Putin e Trump olhos nos olhos. G20 vai dar faísca?

Hamburgo vai ser o epicentro das decisões políticas dos próximos dias. A reunião do G20 que começa esta quinta-feira é das mais antecipadas e potencialmente turbulentas dos últimos anos.

Quase 20 anos depois da primeira reunião, os líderes do G20 vão reunir-se na Alemanha sob a presidência de Angela Merkel. Desde a crise financeira de 2008 que uma cimeira entre as principais economias desenvolvidas e emergentes não tinha tanta relevância. Esta reunião marca o primeiro encontro presencial entre o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Vladimir Putin. Em discussão estarão as questões climáticas, mas também os efeitos da globalização no comércio, evasão fiscal e luta contra o financiamento do terrorismo.

Os potenciais efeitos do encontro entre Trump e Putin podem ser catastróficos. Qualquer sinal será analisado ao pormenor dado que desde novembro do ano passado que um dos assuntos dominantes nos Estados Unidos tem sido a ligação da atual Casa Branca ao Kremlin. Um encontro mais amigável entre os dois líderes poderá gerar críticas internas a Donald Trump. Contudo, assuntos como o conflito sírio ou ucraniano deixam o Presidente dos EUA numa situação complicada face aos seus aliados naturais.

A reunião junta as 20 maiores economias do mundo, mas todos os olhos estão postos no encontro entre estes dois gigantes da cena política. De um lado estará Donald Trump, um Presidente desalinhado com a maior parte das políticas levadas a cabo pelas principais potências mundiais, principalmente as europeias. Do outro lado estará Vladimir Putin, cujas interferências nas eleições em vários países continuam a ser investigadas e cujo país está subjugado a sanções internacionais. Mas pelo meio encontra-se ainda Xi Jinping, o líder chinês que tenta aproximar-se ao Ocidente, e Angela Merkel, a líder alemã que está prestes a ir a eleições e tem assumido um papel mais forte na agenda internacional.

Globalização, regulação e comércio

O protecionismo que a Casa Branca quer aplicar continuará em discussão numa altura em que a União Europeia prepara mais um grande acordo comercial, desta vez com o Japão. Donald Trump quer diminuir o défice comercial dos Estados Unidos face ao México, à China, à Alemanha e vários outros países. A própria Merkel afirmou no passado que queria um “sinal claro” do G20 “contra o protecionismo” — uma mensagem que colhe o apoio da maior parte dos líderes mundiais. É nesse sentido que também têm existido recomendações de instituições internacionais, e mesmo da União Europeia: dada a folga que têm, os alemães têm de investir mais, mesmo que dentro do país, para ajudar a retoma económica.

Ainda esta quarta-feira, o Fundo Monetário Internacional divulgou uma nota de análise prévia ao G20 onde prevê que a economia mundial cresça 3,5%, tanto em 2017 como em 2018. O FMI nota mais crescimento na Europa e na Ásia — e nos mercados emergentes –, mas assinala uma desaceleração nos Estados Unidos, fruto também da incerteza política. Contudo, o otimismo deve ser moderado. Entre as vulnerabilidades continua a estar o elevado peso da dívida chinesa, mas também a desigualdade e os problemas demográficos presentes nas economias avançadas.

“Uma política orçamental mais expansionista por parte da Alemanha não iria apenas permitir um aumento muito necessário no investimento público e aumentar o crescimento potencial — isso iria também ajudar o ajustamento externo, enquanto ao mesmo tempo teria consequências positivas para outras economias da Zona Euro”, comenta o Fundo Monetário Internacional.

Clima: Acordo de Paris

O anúncio da nova Administração de que os EUA iam sair do Acordo de Paris causou estrondo em todo o mundo. Este tinha sido um acordo alargado e inédito assinado por todas as potências (147 países no total). Antes dos Estados Unidos, apenas a Síria e Nicarágua não tinham assinado. Em reação, o recém-eleito Presidente de França, Emmanuel Macron, foi provocador: “Vamos tornar o nosso planeta grande outra vez”, disse em alusão à frase de campanha de Trump, “Make America Great Again”. Ao lado de Merkel, Xi Jinping (China, o principal poluidor do mundo) e Narendra Modi (Índia), Macron será um dos principais defensores do acordo de Paris nesta reunião do G20.

Neste ponto o mais difícil será haver um acordo final para um comunicado pós-reunião. Um encontro semelhante em março, mas com ministros das Finanças, excluiu exatamente este assunto, assim como o protecionismo económico, das conclusões finais. Ambos os assuntos são sensíveis para o Governo norte-americano. A ida de Trump à Polónia antes do encontro do G20 reforça essa mesma posição: o Governo nacionalista polaco tem sido um dos maiores opositores à posição da Comissão Europeia.

