A coragem de não ter medo de errar

Ao assumir o ímpeto de melhorar a eficiência e quebrar monopólios de influência, Fernando Alexandre está a fazer o que a política macroeconómica e social portuguesa exige há anos: gerir com coragem.

Mudar a máquina do Estado não é para os fracos de coração. Em Portugal, a administração pública funciona historicamente como um transatlântico pesado, avesso ao risco, crescentemente nas mãos dos poderes políticos nacionais e locais e blindado por décadas de corporativismo.

Quando um governante decide mexer nas fundações do sistema, como tem tentado fazer o Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, este ecossistema reage imediatamente. O ruído instala-se, os erros de percurso são amplificados e a resistência ao progresso disfarça-se de prudência; e tudo isto com um eco tremendo na comunicação social que parece mais um motor de estagnação de uma corte decadente do que um meio de expressão de mudança e reforma do sistema económico, social e político.

Contudo, a história e a gestão moderna ensinam-nos uma verdade desconfortável. Quem tenta reformar sem errar, acaba por não reformar nada. Deste modo, a obsessão nacional pela infalibilidade processual (assente num emaranhado de leis, portarias, regulamentos que custam muito dinheiro) é o maior aliado do imobilismo. Também há que o afirmar sem medo, um dos maiores obstáculos a qualquer transformação profunda reside na total incapacidade do sistema em implementar uma verdadeira avaliação de mérito. Décadas de partidarização entregaram as chefias de áreas técnicas a boys e girls políticos, transformando a competência num critério secundário. Como consequência direta deste sufoco meritocrático e do falhanço total na gestão da escola pública, o sistema acabou por reter no seu seio os perfis menos dinâmicos, enquanto os melhores profissionais migraram em massa.

Não é certamente obra do acaso que o ensino privado se tornou um dos setores que mais cresce em Portugal. Os dados da DGEEC e da Pordata revelam uma realidade gritante: cerca de 21% do total de alunos em Portugal já frequenta o ensino particular e cooperativo. Em Lisboa e no Porto, a oferta privada já é maioritária, superando os 60% dos estabelecimentos, com concelhos como o Porto e Lisboa a registarem metade dos seus estudantes no setor privado. No ensino secundário, a fuga atinge picos onde até 36% dos alunos optam pelos colégios. O privado prospera precisamente onde o Estado falhou, oferecendo a meritocracia, a valorização e a organização que a escola pública asfixiou em burocracia e clientelismo partidário.

É urgente desmascarar a falácia de que a confiança num governante ou numa reforma fica posta em causa quando surgem erros de percurso. Trata-se de uma inversão lógica perversa. Onde reside a verdadeira confiança dos cidadãos? No sistema antigo, que era “confiavelmente” mau, previsível na sua mediocridade e que sempre funcionou mal de forma sistemática? Ou num ímpeto reformista que visa o bom, o excelente, sabendo que o caminho inovador acarreta percalços? A tolerância ao erro operacional é o preço da evolução. Confiar em quem faz e corrige é um ato de maturidade democrática; manter a fé no imobilismo cinzento é apenas masoquismo institucional.

Olhando para a geopolítica das grandes reformas, percebemos que a rutura exige tolerância à fricção. Se queremos um horizonte de sucesso, o padrão ideal está nos sistemas nórdicos, como o da Finlândia, onde a educação funciona porque assenta em dois pilares que Portugal ignora: a autonomia real das escolas para corrigirem caminhos e uma exigência brutal na seleção e avaliação contínua dos seus profissionais. Nesses países, o modelo não é estático; é um laboratório em constante aperfeiçoamento, que suporta o erro experimental para blindar a qualidade a longo prazo. Da mesma forma, nos anos 80, a introdução de lógicas de avaliação na máquina britânica gerou disfunções iniciais graves e contestação feroz. Mas sem essa disrupção, o Reino Unido nunca teria modernizado os seus serviços públicos.

O que Fernando Alexandre enfrenta não é uma falha de planeamento, é o choque inevitável entre a urgência da eficácia e o conforto da inércia. Como dizia Jack Welch, o lendário CEO da General Electric, mude antes que você seja obrigado a fazê-lo. O ministro percebeu que o pragmatismo dos resultados tem de esmagar o dogmatismo dos processos. O status quo português já não é sustentável e esperar pelo consenso absoluto seria condenar o país a mais…do mesmo.

A gestão pública tradicional pune o erro e recompensa a passividade. Se um gestor público não fizer nada, ninguém o acusa de falhar. Se tentar redesenhar processos, cada areia na engrenagem vira um escândalo político. É aqui que a visão dos líderes políticos que transformaram nações deve servir de escudo à coragem governativa. Deng Xiaoping, o arquiteto da abertura da China, lembrava que, para avançar em terreno desconhecido, era preciso “atravessar o rio sentindo as pedras”; uma metáfora perfeita para a necessidade de avançar, errar, corrigir o pé em tempo real e continuar a marcha.

Aplicar esta lógica à tutela da Educação e Ciência é entender que os ajustes de rota não são sinais de fraqueza, mas de agilidade. A capacidade de suportar o erro, corrigi-lo no terreno e manter o rumo estratégico é o que distingue os verdadeiros reformadores dos meros administradores do declínio.

Deste modo, parece-me claro que a resistência que vemos hoje na praça pública não é uma discussão técnica, é antes uma luta de poder. O status quo defende-se atacando o processo. Para sobreviver a este tiroteio, o ministro precisa da resiliência mental que Steve Jobs imortalizou: “Estou convencido de que cerca de metade do que separa os empreendedores bem-sucedidos dos não bem-sucedidos é a pura perseverança.”

Não existem reformas imaculadas, e o preço da inovação nos processos do Estado é a turbulência inicial. Ao assumir o ímpeto de melhorar a eficiência e quebrar monopólios de influência, Fernando Alexandre está a fazer o que a política macroeconómica e social portuguesa exige há anos: gerir com coragem. O erro vai acontecer. O que definirá o sucesso não será a ausência de falhas, mas sim a capacidade de não recuar perante elas. Entre o erro da ação e o crime da omissão, que a nossa liderança escolha sempre o primeiro.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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