Compra de 3,9 mil milhões das fragatas com retorno “assinalável”, mas indústria ainda às escuras
Construção de uma doca flutuante ou sistemas de combate serão áreas onde empresas nacionais estão envolvidas no negócio das fragatas, diz Defesa. Indústria não sabe qual o retorno, nem as empresas.
A compra de três fragatas FREMM EVO à italiana Fincantieri por cerca de 3,9 mil milhões de euros vai ter um retorno “assinalável” para a economia portuguesa, mas no setor de defesa nacional não é claro quanto desse investimento se vai refletir na indústria, nem há informação oficial sobre as empresas envolvidas. “Sei que houve contactos feitos com empresas portuguesas há alguns meses. Não sei é como esses contactos se vão realizar em contratos que permitam às empresas portuguesas se projetarem neste projeto”, atira José Neves, presidente do AED Cluster Portugal.
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A compra das fragatas que irão reforçar a frota da Marinha Portuguesa representa a maior tranche dos 5,8 mil milhões garantidos por Portugal no âmbito do programa de empréstimo europeu SAFE. No setor, a expectativa é que o retorno para a indústria seja elevado.
“Cada euro que Portugal investe na defesa tem que ter esse retorno desse euro na sua indústria. Caminhamos para um mundo em que Portugal vai fazer 5% de investimento em defesa anualmente do seu PIB. Isso significa, nos próximos anos, valores de milhares de milhões de euros de investimento”, comenta José Neves.
“Das duas, uma, ou importamos todo esse equipamento, ou começamos nós próprios em Portugal a desenvolver a nossa indústria para sermos capazes de dar resposta aos investimentos exigidos pela NATO e a que Portugal se comprometeu. Essa é uma mudança de paradigma que temos que assumir em Portugal: produzirmos, cada vez mais, em Portugal, até por uma questão de equilíbrio da nossa balança comercial”, diz o presidente da AED Cluster, associação que reúne mais de 190 empresas do setor de defesa, espaço e aeronáutica em Portugal.
Sei que houve contactos feitos com empresas portuguesas há alguns meses. Não sei é como esses contactos se vão realizar em contratos que permitam às empresas portuguesas se projetarem neste projeto.
Se cada euro de investimento resulta num euro para a economia, o retorno para o país com a compra das fragatas será também de 3,9 mil milhões de euros? “Neste momento não consigo dizer porque, infelizmente, não tenho essa informação, não é pública por parte do Estado português”, admite José Neves. “Do ponto de vista do cluster temos esse objetivo. As nossas empresas têm essa ambição. É um momento único para Portugal ter uma pegada sólida no futuro da indústria de defesa não europeia, mas global”, aponta.
“Temos que aproveitar este investimento exatamente para capitalizar e galvanizar as nossas empresas. Temos a mão de obra, a engenharia de excelência, agilidade, empresas que querem fazer parcerias de longo prazo. Temos todos os ingredientes para termos o sucesso neste setor. E a demonstração disso é que temos cada vez mais empresas estrangeiras, inclusive a investir em Portugal no setor da defesa, no setor do espaço, no setor da aeronáutica”, diz.
Retorno “assinalável” para a economia
O retorno para a economia nacional e o envolvimento da indústria de defesa nacional tem sido um ponto que o Ministério da Defesa tem vindo a repetir – quer potenciar os 5,8 mil milhões do SAFE, empréstimo militar europeu que terá de ser pago. Mas, nesta fase, o ministério liderado por Nuno Melo não avança números, apenas que a compra das fragatas para a Marinha portuguesa terá um retorno “assinalável”. E dá alguns detalhes sobre como será feito esse retorno.
“No caso das Fragatas FREMM EVO em concreto, será assinalável o retorno para a economia nacional, com a construção de uma doca flutuante, sistemas de combate e software operacional, simuladores e sistemas integrados de comunicações, a cargo de empresas portuguesas que mercê da sua experiência e capacidade asseguram um baixo risco perante os constrangimentos SAFE na execução do âmbito respetivo”, adianta fonte oficial do Ministério da Defesa, ao ECO/eRadar.
No caso das Fragatas FREMM EVO em concreto, será assinalável o retorno para a economia nacional, com a construção de uma doca flutuante, sistemas de combate e software operacional, simuladores e sistemas integrados de comunicações, a cargo de empresas portuguesas que mercê da sua experiência e capacidade asseguram um baixo risco perante os constrangimentos SAFE na execução do âmbito respetivo.
Que empresas nacionais estão envolvidas?
Que valor “assinalável” é esse a Defesa não adianta nesta fase, nem que empresas nacionais estarão envolvidas. Público é que o Arsenal do Alfeite irá beneficiar desta compra.
O estaleiro naval “será alvo de capacitação e transferência de tecnologia, bem como de investimento significativo na recapacitação”, assegura fonte oficial do Ministério da Defesa.
“O Arsenal do Alfeite terá capacidade para prestar os serviços necessários em favor da Marinha, relacionados com as características de navios de última geração, altamente tecnológicos”, refere. “Isso implicará investir em ações de dragagem, modernização de equipamentos e infraestruturas e formação de trabalhadores”, detalha.
O Ministério da Defesa não adianta, todavia, que valor será investido nessa capacitação. Em março, durante uma audição da Comissão de Defesa, Nuno Melo, tinha referido que a compra das fragatas para reforçar a Marinha Portuguesa deveria implicar um investimento entre 150 a 200 milhões de euros. “Em momento oportuno será detalhado o investimento pensado para o Arsenal do Alfeite”, diz apenas fonte oficial do Ministério da Defesa.
