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Livros: Quanto custa e como se publica em Portugal

Tem um ou mais livros na gaveta, que gostava de ver publicados? O ECO desmistifica o panorama editorial português com os exemplos de cinco das maiores editoras.

Quantas pessoas já terão imaginado terem um livro escrito por elas próprias na prateleira? De partilharem as suas personagens e os enredos que criaram com as suas famílias e amigos, e até com desconhecidos? E quantas já deixaram esse sonho na gaveta por não fazerem ideia do que implica publicar um livro? O ECO falou com especialistas e revela um pouco do que está para lá da cortina do mundo editorial português.

Começa-se por uma boa história

O que é uma boa história? “São as que tocam os leitores, que os comovem e que têm personagens com os quais eles criam ligações empáticas muito fortes”, afirma Safaa Dib, diretora editorial da Saída de Emergência. Mas isso, per si, não chega: também é preciso um bom escritor.

E como se torna alguém um bom escritor? Lendo muito. “Se não tens tempo para ler, também não tens tempo nem ferramentas para escrever”, já dizia Stephen King, o rei do terror e sobrenatural e um dos autores norte-americanos mais bem-sucedidos que, em 2016, voltou a ocupar a lista dos autores que mais lucraram com as suas obras.

Muitos autores podem ter uma visão mas não saberem concretizá-la. Um escritor profissional vai ter a capacidade de tirar essa visão de si mesmo e estruturá-la, arranjá-la e torná-la apelativa e interessante.

Safaa Dib

Saída de Emergência

Safaa Dib concorda com o conselho do “rei”. “É necessário ter uma enorme bagagem literária e desenvolver as ferramentas de escrita através da leitura, mas também da prática”. Na sua opinião, o “jeito para a escrita” não é algo “que nasça por génio e mera intuição”: “Os escritores podem ser intuitivos, e isso pode ajudá-los, mas não basta”. É, por isso, necessária “alguma objetividade, distância e opinião crítica em relação ao texto que estão a produzir”.

Safaa Dib, diretora editorial da Saída de Emergência. FOTO: Pedro Piedade Marques

Também Rui Couceiro, editor da chancela Contraponto, da Bertrand, acredita que “para se fazer a diferença é preciso talento e trabalho. É preciso ter tanto do primeiro como investir no segundo”. E alerta para os testemunhos de grandes escritores que a partir da própria experiência, fazem a apologia do trabalho. “Os conselhos que dão podem resumir-se assim: trabalho, trabalho, trabalho, escrever, escrever, escrever”.

Mas, por vezes, tem-se um bom texto e um bom autor, mas isso ainda não chega para o sucesso. “A história está repleta de surpresas, de casos de livros que julgávamos que iam ter imenso sucesso e que, por alguma razão, não tiveram. E de outros que foram fenómenos surpreendentes de tão positivos”, alertou Paulo Rebelo Gonçalves, do gabinete de comunicação da Porto Editora. “Não há uma ciência exata na publicação de livros. Temos de fazer o nosso melhor possível e depois esperar que corra tudo bem junto do público”.

Encontrar a editora certa

Quando um escritor acredita que tem uma boa obra, chega a hora de procurar a editora certa à qual recorrer para a ver publicada. E como nem todas têm o perfil adequado para as várias histórias, Safaa Dib alerta que é importante “perceber-se quem é que realmente está à frente das editoras, quem é que trata dos manuscritos, para se fazer uma abordagem cuidada e com algum conhecimento e não parecer que está só a atirar ‘barro à parede’ para todos os lados”.

Nós não publicamos por publicar. Publicar um livro é de uma grande responsabilidade e envolve um grande grau de compromisso da parte de todos.

Paulo Rebelo Gonçalves

Porto Editora

Para Paulo Rebelo Gonçalves, a qualidade é o maior critério de seleção de um autor e obra. “Nós não publicamos por publicar. Publicar um livro é de uma grande responsabilidade e envolve um grande grau de compromisso da parte de todos: da parte editorial, da comercial, do marketing, da comunicação, às vezes consultores externos além dos editores internos, muitos profissionais que se comprometem em que o investimento que foi dado pelo autor na criação intelectual daquele projeto tenha correspondência”. E um compromisso moral mais que físico, em tratar com “a máxima dignidade” aquilo que muitos escritores consideram como “um filho”: “É um filho que eles cuidaram e nutriram durante um determinado período de tempo, que foram limando e que, a dada altura, entregam nas mãos de outra pessoa. E aí há a expectativa de que essa pessoa cuide bem desse filho”, explica Paulo Rebelo Gonçalves. Mas alerta que são muito raros os casos em que o original não tem de ser editado e limado ainda mais pelos editores antes de chegar às bancas.

