Matisse e Saint Laurent: quando a pintura e a alta-costura se encontram

Ânia Ataíde,

Uma nova exposição em Nice reúne 160 obras dos dois artistas para revelar um diálogo criativo que atravessa a pintura, os tecidos, o desenho e a moda.

Henri Matisse e Yves Saint Laurent nunca se conheceram. Quando o pintor morreu, em 1954, o futuro criador tinha apenas 18 anos. Separados por uma geração, um foi um dos pintores que revolucionou a arte, o outro transformou para sempre a alta-costura. Ainda assim, poucos artistas marcaram tão profundamente a imaginação do fundador da maison Saint Laurent como o mestre francês da cor.

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É essa relação que serve de ponto de partida para a exposição Henri Matisse – Yves Saint Laurent. Le beau, la mode et le bonheur, patente até ao dia 28 de setembro no Museu Matisse de Nice, em França.

Organizada por um dos museus mais visitados de Côte d’Azur em parceria com o Museu Yves Saint Laurent Paris, a mostra reúne cerca de 160 obras, entre vestidos de alta-costura, pinturas, desenhos, têxteis, figurinos, acessórios e documentos de arquivo, propondo uma leitura inédita das afinidades entre dois universos criativos que marcaram profundamente a cultura visual contemporânea.

Exposição “Henri Matisse – Yves Saint Laurent: Le beau, la mode et le bonheur”, patente no Museu Matisse, em Nice (França), entre 17 de junho e 28 de setembro de 2026.

Ao longo de sete capítulos, distribuídos por dois pisos, a exposição mostra como pintura e alta-costura partilham referências, materiais e formas de criação. Para o demonstrar, logo à entrada, uma frase de Yves Saint Laurent funciona como uma espécie de manifesto sobre o que se segue. “Quis tecer ligações entre a pintura e o vestuário, convencido de que um pintor é sempre contemporâneo e pode acompanhar a vida de cada um“, pode ler-se.

Ultrapassada a ideia de que pintura e moda pertencem a mundos distintos, a visita entra na intimidade criativa de dois dos artistas que marcaram a cultura do século XX. É aqui que se percebe o primeiro elo entre ambos. Livros, tecidos, fotografias, objetos recolhidos em viagens, arquivos e curiosidades conviviam lado a lado nos espaços que os rodeavam e alimentavam permanentemente o seu imaginário. Até porque, quer para Matisse quer para Yves Saint Laurent, o atelier não era apenas um espaço de trabalho, mas também um verdadeiro laboratório de experimentação.

Exposição “Henri Matisse – Yves Saint Laurent: Le beau, la mode et le bonheur”, patente no Museu Matisse, em Nice (França), entre 17 de junho e 28 de setembro de 2026.Ânia Ataíde/ECO Junho de 2026

É também por esta altura que surgem os primeiros vestidos da mostra assinados por Yves Saint Laurent e um dos quadros mais conhecidos de Matisse — Les Trois Soeurs (que em Portugal é utilizado para ilustrar a capa do livro “As palavras da Noite”, de Natalia Ginzburg, editado pela Relógio D’Água).

Datado de 1917, o óleo sobre tela traz-nos o primeiro exemplo perfeito sobre como o vestuário ocupava um lugar de destaque nas suas composições. Como assinalado pelo Museu, as três irmãs representadas na obra usam roupas contemporâneas, incluindo um casaco com padrão fúcsia criado por Paul Poiret, testemunhando o interesse do pintor pela moda e pelas qualidades plásticas dos têxteis.

Nascido numa região profundamente ligada à indústria têxtil, não é surpreendente que o pintor vestisse frequentemente as suas modelos com criações de estilistas como o referido Paul Poiret, mas também Elsa Schiaparelli ou Edward Molyneux, e tenha começado desde cedo a colecionar tecidos e estampados, construindo aquilo a que chamava a sua “biblioteca de trabalho“. Esse conjunto de amostras, trajes e padrões tornou-se parte integrante da sua pintura. Décadas mais tarde, Yves Saint Laurent seguiria o mesmo caminho e criaria igualmente a sua própria coleção de referências, à qual chamava os seus “fantasmas estéticos“.

