Vieira de Leiria após Kristin: “Há mais curiosos, para ver como a praia se conseguiu reerguer”

Passavam umas 30 horas da entrada de Kristin no continente, através da Praia da Vieira, quando o ECO/Local Online chegou ao epicentro da calamidade. Seis meses após esse 28 de janeiro, regressamos.

Era um uivo como nunca ouvi. Vim para aqui às 6 da manhã e vi isto… estive dias sem cabeça. Só voltei passados dez dias.” Ricardo Costa mora a escassas centenas de metros do seu bar na Praia da Vieira, totalmente arrasado na madrugada de 28 de janeiro, mas o choque perante a destruição do seu restaurante de madeira impediu-o de se aproximar da marginal durante mais de uma semana.

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Da devastação que o ECO/Local Online verificou, a 29 de janeiro (umas 30 horas após a passagem da depressão Kristin) nos concelhos de Leiria, Marinha Grande e Pombal, bastaria o Âncora, projeto de vida de Ricardo, para sintetizar o terror provocado pelos ventos que as autoridades estimam terem superado os 200 km/h – nem os instrumentos de medição da Base Aérea de Monte Real, ali a escassos quilómetros, suportaram as rajadas.

“Era um uivo como nunca ouvi. Vim para aqui às 6 da manhã e vi isto… estive dias sem cabeça. Só voltei passados dez dias”, conta Ricardo Costa, proprietário do Âncora. Os bancos de madeira, recuperados e pintados de branco, foram das poucas coisas que "sobreviveram" à tempestade. Hugo Amaral/ECO

Tal como nos dias após a passagem de Kristin, repetem-se pela região, em jeito de comparação, as referências ao ciclone Leslie de 13 de outubro de 2018. Ricardo Costa recorda-se de estar dentro do restaurante onde em 2003 investiu 140 mil euros e sintetiza a experiência com o Leslie com um “saímos todos vivos”. Mas nada se assemelha ao que se viveu a 28 de janeiro.

A resistência secular das gentes da terra, que Paulo Vicente, presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande (a que pertence a freguesia de Vieira de Leiria) enaltece. “Na Praia da Vieira, está na génese das pessoas. Não se pode esquecer que foi dali que saíram os avieiros. Por que é que os avieiros foram para o Tejo e para o Sado? Escaroupim, Salvaterra… No inverno não tinham como subsistir.”

Paulo Vicente, presidente da Câmara Municipal da Marinha GrandeHugo Amaral/ECO

Do lado da autarquia, os apoios incluem o pagamento de nadadores salvadores e a isenção de taxas aos proprietários dos apoios de praia, num custo em torno dos 400 mil euros, diz Paulo Vicente ao ECO/Local Online. “Em termos de apoio ou compensação pelos prejuízos aos concessionários, é exclusivamente para esta época balnear“, ressalva o autarca.

Na Praia da Vieira, [a resistência] está na génese das pessoas. Não se pode esquecer que foi dali que saíram os avieiros. Por que é que os avieiros foram para o Tejo e para o Sado? Escaroupim, Salvaterra… No inverno não tinham como subsistir.

Paulo Vicente

Presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande

As obras estão a gerar espaços “mais resilientes”, diz, e aponta o exemplo do Âncora, com a substituição do tradicional formato de telhados por placas planas. “Se vier o vento, não levanta. Esse foi o apoio de praia que não teve grandes danos aquando do Leslie. Os que ficaram melhores [a 28 de janeiro] foram os que tinham sido destruídos” em 2018, aponta.

A força anímica da gente desta praia, habituada ao clima inclemente, verificamo-la nas conversas que vamos tendo e no “antes e depois” que verificamos ao longo da Praia da Vieira.

Ema Ribeiro tem uma loja de artigos com motivos ligados à arte xávega, sobretudo azulejos e tecidos por si pintados à mão. Fala connosco com os olhos fixos num lenço enquanto desenha um dos icónicos barcos de fundo chato e proa elevada, conhecidos pela sua forma de meia-lua.

“Pensei em desistir. Na altura, houve desistência total. Custou a recomeçar, mas há um mês que consegui reabrir”, diz Ema RibeiroHugo Amaral/ECO

“Pensei em desistir. Na altura, houve desistência total. Custou a recomeçar, mas há um mês que consegui reabrir”. Contudo, lamenta, “não foi possível preparar o verão”.

A 28 de janeiro, o sistema elétrico da loja ficou fortemente danificado, a areia colou-se às paredes e o salitre destruiu os materiais frágeis em que trabalha, nesta primeira linha de prédios da Praia da Vieira. Em 24 anos aqui, Ema nunca presenciou algo assim.

João Ramusga é outra cara conhecida neste lugar que Kristin usou como porta de entrada em Portugal continental.

A marisqueira Lismar abriu apenas no dia 6, após meses de reconstrução, mas ainda há que esperar pelo empreiteiro para reconstruir o interior da residencial no primeiro piso. A cobertura é agora plana, sem o telhado de duas águas e telhas. “Assim, o telhado já não voa”.

Sou aqui da terra. Nunca tinha visto algo assim. Temos muitas vezes ventos a 130, 140 km/h, mas nunca algo assim

João Ramusga

Empresário de restauração

“Sou aqui da terra. Nunca tinha visto algo assim. Temos muitas vezes ventos a 130, 140 km/h, mas nunca algo assim”, diz ao ECO/Local Online, numa conversa na esplanada da Lismar, entre clientes. “No meio da tempestade, vim para aqui. Eram 5 horas, peguei no carro e vim ver. Só por sorte é que não levei com algo em cima.” Acabou por fugir da linha da frente marítima onde voavam objetos. Quando regressou, viu a destruição que o ECO/Local Online testemunhou a 29 de janeiro.