E também “oportunamente será dada indicação em concreto das empresas envolvidas”, diz o ministério liderado por Nuno Melo.
O ministério optou por não comentar a informação recolhida pelo ECO/eRadar de que, pelo menos, a EID — empresa que ganhou um contrato de mais de 42 milhões para instalar sistemas integrados de controlo de comunicações (SICC) em mais de uma dezena de navios, entre as quais as fragatas Vasco da Gama ou o porta-drones NRP D. João II — ou a Critical Sofware — tecnológica que trabalha com a Armada em vários projetos e já tem um percurso no setor de defesa europeu, faz parte, por exemplo, do consórcio do projeto BEAST e está a desenvolver o simulador para treino de pilotos dos caças Gripen da Saab — seriam algumas das companhias nacionais envolvidas neste projeto com a empresa italiana.
Contactadas pelo ECO/eRadar, as empresas optaram por não elaborar sobre o seu potencial envolvimento. “Estamos com a indústria nacional, através da IdD [Portugal Defence], a apresentar as nossas competências e temos a expectativa de sermos incluídos”, disse apenas João Carreira, CEO da Critical Software.
E a EID também preferiu não comentar. “A EID está atenta à oportunidade, mas ainda é prematuro fazer qualquer comentário”, afirma fonte oficial da empresa.
“Esperemos que nos próximos tempos se consiga descobrir um pouco mais sobre como é que as empresas portuguesas não só vão estar envolvidas, mas sobretudo, podem projetar o know how adquirido neste programa para outros programas. Não pensamos neste programa como um fim, mas com o princípio de uma capacidade que possamos desenvolver de uma forma mais ampla”, comenta José Neves.
Foi “condição imposta pelo ministério da Defesa Nacional, que grande parte dos equipamentos venham a ser produzidos em Portugal, em colaboração com empresas já existentes, ou a instalar. Assim sucederá com a produção de satélites, veículos blindados ou munições, que se acredita acontecerá em Portugal.
Esta estratégia garantirá a criação de clusters que alavancarão à sua volta parte importante do tecido empresarial português. Pense-se, por exemplo, no efeito potenciador da AutoEuropa, ao tempo.
A dimensão de retorno económico e financeiro direto e indireto será gigantesca, mas difícil de quantificar em conjunto no momento presente, por depender de múltiplas dinâmicas do próprio mercado.
“Até porque — e este é um ponto importante — como as fragatas já são um produto desenvolvido, naturalmente a margem para desenvolver novos produtos para estas fragatas é pequena. Podíamos realmente, com o capital humano e com a transferência de tecnologia que possa ser transferida para as empresas portuguesas, pensarmos em capitalizar para outros futuros programas, seja com a Fincantieri seja com outros grandes fornecedores mundiais”, refere o presidente da AED Cluster.
Em novembro do ano passado, a Fincantieri esteve em Portugal no âmbito de um Industry Day, promovido pela idD Portugal Defence, e nesse altura a AED Cluster tentou uma abordagem “para conseguirmos mostrar-lhe, e aos seus fornecedores principais, como a Leonardo, as capacidades existentes em Portugal”, admite José Neves.
“Uma vez que as questões de negociação estão fechadas entre os dois Estados — o SAFE é um contrato Estado-Estado — é realmente o momento ideal para voltarmos novamente a conversar com a Fincantieri para tentar projetar ao máximo o que Portugal e as empresas portuguesas poderão fazer neste programa“, diz.
Primeiro contrato SAFE fechado
O contrato com Itália e com o estaleiro Fincantieri é o primeiro a ser fechado por Portugal no âmbito do SAFE, mas previsto está ainda a compra de outros equipamentos para capacitar as Forças Armadas nacionais, como veículos blindados de rodas, satélites ou drones. Esses contratos estão ainda por fechar — Nuno Melo apontava ter o grosso desse dossiê fechado até final de julho — e a expectativa é que também gerem retorno para a economia.
“De sublinhar, para lá do investimento em concreto nas Fragatas, a circunstância de ter sido condição imposta pelo ministério da Defesa Nacional, que grande parte dos equipamentos venham a ser produzidos em Portugal, em colaboração com empresas já existentes, ou a instalar”, destaca fonte oficial do Ministério da Defesa ao ECO/eRadar. “Assim sucederá com a produção de satélites, veículos blindados ou munições, que se acredita acontecerá em Portugal”, detalha.
“Esta estratégia garantirá a criação de clusters que alavancarão à sua volta parte importante do tecido empresarial português. Pense-se, por exemplo, no efeito potenciador da AutoEuropa, ao tempo”, aponta.
“A dimensão de retorno económico e financeiro direto e indireto será gigantesca, mas difícil de quantificar em conjunto no momento presente, por depender de múltiplas dinâmicas do próprio mercado.”
Para quando o desembolso do cheque SAFE?
O desembolso da primeira tranche de 15% do montante garantido via SAFE, mais de 800 milhões, ainda não ocorreu, embora inicialmente sido apontado para março. Como este acordo, as condições do desembolso ficam asseguradas?
“As condições para o financiamento SAFE são independentes do acordo ontem celebrado, e estão lavradas no Acordo de Empréstimo, a ser assinado pelo Ministério das Finanças e Ministério da Defesa Nacional com a Comissão Europeia. Este será celebrado após o procedimento interno, em curso”, refere apenas fonte oficial do Ministério da Defesa sem apontar uma data.
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