Quilómetros de linha estragados, postes no chão. Porque está a demorar a reposição da luz?
Na rede de média tensão, há mais de 600 postes partidos ou danificados ao longo de 3750 km de rede. A dificultar a reparação estão as condições metereológicas e de segurança.
Às 6 horas da manhã de quarta-feira, a eletricidade falhou a mais de 1 milhão de pessoas e empresas, “roubada” pela tempestade Kristin. Dois dias depois, muitas dessas pessoas ainda não conseguiram ter a luz de volta: pelas 16 horas da desta sexta-feira, 266 mil clientes continuavam sem luz, com a larga maioria, 209 mil, a concentrarem-se no distrito de Leiria.
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A meio da tarde de quarta-feira, quando o total de clientes sem luz estava ainda nos 408 mil, o presidente da E-Redes, José Ferrari Careto, contava ter “uma quantidade significativa de pontos de entrega energizados rapidamente”, mas reconheceu que a reposição total da energia “podia demorar mais tempo”. Em comunicado, a empresa esclareceu que a reposição total era “imprevisível”. Mas porquê esta demora?
“A devastação que foi criada pela tempestade é muito significativa. Houve muita infraestrutura que foi danificada fisicamente. Há muitos postes que estão partidos, muitas linhas caídas no chão”, descreveu o presidente da E-Redes. A complicar, indicou, estavam as condições meteorológicas, que se mantinham adversas, sendo inclusivamente difícil aceder à infraestrutura danificada.
Num levantamento feito esta tarde, a E-Redes contabiliza, na rede de alta tensão que gere, 680 km danificados e 46 postes partidos, os quais afirma serem de reparação prioritária. Segue-se a reparação de todos os problemas já identificados na rede de média tensão, que conta 600 postes partidos ou danificados, o que corresponde a cerca de 3750 km de rede, nos distritos afetados, que são Leiria, Santarém, Portalegre, Coimbra e Castelo Branco.
Estão mobilizados drones e helicópteros para o distrito de Leiria, que vão permitir uma maior e mais exata visibilidade dos danos causados nas infraestruturas elétricas. Para reforço e mitigação dos danos causados, a gestora das redes mobilizou três centrais móveis e cerca de 250 geradores.
Mas a rede é demasiado frágil? A resposta do presidente da E-Redes é que “não”, “nenhuma rede aérea é dimensionada para suportar uma queda de uma árvore de largo porte, ou de outras infraestruturas, em cima dessas mesmas linhas e postes”. Contudo, admite que o país tem uma fatia maior de rede aérea do que alguns países europeus, por oposição a redes subterrâneas.
Nas mesmas declarações, em direto para a RTP Notícias, admitiu que “nalguns casos”, pode ser “aconselhável” substituir a linha aérea por linha subterrânea, ressalvando que estas últimas implicam um maior investimento, e portanto há que “balancear”. “Olharemos para isso à luz dos ensinamentos que tiramos deste tipo de eventos”, prometeu.
A E-Redes gere apenas parte da rede, a chamada rede de baixa e média tensão (e, nalguns pontos, também alta tensão). É, no fundo, a rede de distribuição, a que chega às casas. Entre essa rede e os produtores de energia estão ainda vários equipamentos, como as chamadas subestações, e muitos quilómetros de rede, a chamada rede de transporte, de transmissão ou de alta e muito alta tensão. Esta última está a cargo da REN — Redes Energéticas Nacionais. E também teve problemas, embora esses sejam mais fáceis de solucionar.
A Kristin deixou fora de operação um total de 774 quilómetros de linhas de muita alta tensão da REN, o que corresponde a 7% de toda a rede nacional de transporte de eletricidade. Ao todo, foram derrubados 61 postes de muito alta tensão, e “muitos mais” foram danificados, indicou a REN, esta quarta-feira, em comunicado. A empresa afirma que nunca tinha perdido tantos pontos de apoio. Na situação mais grave com a qual lidou, que data de 2009, perdeu menos de metade: 25. Além disso, várias das dez linhas afetadas têm importância crítica, nomeadamente na ligação das Zonas Norte e Sul do Sistema Elétrico Nacional (SEN).