João Ramusga, proprietário da marisqueira Lismar, recorda a madrugada da tempestade: “No meio da tempestade, vim para aqui. Eram 5 horas, peguei no carro e vim ver. Só por sorte é que não levei com algo em cima” Hugo Amaral/ECO

Os prejuízos são entre 250 a 300 mil euros. Ainda não recebi do seguro – há uma diferença [no orçamento dos] bens refrigerados. Se estivesse à espera, só para o ano é que abria”, diz, em crítica, o dono do Lismar. Quanto ao valor do lay-off referente aos seis trabalhadores permanentes, o cheque do Estado chegou apenas no início de julho. “Se não tivesse dinheiro, os meus empregados passavam fome”, diz o empresário, enquanto falamos a não mais de 20 metros da praia que há meio ano era um acumulado de lixo.

Com o areal devassado por detritos ali chegados através do Rio Lis, que desagua neste local, as autoridades repuseram areia e colocaram-no, assegura Paulo Vicente, “em condições como nunca teve”. Do lado público, falta ainda requalificar os barracões da arte xávega, obra adjudicada, mas atrasada por incapacidade dos empreiteiros, conta o autarca da Marinha Grande ao ECO/Local Online.

No espaço onde ficou em escombros o Âncora, que enfrentara de pé a tempestade Leslie – “estava cá dentro fechado, saímos daqui vivos”, recorda Ricardo Costa – está já de pé o novo Âncora, que o empresário espera conseguir pôr a funcionar já em agosto, para ainda amealhar o suficiente para o segundo arranque deste que é o seu projeto de vida.

Apesar do verão quente, há nuvens no horizonte do Âncora, designadamente a burocracia da máquina pública que, teme Ricardo, poderá impedir a rápida reabertura imediata do único estabelecimento de restauração da Praia da Viera ainda encerrado.

Seis meses depois da tempestade, o bar Âncora ergue-se de novo, com uma nova estrutura. Hugo Amaral/ECO

A indemnização do seguro não chega aos 170 mil euros, mas “isto vai ser 330 mil só para o edifício em madeira. A cozinha são mais 50 mil”. E depois há ainda custos do projeto, do mobiliário e quase 10 mil euros da mercadoria necessária para poder arrancar, contabiliza Ricardo, que agradece aos “clientes de sempre” que têm vindo a manifestar o seu apoio e aos fornecedores que estão a aliviar a fatura inicial – a exceção que confirma a regra é, diz, a EDP, que, assegura, lhe enviou uma fatura na ordem dos 800 euros referente a este período em que tem estado fechado, apesar de o restaurante ter ficado absolutamente destruído a 28 de janeiro.

Somados a Kristin, os dias de chuva inclemente após a tempestade, e com areia a invadir o espaço, salvou-se apenas uma máquina de lavar e, de certo modo, as bebidas que saíram do estabelecimento à medida que iam sendo furtadas dos escombros por criminosos.

Passados seis meses, as marcas da tempestade Kristin ainda são visíveis nos edifícios da frente ribeirinha da Praia da Vieira.Hugo Amaral/ECO

Nos desafios para o futuro próximo está ainda a contratação de um seguro. Apesar da importância do turismo para a economia, está a ser difícil encontrar uma companhia que aceite segurar o risco da estrutura. Por isso, Ricardo Costa pede ao Estado que assegure que os empresários na linha costeira, de Caminha a Vila Real de Santo António, tenham possibilidade de aceder a um seguro – algo que é feito com a agricultura, por exemplo.

Entretanto, no litígio que travou com a EDP, o proprietário do Âncora recebeu a indicação de que tem direito a uma nota de crédito em que vai descontando as faturas mensais futuras.

Da parte do Estado, Ricardo Costa perspetiva poder concorrer a 50 mil euros dos fundos europeus Mar 2030. Já o lay-off para os funcionários terminou em junho. “Paguei os subsídios do meu bolso em julho. Eu, que sou gerente, não tive direito a nada.”

A marisqueira Lismar voltou a abrir portas no dia 6 de julho. Hugo Amaral/ECO

Já só falta o Âncora para que a vida na Praia da Vieira volte ao normal, nota João Ramusga, cinquenta anos de vida neste local. Mesmo no parque aquático, devastado em janeiro, já há vida de novo. Outro dos bares muito danificados, o Sun7, reabriu, numa reconstrução engenhosa, em que ao centro do bar encontramos um contentor estilizado que serve de bar e preparação de pequenas refeições.

“É uma terra de gente resiliente, pescadores”, enaltece João Ramusga, vieirense. Ainda assim, admite: “Achava que metade dos comerciantes não estariam abertos.”

Estamos em plena época alta, o areal da extensa praia cheio, muitos turistas a passear. O presidente da Câmara da Marinha Grande diz que “daquilo que temos observado, têm afluído mais turistas às duas praias”, falando deste que foi o local mais devastado a 28 de janeiro e também de São Pedro de Moel. “Não sei se por curiosidade, mas também como solidariedade por aquilo que se passou com as pessoas”.

A opinião de Ema Ribeiro não destoa: “Noto que há mais curiosos, para ver como a praia se conseguiu reerguer.”

Turistas passeiam na marginal da Praia da Vieira.Hugo Amaral/ECO

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