Paulo Rebelo Gonçalves, do gabinete de comunicação e imagem da Porto Editora. FOTO: Porto Editora

A importância do papel dos editores também é ressalvada pela LeYa, que conta com alguns dos profissionais mais conhecidos deste ramo. “Para apostarmos num livro, ele precisa primeiro de ter talento e de despertar a atenção dos nossos editores, onde se contam a Maria do Rosário Pedreira, o Zeferino Coelho ou a Piedade Ferreira”, defende Pedro Sobral, diretor editorial e de marketing do Grupo LeYa. “No momento em que eles dizem: ‘tenho aqui um original que é muito relevante, que me tocou por o aspeto A, B ou C’, temos uma confiança absoluta no que eles nos trazem e nos trabalhos que fazem com os originais. E, no momento em que estes editores decidem apostar num original, o resto da estrutura acompanha, porque vale mesmo a pena”.

Por isso, é necessário conhecer bem as características e orientação de cada editora antes de enviar o original. Este pode ser enviado por email ou manuscrito. No caso da LeYa, os editores também têm liberdade de descobrirem os novos talentos e de dizerem depois ao resto da equipa que querem apostar neles.

Edição e publicação

A complexidade deste processo depende sempre de caso para caso. Pedro Sobral explica: “Há autores que estão tão entusiasmados com aquilo que escreveram que nos mandam o primeiro original, muitas vezes em bruto. Há outros que, pelo detalhe que têm, já fizeram revisão sobre revisão, já reescreveram várias vezes e quando o original chega aqui já está tudo muito limpo. E se for realmente um bom texto, já está logo muito depurado. Há outros que estão no meio. Por isso é que o trabalho dos nossos editores é tão relevante, porque eles são capazes de olhar e ver em que estado é que o original está e a quantidade de trabalho que pode estar ali envolvido”.

"O mercado é pequeno, e todos os anos decresce, mas publica-se demasiado. ”

Rui Couceiro

Bertrand

Para Rui Couceiro, da Bertrand, “publica-se demasiado” no dia-a-dia. “Há chancelas que publicam 20 ou 30 livros por mês. Do ponto de vista estritamente profissional, sem entrar nas preocupações culturais, não entendo como é que se pode trabalhar bem um livro em simultâneo com outros 20 ou 30. Nós preferimos publicar pouco e com muita dedicação”, defende, acrescentando que diz sempre aos autores que chegam à Bertrand que gosta de trabalhar as suas obras “como se de peças de artesanato se tratasse”. “E porque em condições tão difíceis como as do nosso mercado a probabilidade de êxito é tão pequena, trabalhamos cada livro com se fugíssemos de uma grande onda, sempre sem olhar para trás, dando tudo por cada projeto. Não contem comigo para paginar, fazer uma capa e atirar aos montes para as livrarias”.

Rui Couceiro, editor da Contraponto, a mais recente chancela do Grupo Bertrand. FOTO: Porto Editora

Pagar para publicar

No mercado editorial, há duas fações rivais: as editoras tradicionais, onde se incluem as quatro já referidas, e as publicações de autor ou vanity publishing. A principal diferença é que, numa editora tradicional, o escritor não tem de pagar para ver o seu original publicado, e há um investimento total da parte da empresa no autor. Já num vanity publisher, como a Chiado Editores, é o autor que cobre todos os custos.

“As editoras de autor, como a Chiado, são variáveis residuais. Não estamos a falar de editoras que têm um peso muito grande no mercado. E é uma indústria que basicamente produz livros conforme pedido. Não editam, produzem livros” esclarece Pedro Sobral. “O autor chega, apresenta o original, eles fazem uma proposta, a pessoa paga, eles dão-lhes o livro impresso e fim da história”.

A Chiado nasceu pela mão de Gonçalo Martins, ele próprio escritor, que sentiu a necessidade de criar um espaço onde autores que, como ele, não vissem as suas obras escolhidas por outras editoras, pudessem vê-las publicadas. “Chegámos um bocadinho sem convite”, reconhece Filipe Costa, diretor comercial da empresa. Porém, defende: “O que sempre procurámos foi criar espaço para autores e para as suas obras que — neste mercado que ainda consideramos muito conservador — de outra forma dificilmente conseguiriam ver o seu livro publicado de forma digna, pelo menos. Mais do que ver um livro impresso, ver um livro publicado, como deve de ser, com uma edição cuidada e com um esforço muito grande, da nossa parte, na colocação e promoção do livro no mercado”.

