Queda da produtividade agrava custos do trabalho e pressiona economia no final de 2025
A produtividade caiu no final do ano, enquanto os salários continuaram a subir, levando a um aumento de 5,3% do custo unitário do trabalho, o que acentua o riscos para a competitividade da economia.
A economia portuguesa fechou 2025 com um sinal de alerta: a produtividade voltou a cair, ao mesmo tempo que os salários continuaram a subir, agravando os custos do trabalho e pressionando a competitividade. “Os custos do trabalho por unidade produzida (CTUP) aumentaram 5,3%”, num movimento explicado pelo facto de “a remuneração média [ter crescido] 4,8% e [se ter verificado] um decréscimo da produtividade de 0,4%”, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE).
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O desfasamento entre salários e produtividade é central para compreender a evolução recente da economia. Enquanto os rendimentos do trabalho continuam a crescer, a produção por trabalhador não acompanha esse ritmo — e até recua. Como sublinha o INE, o aumento dos custos unitários do trabalho resulta precisamente dessa divergência entre remunerações e produtividade, um indicador-chave da eficiência económica.

Este cenário ocorre num contexto em que a economia continua a expandir-se. No quarto trimestre, “o PIB nominal cresceu 1,5% face ao trimestre anterior e 5,9% comparativamente com o trimestre homólogo”, mas esse crescimento não se traduziu em ganhos de produtividade.
Empresas com margens pressionadas
O impacto da queda da produtividade é visível nas empresas. As sociedades não financeiras mantiveram uma necessidade de financiamento de 3,5% do PIB, apesar de uma ligeira melhoria face ao trimestre anterior.
A pressão sobre as margens resulta do facto de os custos salariais estarem a crescer mais rapidamente do que a riqueza gerada. Segundo o INE, “o VAB [Valor Acrescentado Bruto] registou um aumento de 1,7%”, mas “as remunerações pagas aumentaram 1,8%”, contribuindo para a redução da taxa de margem operacional para 19,9%.
Ainda assim, o instituto nota que “a redução da necessidade de financiamento (…) resultou do aumento do excedente bruto de exploração”, sinalizando algum ajustamento do lado das empresas.
Ganhos das famílias travados pela inflação
Do lado das famílias, o aumento dos salários não se traduziu integralmente em ganhos de poder de compra. O INE indica que “o RDB [Rendimento Disponível Bruto] ajustado per capita (…) aumentou 0,3% no 4º trimestre de 2025”, evidenciando uma desaceleração face ao trimestre anterior.
Ao mesmo tempo, “a despesa de consumo final aumentou 1,4%”, acima do crescimento do rendimento disponível (1,3%), o que levou a uma descida da taxa de poupança para 12,1%.
Este padrão sugere que parte do aumento dos rendimentos está a ser absorvida pelo consumo e pelo efeito dos preços, limitando a acumulação de poupança.
Contas públicas amortecem impacto
Apesar da deterioração da produtividade, a economia portuguesa manteve uma capacidade de financiamento de 2,5% do PIB, mais 0,4 pontos percentuais do que no trimestre anterior.
O INE destaca que “o aumento do saldo da economia refletiu essencialmente a melhoria do saldo das Administrações Públicas”, que atingiram um excedente de 0,7% do PIB no ano terminado no trimestre.
Este desempenho resulta de uma evolução favorável das contas públicas, com “um aumento da receita (…) superior ao aumento da despesa”.
Os dados agora divulgados apontam, no entanto, para um problema estrutural: a economia cresce, os salários sobem, mas a produtividade não acompanha — e até cai.
O próprio INE evidencia esse desequilíbrio ao associar diretamente o aumento dos custos do trabalho à queda da produtividade, num contexto em que a eficiência produtiva não acompanha a dinâmica salarial.
Sem uma inversão desta tendência, o aumento dos custos do trabalho poderá traduzir-se em perda de competitividade externa, pressão sobre os preços e maior fragilidade das empresas.
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