O fenómeno MrBeast: A história de Jimmy Donaldson, o criador de conteúdos que quer fazer a próxima Disney
O que acontece quando um criador de conteúdo ultrapassa a plataforma onde fez nome? Jimmy Donaldson, mais conhecido como MrBeast, é um dos novos disruptores da indústria dos media vindos do Youtube.

MrBeast tornou-se o rosto de uma nova geração de criadores de conteúdo que já não se limita ao YouTube. À medida que realizadores como Kane Parsons (Backrooms) e Curry Barker (Obsession) levam o sucesso da plataforma para o cinema de Hollywood, o maior youtuber do mundo constrói um império que se estende ao entretenimento, aos negócios e à filantropia. Mas a sua escala tornou-o também numa figura polarizadora, que concentra tantos elogios e fascínio como críticas e um debate crescente sobre o poder dos novos gigantes digitais.
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“Passagem aérea de 1 dólar versus de 500 mil dólares”, “Último a sair do círculo ganha 500 mil dólares” e “Sete dias preso numa ilha” são alguns dos vídeos mais populares do seu canal de Youtube.
Mas como começou a jornada de Jimmy Donaldson, atualmente com 28 anos? Recuemos a 2012, quando tinha 13 anos e publicava conteúdos dedicados a jogos como Minecraft e Pokémon. O seu primeiro grande vídeo viral chegou em 2017, no qual contou consecutivamente até 100 mil — uma gravação de 40 horas reeditadas para menos de 24 e que hoje ultrapassa as 33 milhões de visualizações.
Desde aí, o seu percurso tem subido em flecha, inicialmente impulsionado por um formato de doações, onde oferecia milhares de dólares a pessoas em situação de sem-abrigo, até chegar a um modelo atual de desafios, como um dos mais recentes intitulado “Sobreviva 30 dias acorrentado a um estranho e ganhe 250 mil dólares”.
A sua estratégia passa por reinvestir grande parte das receitas na produção dos vídeos, aumentando continuamente a escala dos desafios, dos prémios e das produções. A combinação entre grandes orçamentos, análise rigorosa dos dados de audiência e um formato pensado para prender o espectador transformou o seu canal numa referência para milhares de criadores de conteúdos. Mas não é só de vídeos de Youtube que o criador tem deixado marca na indústria criativa.
Beast Industries — A construção da nova ‘Disney’
Nomeada como uma das 100 empresas mais influentes em 2026 pela revista Time, a Beast Industries — através da qual Jimmy Donaldson constrói o seu império — emprega cerca de 750 colaboradores e está avaliada em mais de cinco mil milhões de dólares (mais de 4,3 mil milhões de euros). Mas esta dimensão foi à custo dos lucros. A empresa acumulou 500 milhões de dólares (cerca de 437 milhões de euros) em perdas nos últimos cinco anos, pressionada pelos custos de produção.
A empresa espera atingir rentabilidade já este ano, no seguimento da estratégia de reestruturação liderada por Jeff Housenbold, CEO da empresa desde setembro de 2024. No perfil da Time, Jeff Housenbold aponta que a empresa cortou mais de 100 milhões de dólares em despesas operacionais nos últimos 14 meses, alcançando em simultâneo um crescimento de 50% em receita bruta num período de dois anos.
Atualmente, o negócio divide-se em três principais pilares, de acordo com o The New York Times:
- Divisão de Conteúdo e Media, que garante metade da faturação global do grupo
- Produtos de consumo, divisão focada maioritariamente na sua marca de chocolates Feastables, lançada em 2022, que gerou 250 milhões de dólares em receitas em 2024 com lucros superiores a 20 milhões
- Uma nova divisão destinada a criar uma plataforma para fazer o ‘match’ entre criadores de conteúdos e marketers da lista do Fortune 1000
Ainda se incluem a ferramenta de análise Viewstats e o negócio de licenciamento de brinquedos e vestuário, nota a Forbes.
A ambição é uma. De acordo com Jeff Housenbold, é transformar a Beast Industries numa ‘Disney do mundo moderno’, onde Jimmy Donaldson desempenha o papel de Walt Disney e de Mickey Mouse em simultâneo. “Esta é realmente a única forma de descrever”, corrobora MrBeast à Time. “O Brad Pitt não é dono dos estúdios, não financia as ideias, não escreve os guiões, não cria as ideias e não melhora tudo em todos os filmes e séries em que participa. Este é o mundo em que vivo.”