Filipe Costa, diretor comercial da Chiado Editora. FOTO: Florival GonçalvesFlorival Gonçalves

Ainda assim, para a Chiado, o melhor promotor de um livro é o próprio autor: “A promoção de um livro passa, na sua menor parte, pelo trabalho institucional da editora com as suas ações de marketing, com a forma como tenta promover junto da comunicação social. Um livro promove-se — e estamos a falar dos autores mais conhecidos ou mais desconhecidos — através do produto e do autor. Porque se ficarem à espera de que os resultados apareçam pelo plano promocional da editora, vão ficar muito aquém das suas expectativas, naturalmente”.

Mas o responsável reconhece as dificuldades que os autores desconhecidos enfrentam na colocação dos seus livros no mercado.”Se estivermos a falar, por exemplo, de um autor da Covilhã, uma livraria de rua facilmente vai aceitar colocar alguns exemplares desse autor nas suas prateleiras, mas nesse caso coloca-se a questão da escala. Não existe muito espaço, por isso possivelmente só são fornecidos dois ou três exemplares daquele livro e, consoante o comportamento de vendas, o stock pode ser aumentado e renovado. Nas grandes cadeias de distribuição, o problema é naturalmente maior. Ali, a decisão de compra de um livro implica a compra de algumas centenas de exemplares e, portanto, há cadeias que são mais conservadoras que outras”.

Já nas editoras tradicionais, não se paga para publicar e o autor recebe, habitualmente, 10% do PVP, embora o valor possa chegar até aos 8% ou 12%. “Normalmente pode-se receber ao fim de um ano ou em adiantamento. Tudo depende da negociação feita entre o autor e a editora”, explica Safaa Dib, da Saída de Emergência. A norma de mercado, embora possa sofrer negociações, é de que o preço PVP (preço por capa, o pago por cada livro) seja definido consoante fatores tão diferentes como o número de páginas da obra, a relevância do tema, o grau de reconhecimento do autor no mercado e as “modas” do momento.

Internacionalização: é possível?

“Existe sempre essa alavanca da internacionalização na LeYa, mas não é um caminho nada fácil nem linear”, começa por alertar Pedro Sobral. Isto porque, apesar de tudo, a língua portuguesa “não tem ainda uma relevância nacional, tirando um ou outro nome de relevo, como Saramago, António Lobo Antunes ou Lídia Jorge, por exemplo”. Para os restantes, “é um caminho muito tortuoso, não é fácil de fazer, apesar de a LeYa ter tido alguma sorte. As obras que venceram o Prémio LeYa tiveram várias traduções. Mas é um caminho difícil, porque a relevância do autor na língua portuguesa em relação a outras línguas, até mesmo à espanhola, à inglesa ou à própria italiana, não é grande. Há biliões de novos autores a saírem todos dias só na Europa, por isso se metermos ainda os portugueses aí para o meio, mais complicado se torna”.

Safaa Dib concorda: “A internacionalização é muito difícil e não se vai fazer diretamente com as editoras estrangeiras, vai-se fazer através de agentes. E há alguns recetivos a publicarem autores portugueses se virem que eles têm livros com temáticas apelativas para o público europeu ou da América Latina. Mas claro que depois há autores portugueses de prestígio que transpõem barreiras e conseguem reconhecimento em festivais literários internacionais. E depois há um interesse dos agentes em publicá-los nesses países, precisamente por causa desse reconhecimento”.

E como se consegue chegar a esses festivais? “É preciso ter uma editora que tenha capacidade de lhes chegar e que tenha acesso a bons agentes. Mas nem todas têm essa capacidade”. E também há que ter em atenção o facto de, como Safaa Dib explica, “os autores portugueses ainda estarem muito voltados para a publicação ‘para dentro'” e não terem a ambição, desde o princípio, de chegarem ao exterior. E, ainda, ao facto de ser muito mais fácil para a generalidade das editoras portuguesas publicarem autores norte-americanos e britânicos — que ocupam cerca de 70 a 80% do catálogo apresentado em Portugal — do que o inverso. “Eles realmente dominam, conseguiram levar a cultura deles a todo o lado. Isto não aconteceu só através dos livros, mas da televisão e da música também”.

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