Quantas vezes acerta a bola de cristal de Marques Mendes?

Às vezes Marques Mendes dá o tiro ao lado, mas na maior parte dos comentários o que prevê ou anuncia concretiza-se. O segredo? “Tenho de ter a certeza absoluta", diz o comentador ao ECO.

Três em cada quatro previsões de Marques Mendes em 2016 foram corretas. 75% das vezes, e na maior parte das questões de maior relevância, Marques Mendes esteve certo naquilo que previu ou anunciou em 2016 para o futuro próximo nacional. Não é uma “bola de cristal”, mas sim ter “a certeza absoluta” antes de avançar uma notícia, contou ao ECO Luís Marques Mendes.

O slot do comentador, que está na SIC há três anos após um período também longo na TVI 24, diferencia-se de outros espaços de comentário porque o ex-líder do PSD, além de tecer a sua perspetiva acerca da atualidade, dá também notícias em primeira mão: desde a saída de Stock da Cunha do Novo Banco até à promulgação do Orçamento do Estado para 2016, houve vários momentos, no ano que passou, em que Marques Mendes se destacou ao anunciar antes dos meios de comunicação social ou das fontes oficiais que vinham aí mudanças.

Após a saída de Marcelo Rebelo de Sousa dos domingos à noite na TVI, uma mexida na grelha da SIC deixou Marques Mendes num dos mais cobiçados espaços de comentário da televisão portuguesa. No trimestre em que passou para o domingo à noite, Marques Mendes valeu à SIC um aumento na ordem dos 78 mil telespetadores.

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Mas uma previsão ao lado acaba sempre por atrair mais atenção do que as corretas, e Marques Mendes teve várias este ano — uma em quatro. Uma das mais mediáticas é também das mais recentes: quando disse, em novembro, que António Domingues tinha decidido ficar na Caixa Geral de Depósitos apesar da polémica em torno da entrega das declarações de património. Mas há explicações claras, diz Marques Mendes.

Três em cada quatro previsões concretizam-se

O ECO foi aferir a taxa de fiabilidade da bola de cristal de Marques Mendes em 2016. Contabilizando apenas as previsões do comentador que são passíveis de serem verificadas — ou seja, referem-se a eventos que, a acontecer, já teriam acontecido, e têm uma formulação clara — contam-se 21 acertadas e sete que falharam. O resultado — 75% das previsões vieram a verificar-se — pode traduzir-se numa formulação mais simples: três em quatro das previsões feitas por Marques Mendes em 2016 concretizaram-se, uma em quatro saiu ao lado.

Em janeiro, avançava que Assunção Cristas ia desafiar Nuno Melo na corrida à liderança do CDS, e que as presidenciais se iam resolver na primeira volta. Em fevereiro, que o Governo teria de recorrer a medidas adicionais — o que fez quando se comprometeu com Bruxelas que nunca iria descativar parte do montante definido para as cativações, o que resulta num corte definitivo da despesa que não estava inicialmente previsto — e que o La Caixa iria ficar com o BPI.

Já em outubro, por exemplo, o balanço para já é outro. Disse acertadamente que havia a “probabilidade séria de um grupo chinês comprar o Novo Banco”, por ter a proposta mais forte — e de facto torna-se agora claro que o China Minsheng Financial é o melhor concorrente à compra da instituição, apesar de ter entretanto falhado as garantias — mas disse também que Feliciano Barreiras Duarte seria o candidato do PSD à Câmara Municipal de Leiria. Em novembro, a concelhia do PSD de Leiria escolhia Fernando Costa por unanimidade — nome que deve ainda ser confirmado a nível distrital e nacional antes de ser oficial.

Em novembro, mais uma previsão desmentida poucos dias depois: “António Domingues já decidiu e vai entregar as declarações” para ficar na Caixa Geral de Depósitos, disse Luís Marques Mendes no dia 20. No dia 27, tornava-se conhecida a demissão do gestor e de toda a sua equipa.

Marques Mendes garante que “não foi uma falha”. “De facto tinham decidido isso e tinham-no comunicado por escrito ao Ministério das Finanças”. Depois do comentário desse domingo dia 20, porém, “as circunstâncias mudaram”, esclarece, quando no dia 24 os deputados do Bloco de Esquerda se juntaram ao PSD e ao CDS para obrigar, através da aprovação de uma alteração no Orçamento do Estado, os gestores da CGD a entregar as declarações de património ao Tribunal Constitucional. Ao longo da semana, Marques Mendes manteve-se a par da mudança de decisão, garante. “E como o Governo sabia que eu sabia, anunciou a saída dele num comunicado meia hora antes de eu iniciar o meu comentário de domingo”, no dia 27. “Aí não falhei, está a ver?”

