O enquadramento morreu. E quase ninguém deu por isso

  • Alexandre Montenegro
  • 28 Julho 2026

Hoje filmamos uma imagem inteira para utilizar apenas o seu centro. As margens deixaram de ser um espaço de expressão criativa para passarem a ser uma espécie de seguro contra o futuro crop.

Há uma pergunta que passou a fazer parte de praticamente todas as reuniões de pré-produção e que, curiosamente, raramente é discutida como uma decisão criativa.

“Vai haver versão vertical, certo?”

Claro que vai.

Hoje, quase todas as campanhas nascem com essa exigência. O filme será visto na televisão, no YouTube, nas redes sociais, em ecrãs gigantes, em computadores e, sobretudo, num telemóvel segurado na vertical. Não tenho absolutamente nada contra isso. Pelo contrário. O formato vertical tem uma linguagem própria, muito interessante e perfeitamente adaptada à forma como consumimos conteúdos atualmente.

O problema começa quando fingimos que uma única realização consegue servir, com a mesma qualidade, duas linguagens completamente diferentes.

Durante mais de um século, realizar significou fazer escolhas. Escolher a objetiva. Escolher a distância. Escolher a posição da câmara. Escolher aquilo que o espectador devia ver e, talvez ainda mais importante, aquilo que nunca chegaria a ver. Sempre aprendi que um enquadramento não era apenas uma composição bonita; era uma decisão narrativa. Cada centímetro da imagem tinha uma função.

Hoje, essa lógica começou a inverter-se.

Já não enquadramos para contar melhor uma história. Enquadramos para garantir que, quando alguém fizer o inevitável crop para o formato vertical, nada de importante fique de fora. Parece uma pequena diferença. Não é. É uma mudança profunda na forma como os filmes são pensados desde o primeiro dia.

Isso altera tudo.

Altera a posição dos atores. Altera os movimentos de câmara. Altera a direção de fotografia. Altera a direção de arte. Altera os grafismos. Altera os efeitos visuais. Altera até a interpretação, porque os atores deixam de poder ocupar toda a largura do enquadramento. Aos poucos, tudo começa a ser comprimido para o centro da imagem.

E é precisamente aí que, na minha opinião, estamos a perder uma parte importante do nosso craft.

Nunca tivemos sensores tão grandes, resoluções tão impressionantes e objetivas tão extraordinárias. E, paradoxalmente, nunca desperdiçámos tanto espaço dentro do próprio enquadramento. Hoje filmamos uma imagem inteira para utilizar apenas o seu centro. As margens deixaram de ser um espaço de expressão criativa para passarem a ser uma espécie de seguro contra o futuro crop.

É um desperdício silencioso. Quase invisível. Mas profundamente real.

Aquilo que antes era espaço para respirar, para criar tensão, para equilibrar uma composição ou surpreender o olhar do espectador, transforma-se numa zona morta, destinada apenas a sobreviver às diferentes versões que virão na pós-produção.

O mais curioso é que ninguém exige isto ao cinema. Nem às séries. Nem aos videoclipes. Aceitamos naturalmente que cada formato tenha a sua linguagem e que cada realização seja construída em função dessa linguagem. Só na publicidade parece ter vingado a ideia de que um único enquadramento pode servir todos os ecrãs sem pagar um preço criativo.

Mas paga.

E esse preço raramente aparece nos orçamentos.

Não se mede em euros.

Mede-se em intenção.

Mede-se em liberdade.

Mede-se na perda daquilo que distingue um realizador: a capacidade de decidir exatamente o que o público deve ver.

Durante décadas, a primeira pergunta de um realizador era simples: “O que quero mostrar?”

Hoje, demasiadas vezes, a pergunta passou a ser outra: “O que é que não pode ficar de fora quando fizerem o crop?”

Parece a mesma conversa.

Não é.

É precisamente aí que começa a perda do enquadramento enquanto linguagem.

Continuaremos, naturalmente, a filmar para múltiplos formatos. Não há como fugir à evolução dos hábitos de consumo, nem faria sentido tentar fazê-lo. Mas talvez esteja na altura de assumirmos que adaptar um filme não pode significar empobrecer a sua realização desde a origem. Talvez alguns projetos mereçam ser pensados duas vezes. Talvez o formato vertical mereça uma realização própria, em vez de viver eternamente como um recorte do horizontal.

Porque a tecnologia continuará a evoluir. Os sensores serão melhores. As câmaras mais leves. As resoluções ainda maiores.

Mas nenhuma inovação tecnológica conseguirá devolver-nos aquilo a que renunciarmos por decisão criativa.

Hoje, metade da imagem já nasce para o lixo.

  • Alexandre Montenegro
  • Realizador e produtor executivo Show Off / Mola

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