Luxo português aposta na autenticidade para resistir ao novo ciclo económico

ECO Avenida,

As margens estão cada vez mais sob pressão e há escassez de espaço na Avenida da Liberdade, temas que marcaram o debate que juntou Paula Sousa, David Kolinski e Eric Van Leuven no ECO Luxury Summit.

A indústria do luxo foi o foco da conferência ECO Luxury Summit, que reuniu, esta quinta-feira, decisores, investidores e especialistas em Lisboa. O painel “Estratégia e Mercados”, moderado pela jornalista Lina Santos, contou com três olhares sobre o setor em Portugal: o do design, com Paula Sousa, fundadora da marca Ginger & Jagger e da plataforma Just Like Honey, que faz consultora na área da criação de marcas, o da joalharia e relojoaria, com David Kolinski, CEO da Tempus (que detém a Boutique dos Relógios), e o do imobiliário prime, com Eric van Leuven, consultor imobiliário e presidente da Associação Avenida. Visões diferentes e consenso sobre um tema: Portugal tem hoje uma oportunidade rara no mercado do luxo.

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O debate contou com David Kolinsky, CEO da Tempus (que detém a Boutique dos Relógios), Paula Sousa, fundadora da Ginger & Jagger, e Eric van Leuven, presidente da Associação Avenida

“Estamos a passar de um luxo que tem a ver com um capital de status, um capital cultural, para cada vez mais autenticidade e, na minha perspetiva, para a simplicidade”, acredita Paula Sousa. A designer defende que Portugal não deve imitar destinos consagrados, mas antes criar o seu próprio espaço neste segmento. “Não podemos ser a Art de Vivre de França, não podemos ser Dolce Vita [de Itália], não podemos ser o craftmanship japonês. Somos portugueses”, aponta, recordando clientes internacionais que recusam restaurantes com estrela Michelin em favor de um peixe grelhado servido com genuinidade.

É uma indústria, pelo menos nas marcas internacionais, que está em crescimento de dois dígitos

David Kolinsky

CEO da Tempus

David Kolinski confirma que existe uma tendência que os dados da Tempus também revelam e que se prende com o regresso das pessoas às joias. “É uma indústria, pelo menos nas marcas internacionais, que está em crescimento de dois dígitos. É uma coisa rara hoje em dia no luxo”, sublinha. Segundo o CEO, o motor não é o investimento financeiro, mas a procura de segurança emocional. “As pessoas procuram guardar valor, construir um tesouro de família, valorizar o craftmanship e a heritage“.

O mesmo movimento explica o rejuvenescimento “surpreendente” da alta relojoaria desde a pandemia. “Hoje, a juventude compra relógios da alta relojoaria. Foi uma coisa que nunca imaginei”, reconhece, associando o interesse a um desejo de contraste com o excesso de tecnologia. “Já têm muita tecnologia e fazem dinheiro através de plataformas, de Bitcoin ou de inteligência artificial (IA). Depois vem um relógio feito à mão que demorou meses a fazer e é o que lhes vai dar prazer no dia a dia”.

As artérias de luxo são finitas. A Avenida da Liberdade tem um quilómetro e 130 lojas. É o que há

Eric van Leuven

Presidente da Associação Avenida

Porém, no imobiliário a pressão sente-se de outra forma, considera Eric van Leuven, que alerta que as principais artérias de luxo em Lisboa estão praticamente esgotadas. “As artérias de luxo são finitas. A Avenida da Liberdade tem um quilómetro e 130 lojas. É o que há”. As rendas subiram cerca de 30% nos últimos seis anos, efeito da procura quase diária de marcas internacionais, e o crescimento espalha-se agora para ruas transversais, como a Rua Rosa Araújo, e para os primeiros andares dos edifícios, convertidos em espaço comercial.

Questionado sobre uma eventual saída daquela avenida lisboeta, Kolinsky explica que a Tempus segue o sentido contrário, tendo aberto a oitava loja ali há um mês. “As marcas de luxo têm de estar juntas. Sair da Avenida da Liberdade seria fragmentar essa magia”, acredita.

O luxo é irracional. Se formos pensar na razão de investir 40, 100 ou 200 mil euros num automóvel, é irracional

Paula Sousa

Fundadora da Ginger & Jagger

Ciclo económico combatido com autenticidade

O debate tocou ainda na eterna questão de saber se o luxo é substância ou apenas uma questão de perceção. “O luxo é irracional. Se formos pensar na razão de investir 40, 100 ou 200 mil euros num automóvel, é irracional”, diz Paula Sousa, que explica que a perceção é apenas um dos pilares, ao lado da qualidade e do capital criativo. Kolinsky concorda que o marketing sozinho nunca basta, embora ajude “a alavancar uma marca em que o produto se destaca dos outros”.

A subida do preço das matérias-primas e a instabilidade geopolítica testam também a capacidade de resposta das marcas. David Kolinski descreve a atual situação como um “paradoxo do retalho”, em que os custos aumentam mas nem tudo pode ser repercutido no consumidor. A resposta da Tempus, diz, passa por reforçar a componente experiencial das lojas, com workshops e equipas mais preparadas para clientes cada vez mais informados.

Sobre as vantagens competitivas de Portugal, os três oradores apontam as pessoas como sendo o elemento mais importante. Eric van Leuven recorda dois estrangeiros que se mudaram recentemente para o país, rendidos à hospitalidade nacional, para argumentar que “o essencial são as pessoas e a forma como são hospitaleiras e acolhedoras”. Paula Sousa acrescenta o valor do território ainda preservado e do saber fazer artesanal, e apela a que os portugueses comprem mais design nacional. A segurança e a genuinidade são, defende David Kolinski, argumentos decisivos para o cliente internacional que compra em Lisboa, mesmo em marcas globais. “Sentem a portugalidade em tudo o que fazem”, remata.

Veja aqui o debate:

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