Rota de ‘fuga’ ao YouTube
Atualmente, MrBeast lidera o ranking Forbes Top Creators 2026, registando 873 milhões de seguidores agregados nas redes sociais, uma taxa de interação média de 3% e receitas anuais que superam os 300 milhões de dólares. Só no YouTube, os seus canais somam mais de 640 milhões de subscritores e mais de cinco mil milhões de visualizações por ano.
Para mitigar a dependência do algoritmo do Youtube e caminhar para sua ambição, a Beast Industries tem vindo a recrutar quadros vindos da Snap (dona do Snapchat), TikTok e NBCUniversal, tendo também aberto um processo de recrutamento para o seu primeiro chief marketing officer (CMO). Está ainda a ser explorada a criação de um programa de membros, revela o Business Insider. Entre os projetos de expansão, destacam-se:
Streaming
Em 2024, assinou um acordo de 100 milhões de dólares com a Amazon para criar o reality show de competição “Beast Games” para o Prime Video. Reunindo mil concorrentes num formato frequentemente comparado a série da Netflix Squid Game, em que enfrentam desafios físicos, mentais e sociais para uma chance de ganhar cinco milhões de dólares em dinheiro.
Os custos da primeira temporada (10 episódios) ultrapassaram os 100 milhões de dólares e geraram prejuízo imediato. A Amazon revelou que a produção atingiu 50 milhões de visualizações nos primeiros 25 dias pós-lançamento. A terceira temporada já se encontra em produção.
Mercado Editorial
Jimmy Donaldson juntou-se ao autor de bestsellers James Patterson para o lançamento global do livro The Most Dangerous Games. Agendada para 1 de setembro, a obra acompanha 100 concorrentes numa competição distópica de testes mortais por um prémio de mil milhões de dólares, com lançamento assegurado em 15 idiomas, incluindo o português de Portugal.
Telecomunicações
MrBeast está a estudar lançar, em parceria com uma das três maiores operadoras dos EUA — Verizon, T-Mobile ou AT&T — o serviço móvel Beast Mobile, replicando o modelo de celebridades como Ryan Reynolds.
Entretenimento Físico
A empresa testou na Arábia Saudita o conceito do parque temático Beast Land. Confrontado com críticas, Jimmy Donaldson defendeu a decisão à Time: “Tenho a certeza de que se poderia pegar em qualquer país do mundo e encontrar algo negativo. Basta olhar para os Estados Unidos agora. (…) Não tenho permissão para fazer negócios aqui?”
Publicidade
A sua fama chegou até aos intervalos da Super Bowl, estando o MrBeast a colocar a sua imagem ao serviço de marcas. Jimmy Donaldson desenvolveu e protagonizou uma campanha interativa para a tecnológica Salesforce que levou mais de 53 milhões de utilizadores ao site da empresa e gerou um volume de pesquisas (search engagement) 37,3 vezes superior à média de um anúncio do evento, segundo a informação compilada pelo The Hollywood Reporter.

Uma ascensão marcada por polémicas
A ascensão de MrBeast na indústria não tem sido um percurso pacífico. A Beast Industries, nos seus primeiros anos, foi abalada por acusações públicas de toxicidade no local de trabalho e práticas de contratação questionáveis.
Em resposta, conduziu uma auditoria independente encomenda pela empresa, cujo relatório — divulgado em novembro de 2024 — constatou “incidentes isolados de assédio e má conduta no local de trabalho”, ressalvando que a administração agiu com rapidez e ilibando a empresa de contratar conscientemente indivíduos problemáticos.
Mas a crise reputacional agravou-se com novos processos. Este ano, uma antiga executiva acusou a liderança da empresa de assédio sexual e discriminação por gravidez. A queixosa alega que a empresa omitiu as políticas de licença de maternidade, sendo que tal levou a participar em reuniões de trabalho virtuais durante o trabalho de parto por medo de represálias. A ex-executiva alega ter sido demitida três semanas após o regresso da licença. Ao New York Times, a Beast Industries negou categoricamente os factos, afirmando que o processo se baseia em falsidades e que possui “ampla evidência” para refutar as alegações.
Não é o único processo. Mais de uma dúzia de participantes da primeira temporada do “Beast Games” declararam ao jornal norte-americano que não tinham recebido cuidados de saúde nem comida adequada durante o concurso e que existiram concorrentes a saírem fisicamente lesionados. Um porta-voz do MrBeast afirmou na altura que a gravação “infelizmente foi complicada pelo incidente com a CrowdStrike, condições meteorológicas extremas e outros problemas logísticos e de comunicação inesperados“. O porta-voz disse que o MrBeast iniciou uma investigação formal e “tomou medidas para garantir que aprendemos com esta experiência”. No entanto, isso não impediu que um grupo de concorrentes tenha se unido numa ação judicial.
A própria expansão da Beast Industries tem acendido alertas em Washington. A investida no setor financeiro — marcada pela aquisição da app para jovens Step — com planos anteriores da criação da marca MrBeastFinancial, onde se incluem menções a criptomoedas — levou a senadora norte-americana Elizabeth Warren a enviar uma carta de 12 páginas à empresa a pedir detalhes sobre os planos junto do público jovem.
Filantropia
A vertente humanitária do criador mantém números de grande escala. Desde 2025 que a Beast Philanthropy estabeleceu uma parceria estratégica com a Fundação Rockefeller, desenhada especificamente para mobilizar e incentivar os jovens a doar.
Até à data, segundo dados compilados pela Fortune, a organização já distribuiu mais de 300 milhões de dólares em apoio alimentar (equivalente a cerca de 42 milhões de refeições), 5 milhões de dólares em auxílio humanitário a refugiados ucranianos e 500 mil dólares em material escolar e soluções tecnológicas para instituições de ensino.
No entanto, esse caminho também não é livre de críticas, com a discussão online a apontar contradições entre as atividades filantrópicas e depois o tipo de vídeos que são publicados no canal principal de Jimmy Donaldson.
O caso de MrBeast mostra como alguns dos maiores criadores digitais estão a transformar a audiência conquistada nas plataformas em empresas de entretenimento e consumo com ambições globais — um modelo que combina crescimento acelerado, inovação e um escrutínio cada vez maior.

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