Exposição “Henri Matisse – Yves Saint Laurent: Le beau, la mode et le bonheur”, patente no Museu Matisse, em Nice (França), entre 17 de junho e 28 de setembro de 2026.Ânia Ataíde/ECO Junho de 2026

Da pintura para a alta-costura

Ao longo do percurso vai compreendendo-se a forma como a influência de Matisse sobre Yves Saint Laurent ultrapassa largamente a utilização da cor. O pintor moldou igualmente a forma como o estilista olhava para o vestuário e os padrões, ajudando-o a construir a sua própria linguagem.

O designer descobriu Matisse primeiro através dos livros, começando depois a colecionar as suas obras juntamente com Pierre Bergé. Entre as peças que integravam a coleção privada do casal encontravam-se obras como Les Coucous, Tapis Bleu et Rose, Nu au Bord de La Mer ou Le Danseur.

Exposição “Henri Matisse – Yves Saint Laurent: Le beau, la mode et le bonheur”, patente no Museu Matisse, em Nice (França), entre 17 de junho e 28 de setembro de 2026.Ânia Ataíde/ECO Junho de 2026

Em vez de reproduzir literalmente as pinturas, o criador reinterpretou-lhes as formas, os volumes e os padrões. Um dos exemplos apresentados é o vestido azul de mangas volumosas pintado por Matisse, que inspirou um vestido de noite em tafetá criado por Saint Laurent em 1981. Outro estabelece uma ponte entre o chamado vestido “escocês” pintado por Matisse em 1941 e uma coleção de pronto-a-vestir apresentada pelo costureiro em 1994, onde as pinceladas do pintor são transpostas para seda estampada.

Um outro momento, num dos diálogos mais interessantes da exposição, coloca na mesma rota o Fleurs et fruits, pintado por Matisse entre 1952 e 1953, e a colagem Jarre avec fruits, criada por Yves Saint Laurent em 1981. Uma das legendas explica que Matisse concebeu Fleurs et fruits para decorar o pátio de uma villa na Califórnia, recorrendo aos seus célebres recortes em papel pintado para criar uma composição de frutos estilizados e folhas exuberantes. Quase três décadas depois, Saint Laurent recuperou esse universo na colagem. O interesse pelos motivos frutícolas acabaria por estender-se às suas coleções de moda, surgindo mais tarde em bordados de laranjas e limões apresentados nas coleções primavera-verão de 1992 e 2001.

Exposição “Henri Matisse – Yves Saint Laurent: Le beau, la mode et le bonheur”, patente no Museu Matisse, em Nice (França), entre 17 de junho e 28 de setembro de 2026.Ânia Ataíde/ECO Junho de 2026

Estes são apenas alguns dos vários encontros entre ambos. Para os curadores, esta aproximação simboliza a continuidade entre a pintura de Matisse e a criatividade de Yves Saint Laurent, como duas formas distintas de celebrar a cor, o ornamento e a composição.

Não é de estranhar, portanto, a citação atribuída a Yves Saint Laurent colocada sob um vestido preto e branco, apresentado isoladamente. “Matisse teve uma influência decisiva na minha utilização da cor porque, no início, eu acreditava apenas no preto. Demorei muito tempo a habituar-me à cor. Hoje, creio que a domino de forma brilhante“.

Quando se abandona o museu e se regressa às ruas quentes de Nice, percebe-se que Saint Laurent nunca tentou vestir os quadros de Matisse. Fez algo mais difícil. Transportou para a moda a sua forma de olhar para a cor, o desenho e o espaço. É essa conversa silenciosa entre pintura e alta-costura que torna esta exposição uma das mais interessantes do verão francês.

Exposição “Henri Matisse – Yves Saint Laurent: Le beau, la mode et le bonheur”, patente no Museu Matisse, em Nice (França), entre 17 de junho e 28 de setembro de 2026.Ânia Ataíde/ECO Junho de 2026

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