Menos preconceito, mais estratégia
Em Portugal vigora o erro crasso de tratar os visitantes meramente como vetores de pressão sobre as infraestruturas, a habitação ou o espaço público.
Na passada semana, tive o privilégio de participar no evento “Place Branding: Desafios e Oportunidades em Portugal”, uma organização conjunta da EY e da Porto Business School (PBS). Num debate participado por decisores, académicos e líderes regionais, emergiu uma urgência clara: a necessidade de resgatar a discussão sobre o turismo da narrativa populista da diabolização e elevá-la ao patamar da estratégia macroeconómica.
Em Portugal, e muito particularmente no debate público urbano, vigora o erro crasso de tratar os visitantes meramente como vetores de pressão sobre as infraestruturas, a habitação ou o espaço público. Esta perspetiva estática e puramente contabilística falha em compreender o turismo através do prisma do place e destination branding: não como um fim em si mesmo, mas como a fundação mais poderosa de atratividade que um território pode edificar à escala global.
O turismo é a montra que capta o primeiro olhar do capital, do talento e da inovação. Olhar para a dinâmica do Norte de Portugal e perceber que os Estados Unidos da América se consolidaram como o segundo maior mercado emissor de turistas para a região não é apenas um indicador conjuntural de hotelaria; é uma vitória estratégica profunda com ramificações sistémicas. O fluxo de cidadãos norte-americanos rumo ao Porto e, crescentemente, ao Douro Valley, representa uma oportunidade histórica de conversão económica. Um turista norte-americano de elevado poder aquisitivo que hoje descobre a sofisticação da nossa hotelaria e a autenticidade da nossa cultura é o potencial investidor, o fundador de startups ou o executivo que amanhã decidirá relocalizar operações para o nosso país.
Se este fluxo for estrategicamente trabalhado pelas agências de captação e pelas lideranças regionais, a notoriedade do destino transforma-se num pipeline direto de investimento, inovação e talento qualificado.
A história económica recente da região comprova este efeito de arrastamento e maturação do capital. Projetos que hoje são gigantes sistémicos começaram, muitas vezes, de forma discreta, ancorados na capacidade de atração e na qualidade de vida que o território oferece. Testemunhei de perto esse fenómeno em 2016, quando através da Investporto apoiámos a chegada inicial do banco francês Natixis ao Porto e o seu posterior crescimento na cidade.
O que começou como uma operação focada e ágil acabou por funcionar como um validador de competências do ecossistema local. Anos mais tarde, essa mesma confiança e integração no território pavimentaram o caminho para o gigante investimento do Groupe BPCE (a casa-mãe da Natixis) no Novobanco. Este caso de sucesso demonstra que a atratividade é um processo incremental: a marca territorial atrai o talento, o talento fixa a operação de serviços e a operação atrai a grande finança internacional.
Foi precisamente esta lógica de conversão que nos permitiu transformar o Porto num hub tecnológico de referência, onde o emprego ligado às Tecnologias de Informação e Comunicação (ICT) representa hoje cerca de 10% do total da força de trabalho, um valor bem acima da média nacional, que teima em patinar abaixo dos 3%.
Para dar continuidade a este ciclo virtuoso, Portugal tem de ser um país aberto, cosmopolita e com capacidade inequívoca de ler e abraçar as novas tendências da economia e do turismo global. O modelo baseado exclusivamente no turismo de massas e no volume bruto de visitantes está a esgotar-se. Assistimos hoje ao declínio global daquilo a que os analistas chamaram “turismo de vingança” (revenge travel), o surto de viagens frenéticas e concentradas que inflacionou o setor no pós-pandemia. À medida que essa vaga estagna, emerge um novo nicho de mercado altamente lucrativo e estrategicamente valioso: a economia da desconexão ou o “turismo de silêncio”. Há uma procura crescente por parte de elites globais por territórios de isolamento, bem-estar e desconexão total em zonas de baixa densidade ou geografias ultra-remotas.
Para o público português, legitimamente preocupado com a saturação dos centros urbanos, esta transição global oferece uma perspetiva fresca e uma janela de oportunidade única. O turismo de isolamento permite aliviar a pressão demográfica das cidades e redirecionar fluxos de capital de Elevado Valor Acrescentado para o interior e para regiões como o Douro Valley, promovendo uma verdadeira coesão territorial.
Contudo, como enfatizei na conferência da PBS, esta mudança de paradigma exige necessariamente uma reforma profunda na governação do território. É de uma necessidade absoluta a evolução das CCDR para verdadeiros governos regionais, dotados de legitimidade, recursos e capacidade de investimento em infraestruturas estratégicas que superem a visão atomizada e o micro-território dos municípios. O atual modelo municipalista e fragmentado é incapaz de dar resposta a dinâmicas que são, por natureza, intermunicipais e regionais.
Um exemplo claro deste erro de palmatória é a lógica isolada de medidas como a gratuitidade de transportes públicos apenas para residentes num determinado concelho, como acontece no Porto. Trata-se de uma visão, na minha opinião, errada, mas que mesmo errada não deveria ignorar a realidade funcional de uma área metropolitana ou de uma região, onde os fluxos de emprego, talento e turismo não se pautam por fronteiras administrativas. Não haverá fixação de talento tecnológico descentralizado, ordenamento de território inteligente ou turismo de alto valor sem redes de mobilidade integradas à escala regional, conectividade digital robusta e serviços públicos planeados para além do quintal municipal.
O investimento na qualificação do território através de governos regionais fortes é o único garante de sustentabilidade social e económica. Um país com futuro não fecha as portas, não se fecha em bairrismos nem diaboliza os seus motores de riqueza, descentraliza-os com escala regional, sofistica-os e usa-os para desenhar o seu próprio amanhã.
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