mas o emprego na Zona Euro deverá resistir ao choque.
- A análise da Oxford Economics revela que as empresas vão congelar contratações e reduzir vagas antes de considerar despedimentos, mantendo a taxa de desemprego em 6,2%.
- Embora o emprego se mantenha estável, a compressão dos salários reais e a erosão do poder de compra dos trabalhadores são consequências preocupantes.
O escalar do conflito no Médio Oriente está a abalar os mercados de energia globais e a lançar uma sombra sobre a economia europeia. Mas, ao contrário do que se poderia temer, o mercado de trabalho da Zona Euro deverá resistir ao choque sem assistir a uma vaga de despedimentos em massa, pelo menos enquanto a perturbação se mantiver temporária.
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É essa a conclusão central de uma análise publicada na quinta-feira pela Oxford Economics, assinada por Leo Barincou, economista sénior da instituição, que examina como as empresas europeias deverão reagir a este novo choque de oferta e o que isso significa para trabalhadores e famílias.
“Em vez de um declínio absoluto no emprego total, prevemos que as novas contratações abrandem até quase estagnarem, agravando as tendências existentes no mercado de trabalho”, afirma o economista, notando que “os dados mais recentes sugerem que o mercado de trabalho se encontrava numa situação de ‘baixa contratação e baixa demissão’ no final de 2025, com as taxas de transição tanto para o desemprego como para fora dele nos níveis mais baixos de sempre.”
As empresas, tal como fizeram durante a crise energética de 2022-2023, vão transferir os custos para os preços mais rapidamente do que os salários conseguem acompanhar. O resultado será assim uma nova compressão dos salários reais, vaticina Leo Barincou.
De acordo com Leo Barincou, o emprego na Zona Euro deverá assim revelar-se relativamente resistente face ao impacto do conflito no Golfo Pérsico. A lógica é que dada a natureza temporária do choque e a rigidez estrutural do mercado laboral europeu, as empresas dificilmente vão precipitar decisões de despedimento difíceis de reverter.
Num cenário base, o ajuste deverá ocorrer por outra via: as empresas vão primeiro congelar contratações e reduzir vagas antes de cortarem nos quadros existentes. “A procura diminuiu de forma mais acentuada do que o emprego em todos os setores”, nota a análise.
Esquemas de proteção do emprego como o Kurzarbeit alemão continuam amplamente em vigor e deverão funcionar como travão aos despedimentos, destaca o economista. O problema é que a resiliência do emprego tem um preço e quem vai pagá-lo são os trabalhadores.
No pior dos cenários, caso o bloqueio do Estreito de Ormuz se prolongue por seis meses, a Oxford Economics prevê uma contração do emprego e uma taxa de desemprego a atingir um pico próximo dos 7%.
Leo Barincou antecipa que as empresas, tal como fizeram durante a crise energética de 2022-2023, vão transferir os custos para os preços mais rapidamente do que os salários conseguem acompanhar. O resultado será assim uma nova compressão dos salários reais, a par de uma redução das horas de trabalho.
“Os rendimentos reais e as horas de trabalho serão as principais variáveis de ajustamento”, sublinha o relatório da Oxford Economics. Trata-se de um impacto silencioso: o trabalhador mantém o emprego, mas vê o seu poder de compra corroído pela inflação.
Impacto económico a diferentes velocidades
Nem todos os setores enfrentam o mesmo nível de risco. A análise de Leo Barincou identifica os segmentos mais expostos ao consumo discricionário — restaurantes, alojamento, cultura e retalho — como os mais vulneráveis, sobretudo porque tendem a ter uma proporção elevada de trabalhadores temporários, o que facilita o ajuste da mão-de-obra.
Porém, é a indústria automóvel que concentra os maiores riscos. “O setor automóvel destaca-se pelos seus desafios estruturais pré-existentes e pela exposição a preços mais elevados do petróleo”, lê-se no documento.
A procura por bens duradouros de valor elevado, como os automóveis, será duramente atingida antecipa a Oxford Economics, notando que setor tem vindo a acumular fragilidades antes do conflito, pressionado pela concorrência chinesa e com intenções de contratação em terreno cada vez mais negativo.
No pior dos cenários, caso o bloqueio do Estreito de Ormuz se prolongue por seis meses, a Oxford Economics prevê uma contração do emprego e uma taxa de desemprego a atingir um pico próximo dos 7% — sendo que, na sexta-feira, o Irão e os EUA levantaram os respetivos bloqueios à navegação comercial através do Estreito de Ormuz, mas o tráfego continua condicionado em relação aos níveis antes do início da guerra.

Porém, no cenário base da instituição, o desemprego da Zona Euro deverá manter-se nos 6,2% este ano, apenas uma fração acima do mínimo histórico de 6,3% registado no início do ano. O verdadeiro impacto far-se-á sentir não nas estatísticas do desemprego, mas no crescimento do emprego, que deverá atingir o ritmo mais lento desde 2013, com um avanço inferior a 0,1% por trimestre.
Mesmo que o choque se dissipe rapidamente, Leo Barincou não vê margem para uma recuperação expressiva do emprego, dado que a erosão das margens de lucro das empresas — em mínimos históricos excluindo a pandemia — significa que, quando a procura recuperar, as empresas vão preferir aumentar a produtividade e as horas de trabalho a contratar novos quadros.
A tecnologia, nomeadamente a inteligência artificial, será um fator adicional de contenção das contratações. E o envelhecimento demográfico pressiona estruturalmente o mercado laboral no mesmo sentido. “Mesmo antes do conflito, a recuperação da atividade não se traduziu em melhores perspetivas de emprego”, alerta a análise de Leo Barincou.
O mercado de trabalho europeu poderá assim suportar o imediato, mas o crescimento estático do emprego deverá ser a marca dos próximos anos, aponta a análise do economista sénior da Oxford Economics.
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