De Beers extrai mais diamantes, mas receitas afundam 44% no segundo trimestre
A empresa vai suspender a produção da sua maior mina na África do Sul e suspender investimentos. Guerras e concorrência de diamantes produzidos em laboratório explicam os números.

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A produção de diamantes em bruto da companhia De Beers aumentou 88% no segundo trimestre, para 7,8 milhões de quilates. O salto, porém, não corresponde a uma fase fulgurante no mercado. As receitas das vendas recuaram 44% e o preço médio caiu 37%, de acordo com os resultados divulgados pela empresa esta quinta-feira, que culpa a incerteza económica e a pressão dos diamantes produzidos em laboratório.
“O contexto geopolítico e macroeconómico continua incerto, com o início do conflito no Médio Oriente a agravar os riscos para a economia e para a confiança dos consumidores”, lê-se no comunicado da empresa.
“Os diamantes sintéticos produzidos em laboratório continuaram também a afetar a procura de diamantes naturais de menor valor, aumentando a pressão sobre as categorias mais sensíveis ao preço”, refere a mesma fonte, acrescentando que “os preços mais elevados dos produtos de maior valor sustentaram a estabilidade do índice geral de preços médios ao longo do período”.
A De Beers diz que retirou das suas minas quase o dobro dos diamantes que produziu um ano antes, mas recebeu substancialmente menos por aquilo que vendeu. Estes são os dados:
- Entre abril e junho, a produção atingiu 7,8 milhões de quilates, mais 88% do que no período homólogo e 9% acima do primeiro trimestre.
- Em sentido contrário, as receitas consolidadas das vendas de diamantes em bruto caíram de 1.185 milhões para 665 milhões de dólares (cerca de 565 milhões de euros), uma quebra homóloga de 44%.
Esta aparente contradição resume o momento difícil vivido pela indústria dos diamantes naturais. O aumento da produção reflete sobretudo uma base de comparação baixa, devido à prolongada paragem, para manutenção, na mina de Orapa, no Botsuana, durante o período homólogo, e o processamento planeado de minério com maior teor de diamantes em Jwaneng, também no Botsuana, e em Gahcho Kué, no Canadá.
Mais produção no Botsuana e no Canadá
O Botsuana, principal centro produtivo da De Beers, fundada em 1888 na África do Sul, foi responsável por 5,5 milhões de quilates no trimestre, mais 107% do que no mesmo período de 2025. A produção de Orapa mais do que triplicou, para 2,7 milhões de quilates, enquanto Jwaneng avançou 50%, para 2,8 milhões.
No Canadá, Gahcho Kué produziu pouco mais de um milhão de quilates, quase três vezes o volume registado um ano antes. A mina beneficiou do processamento de minério de maior teor proveniente de uma nova área de exploração. Na África do Sul, a produção de Venetia aumentou 24%, para 734 mil quilates, graças ao tratamento de maiores volumes de minério extraído das operações subterrâneas.
A Namíbia foi a exceção a este aumento de extração. A produção permaneceu praticamente inalterada em 531 mil quilates, com o crescimento das operações terrestres da Namdeb a compensar parcialmente a redução da atividade da Debmarine Namibia. A retirada do navio Coral Sea e a manutenção programada do Mafuta condicionaram a produção marítima, diz a DeBeers.
A De Beers vendeu 7,1 milhões de quilates durante o segundo trimestre, menos 7% do que um ano antes.
No primeiro semestre, a De Beers produziu 14,9 milhões de quilates, um crescimento de 46%. As vendas avançaram 20%, para 14,8 milhões de quilates, mas o respetivo valor consolidado caiu 23%, para 1.313 milhões de dólares.
O grupo vendeu uma proporção superior de diamantes de menor valor, enquanto o índice médio dos preços dos diamantes em bruto caiu 16%. O preço médio realizado no semestre desceu 32%, dos 155 para os 105 dólares por quilate.
No total, a De Beers vendeu 7,1 milhões de quilates durante o segundo trimestre, menos 7% do que um ano antes. O volume baixou 11%, para seis milhões de quilates. O preço médio realizado recuou 37%, dos 174 para os 110 dólares por quilate.
Diamantes de laboratório pressionam mercado
Mas se o contexto geopolítico prejudica as receitas da DeBeers, a empresa assume que os diamantes sintéticos produzidos em laboratório continuam a retirar procura aos diamantes naturais de menor valor, sobretudo nos segmentos mais sensíveis ao preço. O comportamento dos bens de maior valor ajudou, ainda assim, a estabilizar o índice médio de preços ao longo do semestre.
Para 2026, a empresa manteve a previsão de produção entre 21 e 26 milhões de quilates, mas o ritmo deverá abrandar na segunda metade do ano, devido às intervenções de manutenção previstas em Orapa e Jwaneng e à suspensão temporária da produção em Venetia, na África do Sul, conhecida há uma semana.
O custo unitário deve permanecer inalterado, em cerca de 80 dólares por quilate.
O Financial Times avançou que a De Beers vai suspender a produção na maior mina de diamantes da África do Sul durante dois anos e diminuir o investimento de capital neste local, com o objetivo de reduzir custos (e antecipando já a depressão do mercado destas pedras preciosas que está a pesar sobre as contas da empresa).
Citado pelo Financial Times (acesso pago), Al Cook, presidente executivo do De Beers Group, afirmou que a medida pretende “garantir uma maior resiliência do negócio no curto prazo, ao mesmo tempo que apoia a criação de valor a longo prazo”. A mina Venetia representa cerca de 40% da produção anual de diamantes da África do Sul e 10% do total do grupo De Beers.
Venetia emprega cerca de 3.500 pessoas e foi alvo de um investimento forte na década passada – 2,2 mil milhões de dólares usados na transformação da mina, anteriormente a céu aberto, numa exploração subterrânea, como recorda o FT. “Este foi o maior investimento no setor diamantífero da África do Sul em várias décadas. Na altura, a De Beers afirmou que esperava manter a mina em funcionamento até 2046”.
A suspensão da mina Venetia não é a única medida de ‘emagrecimento’ que está a ser levada a cabo pela De Beers. Este ano foi também anunciado pela empresa que vão interromper a terceira fase da expansão da mina de Gahcho Kué, no Canadá, a mesma que aumentou de produção no segundo trimestre do ano. A empresa também divulgou que reduziu em mais de 100 milhões os custos anuais da empresa.
Detido pela Anglo American em 85% e 15% pelo governo da República do Botsuana, o grupo DeBeers, especialista na venda de diamantes em bruto, encontra-se, neste momento, à venda. Entre os interessados na sua aquisição estão Gareth Penny, que liderou a empresa entre 2006 e 2022, e “Nir Livnat, presidente executivo do negócio de diamantes Diacore Group, e Michael O’Keeffe, presidente não executivo da Burgundy Diamond Mines, lideram outros dois consórcios envolvidos no processo”, segundo o FT.
O gigante mineiro está a levar a cabo um plano de reestruturação da companhia com o objetivo de focar a sua atividade no cobre, o metal industrial essencial para responder ao rápido crescimento do consumo de eletricidade e aos centros de dados que alimentam a inteligência artificial.
Analistas conhecedores do mercado têm chamado a atenção para o abrandamento da procura, sobretudo na China, e, mais uma vez, a concorrência das pedras produzidas em laboratório, que chegam ao mercado a preços mais baixos. O índice do preço dos diamantes em bruto caiu cerca de 50% em relação ao máximo histórico registado em 2022, altura em que os joalheiros se queixavam do elevado preço das matérias-primas (diamantes, mas também metais nobres com ouro e prata).
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