Evasão fiscal

Esta tem sido uma luta da OCDE que lançou um relatório em preparação do G20 sobre o combate à evasão fiscal. Angel Gurría assinalou esta terça-feira, no Parlamento português, que os Estados começaram a reconhecer a importância das receitas fiscais perdidas pela fuga ao fisco depois da crise. “De todas as questões, esta é a que tem feito mais progresso no G20 e no G7”, garantiu o secretário-geral da OCDE.

Temos feito mais progresso nesta questão da transparência fiscal nos últimos dez anos depois da crise do que nos 20 anos antes da crise”, afirmou o líder da OCDE, apontando que os países passaram a reconhecer uma “necessidade absoluta dos recursos, ou seja, do dinheiro”. Angel Gurría congratulou-se com o trabalho realizado no Fórum Global de Transparência Fiscal, dado que 142 países vão passar a “informar de forma automática, sem solicitude específica, o país de origem das pessoas com contas” offshore. Este mecanismo deverá ser posto em prática por 51 países já em setembro deste ano.

Este tem sido também um compromisso reforçado pela União Europeia com avanços por parte da Comissão e do Parlamento. Numa comunicação conjunta pré-G20, Jean Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, e Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, disseram esperar uma “implementação eficaz” dessas medidas, também a nível internacional, tendo ido mais longo: “Os países que não estiverem prontos a cooperar devem arcar com as consequências”. Depois de escândalos como os Panama Papers, a opinião pública tem forçado os líderes mundiais a reforçar o combate à evasão fiscal. “O G20 deve monitorizar e avaliar os desenvolvimento ligados com a digitalização da economia“, alertam os líderes europeus, referindo que é preciso haver uma “abordagem consistente nos impostos”.

Luta contra o financiamento do terrorismo

Este é um problema que afeta de forma mais direta o Médio Oriente e, indiretamente, a Europa e os Estados Unidos, mas que tem ramificações em todo o mundo, nomeadamente em África por onde passa grande parte do financiamento do terrorismo. Os líderes europeus querem um Plano de Ação Contraterrorista do G20, pedindo aos membros que participam nesta cimeira para avançarem com “passos fortes” para combater o uso terrorista da internet e das redes sociais. A lavagem de dinheiro está também na mira deste encontro.

Contudo, em termos militares, Trump tem colocado pressão na NATO — uma organização que classificou de “obsoleta” –, exigindo aos aliados que gastem 2% do seu PIB em defesa. No entanto, o presidente dos Estados Unidos também já reafirmou o seu compromisso com o princípio de que um ataque a um membro da NATO é um ataque aos EUA. Além da Síria, existe um problema em contrarrelógio: as ameaças nucleares vindas da Coreia do Norte têm feito subir a pressão nas autoridades chinesas para fazerem um bloqueio ao regime de Kim Jong Un.

Feitas as contas, no atual contexto mundial, a lista de assuntos em que os líderes podem acordar está a encolher. Cresce, por isso, a incerteza e aguarda-se o reenquadramento da ordem mundial neste momento complexo.

Protestos à porta

Hamburgo recebe os lideres do G20 mas também pelo menos duas dezenas de manifestações contra as práticas e políticas dos países mais industrializados.

Mais de 19.000 polícias, apoiados por uma dezena de helicópteros, navios e mergulhadores, foram destacados para Hamburgo, norte da Alemanha, para garantir a segurança das 36 delegações internacionais que vão participar na Cimeira.

Os confrontos ocorridos na noite de quinta-feira, em Hamburgo, entre polícias e manifestantes antiglobalização provocaram 36 feridos ligeiros entre os agentes e dois entre os críticos da cimeira dos dirigentes das principais 20 economias mundiais (G20). O balanço foi divulgado pela polícia, que adiantou terem sido interpeladas cinco pessoas.

Cerca das 22h30 locais (21h30 de Lisboa) decorriam confrontos em várias partes desta cidade portuária no norte da Alemanha, ao mesmo tempo que vários milhares de pessoas continuavam a desfilar, com total tranquilidade, sob vigilância apertada da polícia antimotim. “O Estado policial faz tudo o que pode para nos privar do nosso direito a manifestar”, disse à AFP um participante nas manifestações, Georg Ismail, citado pela Lusa.

Esta manhã de sexta-feira registam-se novos confrontos, com manifestantes a incendiarem carros da polícia, informaram as autoridades através do Twitter.

A polícia federal informou, pouco antes das 7h00 (8h00 em Lisboa), sobre uma “operação em curso contra pessoas violentas”, que lançaram cocktails Molotov e incendiaram “viaturas de patrulha” no bairro de Altona, perto de uma esquadra da polícia.

De acordo com a Lusa, a polícia de Hamburgo recorreu a canhões de água para dispersar manifestantes que querem bloquear os acessos à cimeira do G20, depois de distúrbios que resultaram em 111 agentes feridos e 44 detidos. Dados mais recentes, da Reuters, já apontam para 160 polícias feridos.

Artigo atualizado às 14:56 com novos confrontos entre polícia e manifestantes.

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