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Então e quando noticiou, em julho, que a Apifarma tinha sido chamada ao Governo para que os pagamentos do Estado fossem adiados para janeiro, para ser desmentido pelo Ministério da Saúde? Pois bem, “quem desmentiu foi o Ministério da Saúde, mas eles foram chamados ao Ministério das Finanças”, diz Marques Mendes. “Faz parte do jogo”. Ao Expresso, a associação da área da saúde não comentou oficialmente, mas fonte próxima disse que “o adiamento dos pagamentos nunca foi assunto nas várias reuniões”.

“Só com a certeza absoluta”

“Posso ter errado numa coisa pontual”, concede Marques Mendes. Mas isso não acontece com frequência porque o comentador faz questão de verificar as informações que avança com cuidado. “Tenho de ter a certeza absoluta. Claro que as coisas podem mudar porque eventualmente alguém mudou de ideias”.

Afinal, o ex-líder do PSD começa a preparar o programa de domingo logo à segunda-feira. “Vou vendo os assuntos do dia-a-dia, vou tentando antecipar alguns temas em termos de análise e comentário, e chego a sexta ou sábado e tomo as decisões”, esclarece. “Há ainda um ponto importante, em que troco impressões com a Clara de Sousa, como fazia antes com a Maria João Ruela”. No sábado, escolhe os temas finais que vai abordar e trabalha para preparar o que vai dizer.

“Se for necessário falar com pessoas falo para tentar esclarecer esta ou aquela informação”, assume, acrescentando que não é necessariamente “para obter informação, às vezes é só para obter esclarecimentos”.

Avançar notícias no espaço de comentário “foi um pouco para ter mais um elemento diferenciador, alguma coisa que considero poder ter mais-valia para os telespetadores”, disse Marques Mendes ao ECO. “Não tem nada a ver com querer ser jornalista nem competir com os jornalistas”, acrescenta, “é apenas na perspetiva de que pode valorizar o comentário”.

Mas esse não é o único foco do comentador, aproveita Marques Mendes para sublinhar. O ex-líder do PSD, além de procurar ser o mais isento possível, sem receio de criticar também na sua área política, que é conhecida, diz preocupar-se ainda com “ser pedagógico e falar numa linguagem clara e limpa”, esclarece. Quer fazer chegar a todos os públicos os assuntos mais técnicos da área económica ou da banca, e “tentar simplificar e descodificar assuntos mais complexos”, esclarece.

2016 em previsões de Marques Mendes

O ECO percorreu os comentários de Luís Marques Mendes ao longo de 2016 para calcular a percentagem de fiabilidade já aqui apresentada. Só foram incluídas as afirmações passíveis de serem verificadas: que já tenham acontecido ou sido desmentidas, e que tivessem uma formulação que fizesse delas previsões. Importa também ter em conta que o comentador não dá este tipo de informação todas as semanas, nem mesmo todos os meses. “É de uma forma seletiva”, disse Marques Mendes ao ECO.

Janeiro

Assunção Cristas poderá avançar contra Nuno Melo para liderar o CDS. Cristas avançou oficialmente quatro dias depois.

Presidenciais resolvem-se na primeira volta. Marcelo Rebelo de Sousa venceu com 52% dos votos na primeira volta.

OE 2016 vai incluir aumento de impostos. O Orçamento do Executivo de António Costa previu aumento dos impostos sobre as bebidas alcoólicas e sobre o tabaco, assim como o aumento do ISV e o do imposto do selo sobre o crédito ao consumo.

Fevereiro

O Governo ter de recorrer a medidas orçamentais adicionais é “muito provável”. O compromisso de Centeno com Bruxelas de nunca vir a descativar parte dos montantes cativados constitui um corte definitivo de despesa que não estava previsto originalmente no Orçamento do Estado, e portanto uma medida orçamental adicional.

“Se Carlos Costa pensava em sair, acho que já não sai”. Carlos Costa permanece à frente do Banco de Portugal.

O La Caixa vai ficar com o BPI. Após um ano conturbado neste processo, está finalmente na fase final, e o La Caixa vai mesmo ficar com o BPI.