Também o presidente da REN, Rodrigo Costa, falou às televisões, já esta sexta-feira. Reconheceu que a rede em baixa é “mais vulnerável” e que “os trabalhos demoram algum tempo”, dado que são “muito, muito complexos”. Limitações técnicas só permitem, por exemplo, que dois técnicos subam à grua, em vez de uma equipa de dez, exemplificou.
Isto não significa que a eletricidade não esteja a conseguir fluir até certo ponto. Apesar de não chegar aos quase 300 mil clientes da E-Redes, a REN avisou desde logo que “o abastecimento pelas linhas de alta tensão da REN sofreu interrupção muito localizada e, no geral, o serviço de transporte foi mantido”. Parece contraditório, mas não é: apesar do largo grau de destruição, o sistema da REN tem uma salvaguarda que lhe permite manter o serviço mesmo quando uma parte relevante das infraestruturas são afetadas. Essa salvaguarda chama-se “redundância”.
“Na rede da REN há redundância, há sempre forma alternativa de encaminhar a energia. Com exceção de uma subestação, que ficou destruída [no Zêzere], e para as subestações não há redundância. De resto, há sempre uma alternativa”, explica António Vidigal, ex-CEO da EDP inovação, que iniciou a carreira na REN.
Questionado sobre porque é que na rede de baixa tensão, gerida pela E-Redes, não parece haver alternativas, Luís Pinho, CEO da energética Helexia, afirma que “a redundância é relativamente mais simples na transmissão, porque é uma rede menor. Com mais granularidade, é mais difícil ter esta redundância, apesar de ela existir. Neste caso, foi um evento catastrófico“, indica.
Dito isto, será preciso repor as infraestruturas que foram danificadas, de forma a repor a redundância e a não haver, de facto, uma quebra, caso mais equipamentos se danifiquem. “A reposição total dos postes só deverá acontecer dentro de algumas semanas, de acordo com um plano já traçado”, indicou a mesma empresa.
Sobre os meios requisitados, a REN afirma que esta situação implicou a realocação de todas as equipas disponíveis. Por seu lado, a E-Redes afirma ter equipas operacionais a trabalhar em contínuo no terreno, estando a haver um reforço de pessoas e equipamentos na zona Centro do país, vindos de outras áreas, continuando cerca de 1200 operacionais no terreno.
Primeiro, a segurança. Depois, reerguer
Luís Pinho, CEO da empresa Helexia, reforça a mensagem da E-Redes de dificuldades em solucionar os estragos, com conhecimento de causa. Esta empresa dedica-se a instalar, operar e manter painéis solares para empresas, assim como soluções de mobilidade elétrica. A Helexia tem cerca de 35 projetos solares nas localidades mais afetadas pela depressão Kristin, e diz ter mobilizado todas as pessoas, dos comerciais às equipas de engenharia, para contactarem todos os projetos — ora por telefone, ora dirigindo-se ao local, dada a falta de comunicações.
Desde quarta-feira que as equipas estão no terreno, a fazer a triagem dos danos para priorizar intervenções. Neste momento, quer recorrendo ao olho humano quer a drones, em zonas mais inacessíveis, a Helexia já cobriu cerca de 80% dos projetos, especialmente os fotovoltaicos. A empresa tem estado sobretudo a fazer um levantamento do estado dos equipamentos e a garantir as condições de segurança para que, quando exista energia, não se coloque em risco pessoas e instalações, por exemplo na sequência de cabos danificados que possam ditar um curto-circuito.
“Apesar de representar uma grande dificuldade as pessoas não terem energia, antes da eletrificação, é preciso garantir a segurança. Essa é a prioridade”, afirma Luís Pinho.
Segundo o gestor, apenas esta sexta-feira é que a primeira etapa, de levantamento de danos, estará concluída, e poderão avançar para a segunda, de remoção dos destroços, embora já o estejam a fazer nalgumas localizações. A reconstrução, vai demorar mais tempo: tem alguns equipamentos em stock, “mas não para esta dimensão”. Há encomendas em curso e os seguros estão a ser ativados, mas uma recuperação total “vai levar algum tempo. olhando ao volume de projetos, meses”. Os investimentos da Helexia na zona são de 15 milhões de euros e, sem considerar a “ajuda” dos seguros, o prejuízo deverá ser próximo desse mesmo valor, indica o gestor.
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