Março

Maria Luís Albuquerque vai ter dificuldade em ter lugar de dirigente no próximo Congresso por ter aceitado posto na Arrow. Maria Luís Albuquerque foi uma das escolhidas para o conselho de vice-presidentes do PSD.

Angola apoia Guterres para secretário-geral da ONU. Guterres agradeceria este apoio como decisivo aquando da sua intervenção na CPLP.

Está a ser preparado um manifesto contra a espanholização da banca. O documento assinado por várias personalidades foi apresentado pouco depois.

Marcelo Rebelo de Sousa vai promulgar o Orçamento do Estado para 2016. O Presidente da República promulgou o OE2016 no dia seguinte.

Abril

O Conselho de Ministros já tinha aprovado diploma para desblindar os estatutos de empresas do setor financeiro para permitir OPA do CaixaBank sobre o BPI. O decreto-lei foi promulgado a 18 de abril.

Mas a desblindagem de estatutos só poderá ser feita no final de 2016. A desblindagem foi aprovada a 21 de setembro.

“Está escrito nos astros que [os dois maiores acionistas do BPI] vão ter que se entender.” A luz verde chegou em setembro.

Junho

CGD vai despedir 2000 pessoas até 2019 em “reestruturação muito exigente”. A reestruturação da CGD obrigará à rescisão e pré-reforma de cerca de 2500 trabalhadores do banco público.

Administração da Caixa terá alguns ex-presidentes executivos de bancos estrangeiros e serão não executivos. A equipa de António Domingues contava com Herbert Walter, ex-Deutsche Bank, e Ángel Corcostegui, do Santander.

Stock da Cunha vai sair do Novo Banco para ir para o Lloyds Bank. A saída de Stock da Cunha foi confirmada pelo Banco de Portugal em julho.

Julho

✅ Muito dificilmente teremos nova administração da Caixa dentro do prazo indicado por Marcelo Rebelo de Sousa, de entre 10 a 12 dias a contar de 5 de julho. A administração de António Domingues foi empossada no dia 31 de agosto.

❌ O capital adicional necessário para a CGD “acima de quatro mil milhões de euros não será seguramente”. A etiqueta final ascende aos 5,9 mil milhões.

✅ Anunciou que o Banco Central Europeu ia querer menos administradores para a Caixa Geral de Depósitos. O BCE aprovou 11 dos nomes sugeridos mas rejeitou oito.

❌ A Apifarma foi chamada ao Governo para aceitar que os pagamentos do estado sejam adiados para janeiro. O Ministério da Saúde desmentiu esta informação.

✅ Assunção Cristas “pondera muito seriamente” candidatar-se à Câmara Municipal de Lisboa. A líder do CDS/PP avançou em setembro.

Setembro

❌ Vem aí mais um aumento da carga fiscal. No OE2017 a carga fiscal diminui ligeiramente.

“O presidente do IAPMEI [Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas e à Inovação] vai ser substituído.” Miguel Cruz saiu para liderar a Parpública.

Divulgou corretamente parte dos dados da execução orçamental de agosto no dia antes de serem anunciados.

Outubro

❌ Feliciano Barreiras Duarte vai ser candidato do PSD a Leiria. O candidato escolhido por unanimidade pela concelhia do PSD de Leiria é Fernando Costa. O nome ainda tem de ser aprovado a nível distrital e nacional antes de se tornar na escolha oficial, pelo que pode ainda haver alterações.

✅ “Probabilidade séria de um grupo chinês comprar o Novo Banco”. O grupo Minsheng Financial é o favorito.

Novembro

✅ Constitucional vai notificar gestores da CGD para apresentarem património. O TC notificou oficialmente os gestores da CGD três dias depois.

❌ “António Domingues já decidiu e vai entrar declarações” e ficar na CGD. António Domingues apresentou a demissão uma semana depois.

Notícia corrigida às 13.30: Foram retiradas as referências às declarações de Luís Marques Mendes na conferência Portugal em Exame, de que o ministro da Economia Caldeira Cabral estaria de saída antes da conferência seguinte, por terem sido incorretamente consideradas erradas: a próxima conferência Portugal em Exame será só em 2017. A percentagem de fiabilidade foi alterada para refletir esta mudança. Foram ainda acrescentadas mais informações acerca da decisão da candidatura do PSD à Câmara de Leiria.

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